Menino não entra

Não gostei – continuo, aliás, a não gostar – da cobertura mediática do ranking das escolas secundárias do país. Não vou discutir o método de elaboração da lista, que se divide entre a crítica e o louvor – eu criticaria. Não discuto as opções educacionais dos pais, que preferem um colégio unisexo a uma escola mista. Nem levo esta modesta prelecção pelos trilhos da discussão em torno da qualidade do ensino público face ao privado, e vice-versa.
Não. O que me incomoda na forma como a comunicação social foi e vai destacando o assunto é o sublinhar constante da teoria da divisão de sexos no ensino. Que como opção ultrapassa o aceitável – haja liberdade de escolha –, mas como teoria apenas me merece repúdio. Li e ouvi em vários meios de comunicação social as alegações de uma dirigente do Colégio Mira Rio, feminino, que este ano foi vencedor nesta pretensa corrida ao pódio. A professora entende que o ensino diferenciado faz toda a diferença, dada a ausência de homogeneidade em turmas mistas – às raparigas assiste, diz, maior capacidade de análise, de síntese e de concentração. Já os rapazes, esses valdevinos marialvas, recebem – com toda a justiça, aparentemente! – tratamento especificamente dedicado à sua desatenção crónica e criatividade infinda, e desde que o ensino seja adequado a estas características tão próprias, também têm bons resultados no acesso ao ensino superior. É, pelo menos, o que sucede no Colégio Cedros, masculino.
Numa era em que a globalização e o cosmopolitismo marcam o correr dos dias, a heterogeneidade, a não ser que comprovadamente nociva, deve ser preservada. Valorizada e incentivada. A troca de experiências, de pontos de vista, a comunhão de relatos e formas distintas de compreender a vida, são mais-valias.
Quem entenda que a diferenciação supera as vantagens da pluralidade, tem à sua escolha inúmeras opções. São válidas, correspondem a prismas diversificados. O que me incomoda é que o objectivo quarto poder carregue de subjectividade religiosa e de amparo à diferenciação de géneros a informação que oferece, de forma neutra, ao público que a consome. Ou terá sido um retrocesso social, o fim da diferenciação de géneros na rede de ensino público?

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
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22 respostas a Menino não entra

  1. Dário diz:

    Exactamente. Estranhei o destaque dado e a forma como foi feito.

  2. Estou de acordo com o texto. A coberturta mediática deixa muito a desejar. Mas há um aspcto positivo dos rankings, pelo menos. Fica-se a saber algo( diferenças entre CIF e cotações nos exames), que penso serem importantes o cidadão saber.

  3. Sérgio diz:

    Muito bom post, de facto. Parabéns.

    Já vai sendo tempo de alguém dizer que essa narrativa das escolas só para raparigas ou só para rapazes tem menos de método infalível para o sucesso do que opções que radicam numa mundividência conservadora e ultra-católica. Ora essa, rapazes e raparigas juntos! Onde já se viu?

    Cumprimentos,
    Sérgio.

  4. ah, minha querida marta, mas o jornalismo sério, esse, não tem perspectiva, tás a ver?

  5. São válidas, correspondem a prismas diversificados. O que me incomoda é que o objectivo quarto poder carregue de subjectividade religiosa e de amparo à diferenciação de géneros a informação que oferece, de forma neutra, ao público que a consome. – Marta Rebelo

    Se o “quarto poder” oferece a informação de forma neutra, qual é exactamente o problema? Não é suposto o jornalismo ser “neutro” e “imparcial”? Quando se cita um professor ou um director de um colégio religioso é óbvio que os pontos de vista do entrevistado não se confundem com a notícia. Parece-me a mim…

    Dito isto, os rankings não dizem nada sobre uma pretensa superioridade das escolas privadas. Também nada dizem sobre uma pretensa superioridade do ensino religioso ou “voltado para os valores”, seja isso o que for. A única constante nos rankings é a origem social dos alunos que (quase) tudo explica. Neste “tudo” incluem-se, obviamente, os “méritos” e “deméritos” das escolas, pelo que nem tais “méritos” e “deméritos” os rankings conseguem diagnosticar com um mínimo de segurança.

    Ainda assim, melhor que eles existam. É, de facto, melhor ter informação incompleta, superficial e redutora do que não ter nenhuma informação. Sobretudo, para os pais, pelo menos, para aqueles que possam fazer ou mudar de planos.

  6. VPV diz:

    No mínimo um registo de interesses para se saber em que escolas estudou…

    Já agora não é?

  7. Joaquim diz:

    Mais uma vez, alguns jornalistas preferiram o método de trabalho conhecido como «jornalismo sentado» e nem se dignaram abrir uma folha de cálculo ou pegar num papel e caneta para trabalhar numa análise mais aprofundada. Aquele ranking bem trabalhado permite fazer leituras muito interessantes. Mas, claro, dá trabalho, exige concentração, cruzamento de dados e muitas contas. Porém, o «lead» preferido de demasiados meios foi tal e qual essa: menino não entra. E já está.

  8. Roteia diz:

    Evidentemente, não faz qualquer sentido a divisão feminino/masculino na escola. O que faz sentido é reflectir sobre a alteração de paradigma nas escolas mistas do ensino básico e secundário, onde de facto as raparigas predominam pela capacidade de trabalho e onde os rapazes são cada vez mais “cabeças-no-ar”. Certamente o fenómeno terá efeitos futuros na alteração de papéis sociais a médio prazo e valeria a pena estudá-lo em profundidade. Ou muito me engano ou ainda vamos assistir ao nascimento de movimentos “masculinistas”, de defesa dos direitos dos homens…

  9. Luís Lavoura diz:

    Não concordo com o post.

    Que eu saiba, as escolas são principalmente veículos de instrução.

    Então, a melhor escola é aquela que melhor instrui.

    Não sei se escolas mistas são piores ou melhores a instruir do que escolas separadas. Isso é coisa que deve ser estudada de forma objetiva. Não é coisa que se resolva com ideologia política.

  10. luis eme diz:

    Todas estas estatisticas valem o que valem…

    Parece que há quem esteja interessado num retrocesso, pelo menos social e cultural, com a separação das águas, aliás, meninos.

    O que mais me surpreende é que se continue com inovações e criações numa área tão sensível, como a educação, que em 33 anos não tenham aprendido nada com os erros cometidos…

  11. Pêndulo diz:

    Fugindo um pouco ao tema do ensino diferenciado entre sexos mas ainda falando do ranking e concordando com o comentário do Joaquim vou repetir aqui o que já disse no Blas
    fémias por o achar relevante dada a ausência de análise pelos jornalistas e a ideia feita que geralmente temos sobre este assunto. Eu não sou professor nem estou ligado ao ensino.

    O Jornal de Notícias disponibiliza aqui http://www.jn2.sapo.pt/rankingescolas.xls a lista completa dos resultados dos exames no Secundário com escala de 0-200.
    Para escola pública e privada fiz um exercício simples: multipliquei o número de exames de cada escola pela nota média. Após isso somei todos esses valores e dividi o resultado pelo número total de exames no público e igualmente no privado.
    Procurei assim obter uma média ponderada para o ensino público e outra para o ensino privado.
    Resultados:
    Privado- 108,29
    Público- 100,48
    Ou seja, na escala de 0-20, 0,78 décimas de diferença
    Parece que, ao contrário do que eu pensava, o ensino privado não é assim tão melhor que o ensino público.
    Há muito pai que comprou gato por lebre, no entanto não tem sido isto anunciado pela comunicação social.

    [URL=http://imageshack.us][img]http://img166.imageshack.us/img166/7306/mdiabt6.png[/img][/URL]

    Muitos órgãos de comunicação social consideraram apenas as escolas com 100 ou mais exames realizados.
    Vejamos os resultados totais e com essa restrição bem como as suas consequências no meu “estudo”, nomeadamente a sua influência na “média”, a percentagem de exames que passam a não ser considerados em cada um dos grupos e a consequência na variação da “média” bem como na diferença entre público e privado:

    Não me parece muito correcta uma análise que, procurando fazer o confronto entre público e privado, deixa de fora 13,5% dos elementos de um dos grupos. Menos ainda concluir ou procurar dar a entender algo quando só se fala das escolas de topo.
    Como é esperado as escolas privadas conseguem melhores resultados, curiosamente pouco melhores, mas daí a retirar a ilação de ser o ensino privado melhor vai uma grande distância.
    Suponho que será melhor em alguns casos, porém não esqueçamos que nesse grupo estão maioritariamente pais interessados, tanto que se dispõem a pagar elevadas quantias. Consequentemente o acompanhamento que fazem dos seus filhos será totalmente diferente do grupo de pais do público onde há de tudo, dos interessados aos ausentes.
    Comparar resultados obtidos com matéria-prima diferente é leviano, para não dizer mesmo propositadamente enganoso.

  12. Que tal pensar um pouquinho melhor no assunto e, por um instante, pôr os preconceitos de lado? Já agora, ver também até onde os preconceitos nos levaram e desculpem lá o lençol.

    Escreveu já no final algo que acaba por ser um corolário do seu post: “Ou terá sido um retrocesso social, o fim da diferenciação de géneros na rede de ensino público?” Isto está errado porque um ‘progresso social’ pode muto bem não significar uma ‘vantagem pedagógica’. Neste caso concreto, a experiência demonstra que os alunos das turmas não mistas têm níveis de atenção, aprendizagem e desempenho superiores aos dos alunos das turmas mistas. As explicações para o facto não parecem muito difíceis de descobrir sabendo que estamos a falar de adolescentes. Vamos simplesmente rejeitar os factos e ficar orgulhosamente pendurados no moralismo só porque ele é moderno e progressista?

    A partir daqui podemos estender o assunto aos diversos ‘avanços pedagógicos’ intruduzidos na Ensino desde há talvez três décacas. O proconceito do ‘avanço social’ e da ‘modernidade’ na Escola Pública está formando gerações de incapazes de entender frases que não sejam de oração única ou de usar a lógica em racioncínios que não sejam de silogismo único. Está também dando lugar a que os miúdos a partir dos dez-doze anos encarem a Escola como o espaço onde se pratica ‘morangos com açúcar’. Estudar ou ter de aprender qualquer coisa representa para eles uma estucha que suportam tão mal quanto a mochila que trazem às costas.

    Na Escola Pública qualquer aluno que tenha interesse especial pela aquisição de competências e que indicie excelência é visto como uma espécie de ‘dodo’ e há que acabar com ele e depressa, como se fez com os ‘dodos’. Para quem desconheça, 0 ‘dodo’ era uma grande ave nativa das Maurícias que não voava. Foi extinta pelos homens e animais desembarcados nas ilhas vindos da Europa. A analogia continua terrível: parece que o nome ‘dodo’ foi dado pelos marinheiros portugueses que ao verem tal criatura diferente de tudo o que podiam conceber lhe chamaram ‘doudo’ (doido) e deram a sua contribuição para acabar com a espécie. A excelência na Escola Pública é assim também uma espécie de ave rara, coisa de ‘doidos’ que se extingue pela ação do nivelamento por baixo que o sistema pratica.

    Aqui surge o maquiavélico do assunto. Há quem saiba tudo isto muito bem tanto à Esquerda como à Direita, de quanto em vez até é tema. Mas todos os Governo do Rotativmo PS/PSD dos últimos 20 anos tratam de deixar tudo na mesma ou pior, ainda que digam que andam a mexer em tudo para melhor, como está acontecendo agora. Isto é, a Escola Pública não tem lugar para a qualidade e continua a gerar fornadas de mal preparados e de patetas. No entanto, e sem surpresa, o destino que os políticos da Esquerda à Direita reservam para os filhos dos outros não é o mesmo que reservam para os seus próprios filhos. Os filhos dos políticos não frequentam o Ensino Público, frequentam sim o Ensino Particular onde não se praticam muitos dos tais ‘avanços sociais’ que a ‘moral avançada’ e a ‘pedagogia moderna’ promove e impõe no Ensino Público.

    E é assim porquê? Tudo indica que os nossos políticos usam duas vias para salvaguardar o futuro dos seus próprios filhos. Uma é colocá-los no Ensino Particular onde adquirem competências e capacidades por via de métodos pedagógicos conservadores. A outra é condicionar negativamente o desenvolvimento dessas mesmas competências e capacidades nos filhos dos ‘outros’ mantendo na Escola Pública as tais ‘metodologias pedagogias modernas e avançadas’ que produzem medíocres.

    Assim se desenha o futuro a Compasso e Esquadro: uma minoria de influentes e ágeis manobrando um rebanho de desisteressados e imbecis. Ocorre então a frase feita: ‘o futuro é hoje’. E não é que é mesmo? Basta ver a bandalheira em curso do Referendo sobre a Europa que era-para-ser-mas-já-não-é-e-ninguém-sequer-se-apercebe-muito-bem-de-nada-mas-é–melhor-assim-que-é-para-o-bem-de-todos-porreiro-pá-porreiro. São as práticas pedagógicas da Escola avançada e de Esquerda (e inquestionada pela Direita) semeadas há décadas e dando fruto na nossa sociedade. O que se passa na Ensino Público em Portugal vai acontecendo também em quase todos os países europeus. Se se pensar bem, faz sentido, todo o sentido.

    Também há jornalismo ao serviço disto e leitores embecididos entre a manada obediente.

  13. Pêndulo diz:

    Paulo Porto, leu o meu comentário ? Senão leu leia e depois faça a comparação entre público e privado.
    Outra questão: Falou-se do Mira Rio e do Cedros. São os únicos colégios unissexuais ? Para aferir uma vantagem é preciso fazer a análise dos resultados de todos os colégios desse tipo.
    Faço um paralelo. Naide Gomes é excelente , creio que no salto em comprimento. Posso dizer que ser português é uma vantagem no salto em comprimento ?
    Pensemos um pouco antes de falar.

  14. Pêndulo diz:

    Acrescento. Porque não permitir lojas só para homens e só para mulheres? Restaurantes femininos e masculinos? restaurantes só para pretos e só para brancos ‘ escolas só para pretos e só para brancos ?
    O meu espanto é serem permitidas escolas deste tipo.

  15. JC diz:

    Marta:
    Embora não a cite, pois só li este seu post depois de ter escrito o meu (peço desculpa), acho que este meu post de hoje acaba por funcionar como um comentário que acho acrescenta algo ao, interessante, assunto. Ver http://eusouogatomaltes.blogspot.com/2007/10/opus-dei-e-ranking-das-escolas.html
    Cumprimentos
    JC

  16. Ana Matos Pires diz:

    Como toda a gente sabe, Marta, a escola serve para ensinar o que vem nos livros e não para ensinar a pensar, a viver com os outros, a sermos seres humanos mais consistentes. Não percebo a tua indignação, minha amiga, essa cena dos géneros não interessa nada… Oh god!

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  18. Luís Lavoura,

    “Instrução” é diferente de “Educação”, concorda?

  19. Pedro Sá diz:

    1. Já noutro local escrevi que as escolas monossexuais deveriam ser proibidas, por serem decididamente anti-naturais.

    2. Essas constatações de que o rendimento escolar masculino melhora exponencialmente em turmas monossexuais são factuais, e comprovadas, designadamente, na Austrália. Não me chocaria em absoluto que as turmas fossem assim divididas, desde que a escola fosse aberta a todos, e, evidentemente, tendo em conta que é mais importante que cada um possa nas áreas de opção escolher aquilo que prefira.

  20. CARLOS CLARA diz:

    Meninos para um lado, meninas para o outro, seria o sonho de muita gente. Já agora todos com livros de contos da mesma editora. Quanto às meninas andarem mais aplicadas, já o Andy Wharhol dizia, embora nunca tenha ligado muito ao que ele disse, mas disse – no futuro as novas mulheres serão os novos homens e os novos homens as novas mulheres.
    Mas de “morte” foi mesmo o que Miguel Relvas disse sobre os mesmos rankings – os colégios privados mais uma vez tinham os melhores resultados. – felizmente alguém lhe respondeu que trocasse os meninos
    dos bairros problemáticos com os meninos dos colégios privados e que esperasse outra vez pelos resultados. Ele não respondeu. Será que desistiu da ideia das privatizações?

  21. Do ensino privado e cristão tem destes resultados em ranking:
    http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=265803003
    “Alunos do secundário de Macau batem média da OCDE” – Com melhores resultados em ciências e matemáticas

  22. Raquel Reis diz:

    Bom, é-me indiferente saber se a escola é mista ou sexista contando que ensine, eduque e prepare as crianças e os jovens a serem cidadãos, desde logo, e pessoas preparadas para ajudar o país a se desenvolver, a progredir científica e tecnologicamente, a mais e melhor produzir, por outro lado.
    Claro que no melhor pano cai a nódua e até em escolas mistas, publicas, laicas e republicadas há professores que faltam que se farta e não dão aulas, assinando como se as tivessem dado; há professores que não preparam as aulas!
    É como em tudo na vida. Em escolas mistas ou sexiastas há bons e maus exemplos. O que é importante é sermos capazes de extrair o essencial do acessório.
    É como o trabalho governamental. Há bons e maus políticosl, bons e maus técnicos. Há políticos e ajudantes técnicos dos políticos que não aparecem para trabalhar, que não leem processos, que não preparam ou vão a reuniões de trabalho, que desrespeitam os que estão hierarquicamente dependentes de quem manda…

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