Rui Tavares: Salazarinha Nogueira Pinto

Em primeiro lugar, vamos despachar uma falácia. Maria José Nogueira Pinto anunciou que enquanto comissária não-eleita para a Baixa-Chiado daria prioridade a expulsar as lojas chinesas da Baixa e concentrá-las numa Chinatown. Há gente que minimiza a questão dizendo que “os chineses não se importam”. Não sei em que dados se baseiam. Mas a pergunta aí passa a ser: o facto de uma comunidade se aceitar guetizar torna a guetização desejável? Imaginemos quais seriam as reacções se a comunidade em causa fosse, por exemplo, de muçulmanos. Que tal fazer uma IslamTown em Lisboa? Que diriam as mesmas pessoas que acusam os muçulmanos de não quererem “integrar-se”? Que os chineses podem mas os muçulmanos não?

A questão, acima de tudo, não é se as comunidades “querem” ou “não querem” viver em guetos. A questão é se os lisboetas querem guetos para a sua cidade. Ora, Lisboa já teve uma tradição de guetos. A Mouraria nasceu como gueto a partir de 1147: era o território fora das muralhas para onde os muçulmanos tinham de se dirigir após o pôr-do-Sol. Guetos de judeus foram dois: a “judiaria grande” e a “judiaria pequena”, que serviam para impedir que uma comunidade dinâmica e especializada comprasse boas casas (e boas lojas…) fora das fronteiras permitidas. A coisa acabou muito mal: foi por aquelas ruas que, em 1506, lisboetas cristãos massacraram seis mil dos seus concidadãos.

A leviandade com que Maria José Nogueira Pinto fala destas coisas é só aparente. Levianos são os que tratam o assunto como meras “provocações” da “Zezinha”. Por detrás está uma estratégia política e não é por acaso que ela já voltou a subir a parada. Numa entrevista ao último Expresso, declarou enfaticamente o seu voto em Salazar no concurso dos Grandes Portugueses – “claro!” –, derretendo-se em elogios ao ditador que “sabia mandar”, cumpriu “os objectivos que tinha” e “preservou aquilo que queria preservar”, para rematar afirmando aos jornalistas a sua paixão pela trilogia da ditadura. “Pode pôr: Deus, Pátria, Família”.

Para quem ainda ache que isto é só um acaso, lembre-se que Nogueira Pinto deixou como vereadora da CML um regulamento de bairro municipal a que os imigrantes estavam impedidos de concorrer. Porquê? Porque, como disse então Nogueira Pinto, “isto não é uma fruteira onde se possam meter bananas, maçãs e laranjas e dizer que está tudo bem“.

Maria José Nogueira Pinto tem boa imagem e boa imprensa, o que ajuda a disfarçar o facto de ser a salazarista mais assumida da política portuguesa. O problema é querer levar a imitação do seu ídolo ao ponto de querer mandar sem ter levado as suas ideias a votos.

Não há ingenuidade nem inexperiência política nestas declarações, mas uma questão muito séria de poder. A este jogo chama-se “esticar a corda” e o resultado é saber, como diria Salazar, “quem manda”. Maria José Nogueira Pinto quer a Baixa-Chiado para ela e, para começar, marca já as suas fronteiras forçando os limites da indecisão de António Costa. Se ele voltar atrás na decisão de a nomear, Nogueira Pinto fará o papel de vítima a que está acostumada: só no último ano já o desempenhou por três vezes. Se for nomeada, tem António Costa na mão e já deixou claro que ninguém lhe põe limites. Se for nomeada e não apresentar resultados, o que também vem sendo hábito, pode voltar ao seu desempenho na última vereação: arranjar uma desculpa qualquer e saltar fora.

Já vimos isto antes. É coincidência? Não: é o seu modus operandi. Há método nesta loucura.

Publicado no “Público” de 18 de Setembro

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SEXTA | António Figueira
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