Folgas e páginas

Um amigo meu escreveu, um dia, que o jornalismo mata a inteligência. A pressão do quotidiano, as notícias do dia-a-dia impendem-nos de pensar. Quando regressei ao jornalismo, o Ivan Nunes disse-me com um sorriso irónico: “vais deixar de ler”. Apesar do trabalho tenho-me esforçado por continuar a tentar, com a vaga esperança que as páginas calmas me mantenham desperto, mas tem sido dificil. O cansaço e o comando da televisão são concorrentes temíveis.

Para recuperar o tempo perdido, tirei uns cinco dias de folga e apressei-me a ler: tão rápido como o Henrique Raposo, embora mais lento que a Clara Ferreira Alves. Comecei com “O Estado da Negação” de Bob Woodward que me surpreendeu. Acho fantástico a quantidade de fontes, políticos poderosos e documentos que são citados. Do ponto de vista do esclarecimento de como se passou o trabalho dos gabinetes é uma obra bastante interessante, embora, peque, na minha opinião, por reduzir as razões da guerra do Iraque a uma espécie de desejo de Bush junior vingar/suplantar Bush pai. E resumir os erros de avaliação e de política e de condução do pós-guerra à responsabilidade de alguns maniacos com poder: Rumsfeld e Bremer, estariam, segundo o livro, obcecados com o seu o seu poder pessoal e não delegavam tarefas. O falhanço da ocupação do Iraque dever-se-ia, segundo Woodward, a uma pequena praga de “gestores de pormenor”, com tendência para o autoritarismo, dirigidos por um presidente pouco consciente.

É fantástico que, em quase 500 páginas de livro, Guantánamo, os vôos da CIA e o petróleo não mereçam mais do que meia dúzia de linhas. Bem pode o antigo responsável económico dos governos republicanos Alan Greenspam garantir que a guerra é por causa do petróleo, no livro de Bob Woodward podíamos estar no deserto de Alcochete e sem rasto de crude.

Os dois livros seguintes foram “A marca do assassino” do descendentes de açorianos Daniel Silva e “O espião Fiel”, de Alex Bereson. São dois exemplos de literatura de aeroporto escorreito que merecem duas pequenas notas. “A marca do assassino”, embora editado agora, deve ser um dos primeiros livros de Daniel Silva. O executor israelita Gabriel Alon não aparece, e o seu chefe Shamron é descrito como um vulgar golpista que paga, com outros, a um assassino da KGB para manter o clima de guerra. É interessante verificar que a orientação política dos outros livros muda 180 graus. Já o livros do jornalista do New York Times Alex Bereson tem mais meio milímetro de densidade. “O Espião Fiel” conta a história de um agente da CIA que infiltrado na al Qaeda se converte ao islamismo, mantendo a sua lealdade com os Estados Unidos. A ideia é interessante, mas o livro é um livrito.

O último que li, foi ” O que resta da esquerda?” de Nick Cohen, o livro merece uma discussão mais aprofundada num post posterior. Apenas gostava de referir que convinha que Cohen lesse os livros que cita: aquilo que ele escreve de Foucault e de Negri é risível. Ele nem sequer leu o primeiro capítulo para perceber que o conceito de “Império” não é o “imperialismo” e, sobretudo, não se refere aos Estados Unidos. Já para não falar da citação ridícula que faz do livro para afirmar a cumplicidade de Negri com os fundamentalistas. Dizer que o fundamentalismo é uma reacção contemporânea à modernidade não significa chamar o fundamentalismo “progressista”. Significa apenas situar a altura em que este fundamentalismo muçulmano (e também cristão) prospera. A leveza do livro de Cohen, as suas manipulações evidentes, tornam muito fácil não olhar para ele. No entanto, quando se quer analisar um argumento deve-se discuti-lo pelo seu lado forte e não pelas suas fraquezas. Cohen levanta uma questão importante: se, de facto, a esquerda não contemporiza com algumas ditaduras, pelo simples facto que elas se opõem à hegemonia norte-americana. É este ponto que vale a pena ser discutido. Mesmo que o autor tenha como pergaminhos de esquerda o facto de não ter comido laranjas portuguesas em pequenino.

Para o fim de semana ficou o “Goodbye mister socialism” de Negri e “deus não é grande” de Christopher Hitchens. O último é para perceber a paixão da Câncio. Para falar verdade, a última reportagem que li dele, na Vanity Fair de Novembro, pareceu-me uma merda.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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7 respostas a Folgas e páginas

  1. ivan diz:

    Desangustia-te, Nuno. O único livro que é preciso ler é este:
    http://www.webboom.pt/ficha.asp?ID=164176
    e estou a falar a sério.

  2. ezequiel diz:

    concordo.

    Hitchens não me convence. Nem Cohen, apesar de concordar com a sua tese das inconsistências éticas… de uma esquerda que perdeu o seu norte.(só li vinte e tal páginas do livro no aeroporto de lisboa…e bastou!)

    quanto aos outros dois, não conhecia, mas a julgar pelas tramas cheesy…apre, nem pensar nisso!

    o clássico de spy mistery é o spycatcher, orwelliano, cinzento e repleto de “suspense.”

    no que diz respeito a filmes, o Three Days of the Condor(Bob Redford), o La Femme Nikita (luc besson), o North by Northwest (Hitchcock), o Spy who came in from the cold (Richard Burton), o The Black Windmill (Michael Caine), The Fourth Protocol (Caine)…e o inesquecível “Topaz”, do igualmente inesquecível Alfredo Hitchcock…são oeuvres Baudelairianas eh eh ehe (António, acalma-te! 🙂 )

    Canons of Navarone, the dirty dozen, a bridge too far, exodus, battle of Britain…todos, todinhos… imprescindíveis!! 🙂

    caro Nuno, os livritos aliviam a alma…são uns milímetros (densidade) preciosos!!

  3. luis eme diz:

    O jornalismo é andar em sentido contrário em relação aos outros (mas mais rápido…), para pudermos ter um olhar diferente sobre os factos e para encontrar o onde quando e porquê…

    (a frase, acho que é minha, mas como já está tudo inventado…)

  4. CARLOS CLARA diz:

    LUIS EME

    Prefiro o que Einstein disse sobre os artistas, com desgosto é certo, porque se Einstein voltasse, não repetia o que disse.

  5. eee diz:

    Tou a ver que todos os dias,são dias da Fernanda Câncio…Começo a ficar chateado.Não é demais?Chiça!!!

  6. M. Abrantes diz:

    Só li esta parte
    “Um amigo meu escreveu, um dia, que o jornalismo mata a inteligência. A pressão do quotidiano, as notícias do dia-a-dia impendem-nos de pensar.”

    Eis algo que se poderia dizer sobre a maior parte dos empreendimentos humanos. Tudo começa com boas intenções, para depois darmos por nós envolvidos pela entropia da estupidez. Para descarregar a consciência e mitigar a nossa impotência, olhamos para as intenções iniciais e chamamos-lhes utopias. Finalmente, para conseguirmos dormir que nem santos e para desafogarmos a nossa autoestima, chamamos lunáticos aos tipos que teimam em defender essas “utopias”.

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