Filipe Moura: O “Diário de Notícias” não é um jornal para “eles”

Sobre os convidados colombianos do PCP para a Festa do Avante, não tenho muito mais a dizer do que o Nuno Ramos de Almeida: “o facto do governo da Colômbia ter presos em condições inumanas milhares de militantes de esquerda não pode justificar raptos como a da candidata presidencial Ingrid Betancourt.” Acho normais os protestos na blogosfera, apesar de o partido presente na Festa ser legal e ter representação parlamentar (ao contrário do que sucedeu o ano passado, este ano todas as referências às FARC na Festa foram eliminadas, certamente um resultado da pressão mediática). Nem sequer vou exigir que, para condenar a acção terrorista das FARC, se tenha de condenar no mesmo texto o terrorismo de estado apoiado pelo governo colombiano: as acções das FARC são condenáveis só por si. O que eu não posso aceitar é que se condene as FARC ao mesmo tempo que se apoia o governo colombiano, que mantém prisioneiros políticos e apoia grupos paramilitares assassinos de extrema-direita.
O Tiago Barbosa Ribeiro, um “habitué” em assuntos como este,  coligiu diligentemente todo o material publicado nos blogues nos últimos dias sobre este assunto, incitando mesmo os autores de blogues a escreverem. Tratando-se de fazer campanhas contra o PCP, o Tiago faz tudo o que lhe for possível, nem que para isso tenha que passar uma semana a escrever sempre a mesma coisa. Num protesto desta envergadura, seria bom que o Tiago procurasse garantir uma condenação dos métodos do governo colombiano ou, pelo menos, que não incluísse na sua colectânea textos de quem o apoia. Só que não é esse o caso. A obsessão anti-PCP do Tiago é tamanha que ele nem se importa de incluir textos de apoiantes do governo de Uribe. Apoiantes esses que nunca tinham escrito nenhum material sobre Ingrid Betancourt, antes de este caso da festa do Avante ter surgido. Será que a indignação só surgiu agora? O que encontrei naquele blogue foram  vários  textos em defesa do governo colombiano.
Mas tudo bem: o blogue é do Tiago e ele faz o que quer nele. Ele que não venha é depois tentar passar por independente em assuntos que envolvam o PCP. Acho mais espantoso quando a parcialidade e o sectarismo são assumidos por um órgão de informação, que se deveria limitar a relatar notícias. O acto em si foi involuntário; talvez uma distracção. Mas, ao escrever, “fugiu a mão para a verdade” ao jornalista Pedro Correia, quando intitulou uma notícia como  “Eles já chamam fascista a Sócrates”. Esclareço que discordo profundamente do PCP neste ponto, mas a questão principal é mesmo a do “eles”. Se um jornal se dirige aos seus leitores referindo terceiros como “eles”, não espera que estes “eles” façam parte do grupo dos leitores. Será que o DN já nem conta com os comunistas como seus leitores? De um ostracismo dos comunistas como este eu não me lembro nem nos tempos da direcção de Fernando Lima.
Aproveito para esclarecer o Pedro Correia de que a “força do PC” se vê nestes ostracismos da comunicação social, que sofre como mais nenhum outro partido. E que “eles” são dos portugueses mais honestos, bravos e trabalhadores que se podem encontrar.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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