Pensamentos para mim próprio

Muitas vezes, demasiadas vezes, a blogosfera padece de excesso de seriedade. Scolari tenta dar um soco num jogador da Sérvia e logo, não um nem dois posts, mas uma vasta polémica surge, fulminante, a consumir os espíritos até à exaustão. A blogosfera parece a imprensa desportiva: alimenta-se de nada e tenta transformar esse nada em coisa que se veja (faire mousser l’affaire, diz-se em francês); mas isso só dá para clientes habituais, porque, fora esses, poucos são os que acham graça a ciências ocultas que tais.

Claro que o vazio substancial é sempre propício ao requinte formal, e às vezes até dá gozo ler quem não tem nada para dizer; e, por outro lado, observadores atentos podem sempre descobrir novas clivagens para além das tradicionais nas polémicas da blogosfera, o que é evidentemente enriquecedor: por exemplo, em torno da questão Scolari os bloggers dividiram-se, não em direita e esquerda ou coisa parecida, mas em moralistas e imoralistas (sendo que eu alinhei por estes últimos, em boa parte por feitio, mas também porque cruxificar o homem me parecia, para além de ingrato e imprudente, uma desagradável reminescência do espírito virtuoso e puro das “bruxas de Salem”).

Mas há mais: graças a este extravagante episódio (assim como ao da selecção de rugby, insensatamente despoletado pelo meu querido NRA), li coisas espantosas na blogosfera: que a Fernanda Câncio faz compras no “El Corte Inglés” (acusa o Filipe Moura, a brincar, claro) e, da parte de uma mãe (de nome “is a bel”) com sólidas referências estéticas mas que, não obstante, passa férias em S. Martinho do Porto, a preocupação que lhe causa ter um filho de sete anos que se chama Nuno Maria e quer começar a jogar rugby. O sociólogo amador que há em mim adora a blogosfera nestes momentos!

Agora a sério, Filipe: o único problema de fazer compras no Corte Inglês está em chamar-lhe “El Corte Inglés”; se for tratado com razoabilidade e devidamente mal pronunciado (à portuguesa) o Corte Inglês revela-se um supermercado porreiro, e um dos únicos sítios de Lisboa onde se podem comprar queijos franceses decentes. Quanto à onomástica do pequeno Nuno Maria e à sua queda para o football rugby, o miúdo que se concentre no Nuno e disfarce o Maria (como quem mora na Lapa deve dizer que mora na Estrela) e pense que há sempre pior do que o desporto que ele escolheu (ser forcado amador).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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12 respostas a Pensamentos para mim próprio

  1. Fernanda Câncio diz:

    ah, meu marco auréliozinho de trazer pelo cinco dias. então, bruxa de salem, ãh? e moralista, ainda por cima? bom, não vou discutir mais isto, até porque a posição mais divertida é sem dúvida a dos que defenderam scolari. até por contarem, nas suas hostes, com o impagável madail (que, segundo ele próprio, está há 3 dias ou coisa que o valha a estudar as imagens ‘do que se passou’ e pelos vistos concluiu que, enfim, não se passou nada de especial).

    enfim. mas, como sou vingativa (e moralista, e moralista), cruxificar não leva x, embora até fique giro. toma

  2. Fernanda Câncio diz:

    ah, e o que o corte inglês (que, obviamente, devia chamar-se o corte castelhano, espanhol ou isso) tem, além daqueles preços estratosféricos, é uns iogurtes de cabra do melhor. os secretos de porco preto, por outro lado, já tiveram melhores dias.

    e, para governo do filipe moura (alô, filipe?), eu não tenho criadas. tenho empregadas, ou empregados. e o filipe, limpa a casinha sozinho? lindo menino.

  3. António Figueira diz:

    Ingrata: chamei-te virtuosa e pura, o q é q querias mais?
    Ah, e vou deixar o x! (foi sem querer, obviamente, mas dá um ar mais alatinado: crux mea lux, lux mea crux…)

  4. is a bel diz:

    Caro António, obrigada pelas amáveis sugestões (tão irónicas, espero eu, como a minha preocupação). Sinto-me honrada, afinal e apesar de andar por aqui faz cinco anos, foi o meu primeiro comentário a um post e tive de imediato direito a um link (só pode ser sorte de principiante).
    Mas o António tem queda para estes assuntos ; não é que também este verão o Nuno Maria brincava com o filho do António Ribeiro Telles fazendo ora um ora outro de touro e forcado…
    Continuarei a passar por aqui para o ler mas a arte de comentar fica para os entendidos e para quem tem alguma coisa a acrescentar. O meu deveu-se a uma insónia(divertida) e este agora é só para lhe agradecer. vou lê-lo ao Nuno Maria e às minhas outras filhas (também elas Maria de segundo nome).

  5. António Figueira diz:

    Cara Is a bel:
    Deixe-se de esquisitices e volte sempre.
    A minha “queda” para estes assuntos, como V. lhe chama, resulta apenas de ter, às vezes, de gramar também S. Martinho do Porto (procure bem por mim na rua dos cafés ou, com mais hipóteses, no Sr. Álvaro, que é capaz de me encontrar por lá).
    E permita-me uma confidência: eu até gosto de rugby.
    Até um destes dias, AF
    PS: Se anda cá desde há cinco anos, tem andado perdida: este blog nasceu em Setembro de 2006.

  6. Não me convences, António. A melhor superfície comercial de Lisboa e de Paris vai deixar de existir em Portugal dentro em breve. Estive para escrever sobre isso este verão, mas depois escrevi sobre o Starbucks e achei que era muita publicidade.

    Fernanda, qual é a diferença entre uma “criada” e uma “empregada”?

  7. António Figueira diz:

    Filipe,
    Não queres partilhar connosco a informação e contar-nos qual é “a melhor superfície comercial de Lisboa e de Paris”?

  8. Carrefour, é claro. É tão bom que é cantado pelo Chico Buarque e pelo Gilberto Gil, numa música chamada “Baticum”.

  9. Fernanda Câncio diz:

    filipe, a diferença é aquela que o fez escolher a palavra ‘criada’ em vez de ‘empregada’ para se referir à senhora a quem eu pago para me arrumar a casa. essa mesma.

  10. is a bel diz:

    obrigada antónio. estarei atenta quando voltar ao sr. álvaro, farei questão de o cumprimentar.
    o nome do livro é ‘la disparition’, não é que entenda muito de literatura e ainda menos de romances ‘lipogramáticos’. foi um acaso, há uns anos procurava (por razões profissionais) referências de um filme de catherine binet ‘les jeux de la comtesse dolingen de gratz’ e acidentalmente deparei com perec, que tinha sido seu companheiro. daí ao go foi um saltinho…
    até lá.
    isabel
    p.s. há cinco anos pela blogosfera

  11. A fronteira entre empregada e criada não está bem definida, Fernanda. Ir às compras, para mim, já é tarefa de criada. Mas tudo bem, é tudo uma questão semântica.

  12. Fernanda a questão semântica é de facto delicada, mas não se abespinhe. Conte-nos quanto é que paga à senhora que nós já nos damos por satisfeitos. Se a senhora for bem paga ficamos satisfeitos por ela, se não for bem paga a malta vinga-se na comédia de costumes … ai meu Deus e a vontade que nós temos de ficar felizes por ela …

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