O mistério dos talassas

Nunca conseguirei perceber gente que precisa de dono. Ter pessoas que mandam já é mau, não poder correr com elas é insuportável. A certa altura pensei que os talassas precisavam de contos de fadas de reis e rainhas para adormecer nas noites mais escuras. Mas sejamos sinceros, mesmo esse substituto da chucha e da fralda foi recriado com vantagem na modernidade. Neste presente de folhas cor-de-rosa, as nossas necessidades de sermos ricos e famosos por interposta pessoa estão resolvidas sem o recurso à exploração daquelas criaturas bisonhas que se escondem atrás de nomes de famílias e de actos que nunca praticaram. Quem tem actrizes do Morangos com Açucar e futebolistas de sms fácil, para que é que precisa de fantoches menos expressivos fisicamente? Há quem responda, com um certo elitismo, que é necessário uma certa patine que não se confunda com os porches amarelos e o inglês técnico do Zezé Camarinha… Parece-me injusto e ultrapassado. O processo que atribuia características especiais a uns indivíduos só porque descendiam de uma determinada linhagem teve o seu máximo paroxismo na nossa época: hoje, são ungidos e sagrados, embora por pouco tempo, toda a gente que aparece na televisão. E aparecer no pequeno ecrã não significa ter feito qualquer coisa, basta lá estar para ser “famoso”. A televisão é a grande parteira da nobreza contemporânea e efémera. O paroxismo desse fenómeno foi atingido pela princesa Diana: ela conseguia juntar o vazio dos dois mundos. A sua vida foi uma imensa corrida de afirmação do nada com direito a um choque final para delírio da audiências. Claro que há países mais poderosos que outros. E devemos ser conscientes das implicações das nossas fraquezas: por exemplo, a razão porque os ingleses tiveram a Diana e nós o Cláudio Ramos, é porque tiveram a primazia na escolha… mas a vida é mesmo assim.

Nunca percebi a necessidade da monarquia. Azar por azar, prefiro a lotaria de Borges, ao menos todos seremos imperadores e todos seremos escravos. Todos nos apaixonaremos e todos morreremos de desespero.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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