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Escreveu o Ezequiel, em comentário ao meu post “Às voltas com Rousseau”: “Existirá uma tensão irresolúvel entre o ‘liberalismo’ de Émile e o conceito da vontade geral? Parece-me que sim.” A mim parece-me que não, e vou tentar explicar muito brevemente porquê:

É um facto que falta no “Émile” algo que sobra no “Contrat Social”: o sentido do dever. A educação que J. J. Rousseau prescreve no primeiro destina-se a desenvolver livremente o “eu” de cada infante, através de um percurso da sua própria criação, e que é suposto familiarizá-lo com as coisas do mundo. É desse conhecimento directo das coisas que resultará o seu auto-conhecimento, e a afirmação da sua personalidade, indispensável segundo Rousseau para conhecer a Deus, porque Deus não pode ser conhecido pela fides implicita da religião tradicional dos católicos, nem tão pouco pelo testemunho das escrituras caro aos protestantes.

Pelo contrário, a submissão à famosa “vontade geral” que Rousseau prescreve no segundo torna, prima facie, a disciplina do “Contrat social” muito pouco condicente com o “liberalismo” do ideal educativo do “Émile” – não fora o “Émile” ser isso mesmo, uma descrição ideal da educação de cidadãos ainda inexistentes, e o “Contrat social” uma obra sobre a legitimação política possível da cidade dos Homens tal qual ela existia no presente em que também existia J. J. Rousseau.

No futuro, quando a razão, acordada justamente pela educação, fizer nascer em cada um, na falta de um instinto social, um amor racional pela sua comunidade política, e cada Homem puder ser também, por via da educação que tiver obtido, um cidadão, a “vontade geral” não será apenas uma vontade colectiva mas também uma vontade universal; mas é apenas no plano do futuro que o “Contrat social” e o “Émile” convergem, em torno do mais fundamental dos conceitos de Rousseau: o de personalidade – autêntica e livre.

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SEXTA | António Figueira
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