Rui Tavares: Não, o inglês não basta

O Público de ontem trazia um artigo sobre como menos de um por cento dos alunos do segundo ciclo escolhe o francês como língua estrangeira de aprendizagem. Mas o que me preocupa aqui não é tanto a questão do francês, que aliás continua a dominar no terceiro ciclo.

Preocupa-me a mentalidade instalada entre alunos, pais, professores e governantes de que “o inglês basta”. E como não? O planeta inteiro está a aprender inglês. Como tal, daqui a uma geração precisaremos de apenas duas línguas: a nossa e o inglês, para comunicar com os estrangeiros.

Esta é uma ideia de que nos arrependeremos. Como é evidente, o inglês é essencial: é primeira língua de muita gente, vai ser a segunda língua de quase todos, e é a língua da internet. Sou muitíssimo a favor de que o inglês seja ensinado na escola o mais cedo possível.

Mas a generalização do inglês esconde um efeito previsível. Daqui a uma geração, saber inglês vai ser o domínio do trabalhador não especializado. Todo aquele que quiser atender um telefone vai ter que saber inglês. Mas o director do escritório da empresa em Xangai vai ter que saber mandarim.

Quem já se apercebeu disso, curiosamente, são os ingleses. Dadas as suas ligações financeiras globais, as aulas de mandarim são a crista da voga em Londres. Mas mesmo o mandarim é capaz de não chegar. O Sul da China, uma das regiões mais dinâmicas do mundo, fala cantonês. São setenta milhões de pessoas e Portugal teve melhor do que uma embaixada ou uma universidade nesta zona, durante quinhentos anos: chama-se Macau. Quantos portugueses aprenderam cantonês? Poucos, certamente. E porque não estão a dar aulas aos outros?

Para muitas línguas asiáticas faladas por milhões de indivíduos, desde o vietnamita ao persa, os primeiros dicionários ocidentais foram em português. Hoje não aproveitamos nada dessa tradição. Como não aproveitamos o facto de recentemente muitos russófonos terem imigrado para Portugal. Como não aproveitamos o facto de Marrocos estar aqui ao lado. Como não aproveitamos o facto de, com um ano de aulas de espanhol, a maioria dos portugueses atingir uma competência superior à dos muitos estrangeiros hispanistas.

No estrangeiro, os portugueses eram quase únicos entre os europeus ocidentais, na medida em que arranhavam espanhol com os espanhóis e hispano-americanos, francês com os francófonos, diziam duas palavritas em italiano para amenizar o ambiente, falavam com brasileiros na sua própria língua e em inglês com os restantes. Mas os nossos talentos poliglotas já então empalideciam quando comparados com os de alguns colegas eslavos. E hoje receio que estejam a perder-se.

O estudo das línguas, incluindo as mortas e as artificiais, não é só uma questão comercial: traz vantagens para a memorização, a interpretação e o raciocínio, o pensamento criativo, a capacidade de expressão e as relações interculturais. É tempo de juntarmos a preocupação com as áreas de ensino em que somos fracos (como a matemática) à das áreas em que tradicionalmente éramos fortes ou para que temos vantagens culturais. O estado pode ajudar dando liberdade às escolas para contratarem professores fora das línguas habituais. E o governo deve antecipar o currículo para que os alunos possam estudar a segunda língua estrangeira no segundo ciclo, a terceira no terceiro, e no secundário escolher línguas suplementares como disciplinas opcionais.

Perguntem a Durão Barroso. Se soubesse apenas inglês nunca teria chegado a Presidente da Comissão Europeia. Ora, por falar em Durão Barroso…

Publicado no “Público” de 4 de Setembro

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

25 Responses to Rui Tavares: Não, o inglês não basta

  1. Pingback: blogue atlântico » Blog Archive » É o que dá uma educação própria dos regimes totalitários

Os comentários estão fechados.