Um centenário

O meu 25 de Abril literário aconteceu só no Verão de 74. Veio parar-me às mãos um livro que foi uma felicidade, e que eu li e reli tantas vezes que ainda hoje sei muitas das suas páginas de cor. Lido e relido esse primeiro livro, aí entre os 16 e os 18 anos, li tudo o resto que o mesmo autor tinha escrito. Ele escreveu relativamente pouco, menos de uma dúzia de romances, e outros tantos livros de outros géneros, de tal maneira que me lembro distintamente de um sonho que tive, quando era adolescente, em que descobria uma data de inéditos seus – quase como os sonhos que tive depois, depois de alguém de quem eu gostava muito (e por sinal me dera esse livro a ler) ter morrido, e em que eu o encontrava vivo e acordava a seguir a chorar de contente. Quando acabei a faculdade e fui viver para o estrangeiro, ganhar muito mais dinheiro do que ganhava em Lisboa, encontrei uma primeira edição do meu livro amado e comprei-a. Mas fui deslumbrado e estúpido, porque o livro, apesar de se ter tornado mais “autêntico”, deixou de ser o objecto que era (a cor do papel e o tipo de letra eram muito diferentes) e não evocava mais a festa da sua primeira leitura nem o memorável Verão de 74. Em consequência, arrumei-o há vinte anos numa prateleira e ele vinte anos lá ficou. Agora que voltei outra vez a ser pobrezinho comme il se doit e descobri prazeres baratos como a internet, descobri também que se comemora este ano o centenário do herói literário da minha juventude, que a minha ambição de lhe encontrar inéditos foi finalmente satisfeita e que até de Portugal chega um estudo em sua homenagem: “Il représentait cette mythique France de la Raison et des Lumières, il était teint de communisme et, je dirais, pour comble de bonheur, allègrement libre de moeurs”. Reconciliei-me com o papel escuro e a letra miudinha da primeira edição do “Drôle de jeu” e desde terça-feira que estou a relê-lo, com tanto gozo como quando o li pela primeira vez.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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