Rui Tavares: Não, o inglês não basta

O Público de ontem trazia um artigo sobre como menos de um por cento dos alunos do segundo ciclo escolhe o francês como língua estrangeira de aprendizagem. Mas o que me preocupa aqui não é tanto a questão do francês, que aliás continua a dominar no terceiro ciclo.

Preocupa-me a mentalidade instalada entre alunos, pais, professores e governantes de que “o inglês basta”. E como não? O planeta inteiro está a aprender inglês. Como tal, daqui a uma geração precisaremos de apenas duas línguas: a nossa e o inglês, para comunicar com os estrangeiros.

Esta é uma ideia de que nos arrependeremos. Como é evidente, o inglês é essencial: é primeira língua de muita gente, vai ser a segunda língua de quase todos, e é a língua da internet. Sou muitíssimo a favor de que o inglês seja ensinado na escola o mais cedo possível.

Mas a generalização do inglês esconde um efeito previsível. Daqui a uma geração, saber inglês vai ser o domínio do trabalhador não especializado. Todo aquele que quiser atender um telefone vai ter que saber inglês. Mas o director do escritório da empresa em Xangai vai ter que saber mandarim.

Quem já se apercebeu disso, curiosamente, são os ingleses. Dadas as suas ligações financeiras globais, as aulas de mandarim são a crista da voga em Londres. Mas mesmo o mandarim é capaz de não chegar. O Sul da China, uma das regiões mais dinâmicas do mundo, fala cantonês. São setenta milhões de pessoas e Portugal teve melhor do que uma embaixada ou uma universidade nesta zona, durante quinhentos anos: chama-se Macau. Quantos portugueses aprenderam cantonês? Poucos, certamente. E porque não estão a dar aulas aos outros?

Para muitas línguas asiáticas faladas por milhões de indivíduos, desde o vietnamita ao persa, os primeiros dicionários ocidentais foram em português. Hoje não aproveitamos nada dessa tradição. Como não aproveitamos o facto de recentemente muitos russófonos terem imigrado para Portugal. Como não aproveitamos o facto de Marrocos estar aqui ao lado. Como não aproveitamos o facto de, com um ano de aulas de espanhol, a maioria dos portugueses atingir uma competência superior à dos muitos estrangeiros hispanistas.

No estrangeiro, os portugueses eram quase únicos entre os europeus ocidentais, na medida em que arranhavam espanhol com os espanhóis e hispano-americanos, francês com os francófonos, diziam duas palavritas em italiano para amenizar o ambiente, falavam com brasileiros na sua própria língua e em inglês com os restantes. Mas os nossos talentos poliglotas já então empalideciam quando comparados com os de alguns colegas eslavos. E hoje receio que estejam a perder-se.

O estudo das línguas, incluindo as mortas e as artificiais, não é só uma questão comercial: traz vantagens para a memorização, a interpretação e o raciocínio, o pensamento criativo, a capacidade de expressão e as relações interculturais. É tempo de juntarmos a preocupação com as áreas de ensino em que somos fracos (como a matemática) à das áreas em que tradicionalmente éramos fortes ou para que temos vantagens culturais. O estado pode ajudar dando liberdade às escolas para contratarem professores fora das línguas habituais. E o governo deve antecipar o currículo para que os alunos possam estudar a segunda língua estrangeira no segundo ciclo, a terceira no terceiro, e no secundário escolher línguas suplementares como disciplinas opcionais.

Perguntem a Durão Barroso. Se soubesse apenas inglês nunca teria chegado a Presidente da Comissão Europeia. Ora, por falar em Durão Barroso…

Publicado no “Público” de 4 de Setembro

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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25 respostas a Rui Tavares: Não, o inglês não basta

  1. pedro oliveira diz:

    totalmente de acordo com o texto.
    há uns meses falava com alguém que estava ligado ao turismo e à formação que é dadas nas escolas de turismo e, preguntei-lhe; Sabia que há autorização do governo chinês para 100 milhões de chineses fazerem turismo e que portugal faz parte da lista?
    resposta: não
    E já pensaram em ensinar mandarim nas escolas de turismo?
    resposta: não

    quando dirigentes que devem ter visão sobre o negócio não têm essa caracteristica, o que devemos fazer?

    notícia de hoje: 40% dos alunos abandoram a escola sem terem terminado o 9º ano. que futuro tem Portugal?

    pedro oliveira
    http://vilaforte.blog.com/

  2. RAF diz:

    Caro Rui,
    O inglês não basta certamente, mas o problema é que antes de se pensar numa terceira língua, é bom que se cuide da segunda.
    E certamente espanhol e as linguas chinesas ganham enorme importância. Em Angola, por exemplo, onde me desloco com frequência em trabalho, quem saiba falar mandarim e cantonês tem desde logo um enorme ascendente, pois aí reside já uma enorme comunidade empresarial que não fala nada além da lingua-mãe (nem sequer português).

  3. VPV diz:

    Totalmente em desacordo! A comparação com o Durão BArroso é acima de tudo infantil e ignorante. Não se esqueça que qualquer empregado de hotel fala 3/4 linguas e não me parece que isso seja motivo para ser Presidente da União Europeia…

    É que só dizem asneiras!!! Churrilhos uns atrás dos outros!

    Mas quem é esta gente com nomes que nunca ouvi falar!??!?

  4. Sérgio diz:

    Como sempre, a recordar que o bom senso é bom conselheiro.

  5. Fernanda Câncio diz:

    ‘churrilhos’ vem de churros?

  6. Luísa diz:

    Como sempre nestas coisas é só para alguns. há já alguma oferta em cursos de mandarim. mas ou é para aprender o básico a preços acessíveis ou é para aprender a sério e pagar uns leves 600 euros ou coisa q o valha. lindo, não é? entretanto os cursos de escolas mais caras esgotam, com uma boa percentagem de filhos das elites. a oligarquia não dorme nem quando aprende a falar.
    para quem se queira instruir online: http://www.mandarintools.com/

  7. O mais grave é que com esta ideia de que importante é só o inglês os alunos e os responsáveis nem se ineressam pelo português. Veja-se que os nossos políticos se expressam em inglês nas instâncias internacionais mesmo que estas tenham tradução imediata. para várias línguas.

  8. Luísa diz:

    actualização de preçário: um ano escolar de mandarim +/- 1000 euros. os +/- 600 era o ano passado. o negócio está a correr bem…

  9. Mr. Shankly diz:

    “nomes que nunca ouvi falar”?
    Não seriam (e bem a propósito) línguas que nunca ouvi falar?

    “Não se esqueça que qualquer empregado de hotel fala 3/4 linguas ”
    Hummm…já esteve na República Checa, Roménia, Bulgária…?

  10. Paulo Pinto diz:

    Mil perdões pela publicidade. Mas trabalho num instituto universitário que lecciona chinês mandarim (entre outras línguas asiáticas) e os preços estão bem abaixo desses. Para quem interessar, informo que as inscrições estão abertas.
    http://www.ieo.lisboa.ucp.pt

  11. pedro oliveira diz:

    Paulo Pinto,
    Por Leiria ou Coimbra não há nada?

    http://vilaforte.blog.com/

  12. Sexta-feira diz:

    Uma ideia peregrina. Com umas luzes de mandarim no segundo ciclo, qualquer estudante saira preparado para uma carreira promissora nas caves do Centro Comercial da Mouraria.

    O problema estrutural na aprendizagem das linguas nao esta nas apostas que se fazem e na monocultura do ingles. O problema e que a aprendizam da lingua vem tarde e e pouco intensa. Ninguem aprende linguas no liceu. Apos cinco anos de frances, o aluno medio nao sabe falar frances. E vem agora o Tavares com ideias megalomanas de por a malta a falar mandarim… Deixemo-nos de fantasias e tentemos fazer o que pode ser feito: deslocar o esforco de aprendizagem uns 5 anos. Por os putos de 4, 5, 6 anos a aprender uma lingua, ou duas. Comecar cedo e a unica solucao, e uma solucao relativamente facil de aplicar. O resto sao chinesices.

  13. Paulo Pinto diz:

    Aqui na casa onde trabalho, não. Uns cursos livres no Porto, de vez em quando. Sei que há qualquer coisa na Univ. de Aveiro (um mestrado, acho) e em Braga (uma licenciatura em estudos chineses).

  14. Luísa diz:

    Paulo Pinto: tomei nota. mas o preço q eu referia era de dois semestres. uma vez q a universidade católica cobra esse valor por 45 horas, ainda é mais caro. e o que se consegue fazer com 45 horas de mandarim? para isso há ainda outras alternativas, não apenas a católica. por exemplo:
    http://www.esmtc.pt/index.php?option=content&task=view&id=50
    http://www.iscsp.utl.pt/index.php?idc=15&idi=12282
    http://www.ccl.pt/propinas.php
    http://www.fcsh.unl.pt/ilnova/prices.htm

    contas feitas: a fcsh/unl tem a melhor oferta. e obrigada pq este era o único curso q ainda não tinha descoberto e q encontrei agora na pesquisa.
    *um serviço ao consumidor*

  15. pedro oliveira diz:

    É pena! obrigado na mesma.
    pedro oliveira
    http://vilaforte.blog.com/

  16. Obrigado a todos pelos comentários.

    Respondo apenas ao Sexta-Feira, que escreveu “O problema estrutural na aprendizagem das linguas nao esta nas apostas que se fazem e na monocultura do ingles. O problema e que a aprendizam da lingua vem tarde e e pouco intensa… E vem agora o Tavares com ideias megalomanas de por a malta a falar mandarim… Deixemo-nos de fantasias e tentemos fazer o que pode ser feito: deslocar o esforco de aprendizagem uns 5 anos.”

    Ora, parece-me que isto distorce o sentido do meu texto em dois pontos:

    1. O mandarim é apenas um exemplo, como o são (também no texto) o espanhol ou o russo.
    2. A proposta do leitor é equivalente às que eu já faço no texto: antecipar e diversificar. O inglês deve começar no 1° ciclo (como já é a tendência), mas deve deixar de se esperar pelo terceiro ciclo para escolher a segunda língua. A segunda língua deve ser escolhida no segundo ciclo (antigo preparatório), e uma terceira no terceiro (no sétimo ano). No secundário (10º, 11º e 12º) os aluno que o desejarem devem ter acesso a línguas opcionais (o que já sucede) mas as escolas devem ter liberdade para contratar professor de línguas suplementares (e aí é que faz sentido entrar o mandarim, como o russo ou outras: latim e grego antigo, italiano ou japonês, dependendo da disponibilidade local).

    Ou seja, a minha ideia, se é “megalómana”, é a mesma que o leitor propõe. O resto é apenas a agressividade das discussões na blogosfera. Só chateia quando é gratuita.

  17. António Figueira diz:

    Em abono da tese do Rui Tavares, sugiro que sigam este link:
    http://uk.news.yahoo.com/afp/20070905/tod-france-norway-greece-tourism-interne-7f81b96_1.html

  18. Paulo Pinto diz:

    Lá vou eu vender o meu peixe, Luísa, para esclarecer tudo de vez: na Católica, um nível semestral de 45 horas custa 265 €. Há até ao nível VI, o que dá 1590 € para 270 horas. That’s all.
    Aos senhores deste blog, muito obrigado, e prometo que não faço mais publicidade.

  19. Luísa diz:

    bom, os links estão aí, com vários institutos e várias línguas para aprender, tudo em universidades. ou seja, com algum dinheiro é possível lutar contra a monocultura da língua ao nível universitário. e a maioria dos cursos são abertos a estudantes q não sejam das instituições. claro q isto não resolve o problema posto pelo rui tavares, q eu resumiria como: ensino público e quanto mais cedo melhor, sem as jeitosinhas das propinas.

  20. Sexta-feira diz:

    Rui, não te chateies por tão pouco.

    Desculpa ter feito o comentário como anónimo, mas durante uns tempos apareci no 5 dias como “Sexta-feira” e habituei-me a escrever sem acentos, o que fazia parte de um plano de férias fictícias.

    Estive a reler o teu texto e, por muito que me custe, mantenho a minha posição. O ponto forte do teu texto é a diversificação, não desconversemos. É verdade que escreves “antecipar” lá para o fim, mas apenas para dar tempo de encaixar mais línguas, ou seja, ainda para diversificar.

    A minha opinião é absolutamente contrária e parte do princípio de que o ensino de línguas na escola é mau, porque é pouco intenso e porque começa tarde. A forma de corrigir esta situação é:

    1. começar tão cedo quanto possível (primária e até pré-primária) e isto não é megalómano, porque uma coisa é dar formação a professores de Inglês/Francês/Castelhano para que ensinem miúdos mais novos e outra, muito distinta, arranjar mais professores de mandarim, de indiano, de alemão, etc. Ao contrário daquilo que tu propões, o que eu defendo não implica contratar mais gente e isto faz logo toda a diferença. Logo, a minha ideia pode ser estúpida, mas é estupidamente menos megalómana do que a tua.
    (Faço aqui uma ressalva: suponho que o primeiro ciclo seja a antiga instrução primária e a ser verdade que já se aprende inglês na primária estamos perante uma mundança positiva, mas não sei exactamente o que queres dizer com “a tendência”. Ou faz parte do currículo ou não faz parte, certo? Começou algum programa piloto em apenas certas escolas? Ando fora do país há 11 anos, as minhas dúvidas são genuínas, não estou a tentar ser irónico).

    2. Se o ensino de uma ou duas línguas é a desgraça que se sabe, querer pôr os miúdos a aprender mais línguas não só diversificará a desgraça como a tornará mais aguda. Como se diversifica? Encurtando o tempo de aprendizagem de qualquer das línguas, obviamente, reduzindo a carga horária e/ou os anos de aprendizagem. A menos que querias aumentar a carga horária nas escolas ou acabar com outras cadeiras, não vejo como evitar este cenário.

    Eu também tenho um sonho, mas não é o teu Portugal de Babel: é um Portugal bilingue, como um país da Commonwealth sem o trauma do colonizado. Uma Holanda ao Sul da Europa. Melhor do que uma Holanda, uma Suécia. O que a escola pública deveria tentar assegurar é o domínio do Português e do Inglês, produzir um electricista com o nono ano (ainda penso à antiga) capaz de digerir um editorial do NYT e de se expressar em Inglês como um escandinavo. É uma visão também megalómana, mas diametralmente oposta da tua.

    Quem tem razão? Naturalmente, acho os meus argumentos melhores do que os teus. Faltam os dados. Mas o teste empírico não é mostrar que programas de diversificação do ensino da língua geram postos de trabalho ou esse acrescento de cognição que mencionas. Seria preciso demonstrar que um ensino do inglês bom, precoce e intenso, capaz de potenciar algumas mais-valias que são fruto da nossa mediocridade – como, por exemplo, a legendagem das séries – não produz resultados idênticos. Desconfio seriamente que seria capaz de produzir mais e melhor, e nem preciso de começar a discutir ao nível dos detalhes, de recordar que também a India que vai tomar conta disto. Desconfio também que faria de nós uma sociedade mais esclarecida e actuante, porque – como disseste – o Inglês é a língua franca. Mas parte desse fascínio de Lonely Planet que percorre o teu texto resulta de uma ideia feita que convém começar a desmontar: os portugueses NÃO falam bem inglês. Faça-se uma escola que dê às pessoas competências para explorar a fundo o que o inglês pode oferecer e pensemos depois no mandarim. O multiculturalismo não passa por aqui, Rui.

    Vasco M Barreto

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  22. Vasco:

    OK, então para ti vale a antecipação e não a diversidade de línguas no ensino. Passo por cima do “Portugal de Babel”, do “fascínio Lonely Planet” e do “multiculturalismo”. São clichés e eu não estou a discutir em termos de clichés, estou a falar de coisas práticas, fazer ou não fazer.

    Do meu ponto de vista, não és convincente ao defender a antecipação (no ensino do inglês, para garantir uma maior competência nesta língua) contra a diversificação, em vez de defender a antecipação e a diversidade. Como sabes, uma não é incompatível com a outra (pelo contrário, como veremos) pelo que terias de defender que a diversidade do ensino das línguas é perniciosa. Apresentas dois argumentos, o da contratação de professores suplementares e o de que já é difícil ensinar uma língua, quanto mais duas ou três. Nenhum dos dois é decisivo, mas já lá iremos. Prefiro começar pelo teu argumento positivo.

    Dizes que o teu sonho é o de Portugal ser uma Holanda do Sul, um país bilíngue com alta competência técnica. Simpatizo com isto, mas vejo dois erros fundamentais.

    O primeiro parece uma implicação, mas é uma questão fundamental. A Holanda não chegou onde chegou querendo ser uma Suécia da planície, nem a Suiça querendo ser uma Holanda dos Alpes. Chegaram então como? Maximizando as suas vantagens. Vamos partir do princípio que são países bilíngues na sua língua (ou línguas) nativas e mais inglês. Mas isso não é a única coisa que eles têm. Para simplificar, têm:

    inglês + competência técnica
    inglês + população altamente qualificada
    inglês + tradição nas finanças
    inglês + óptimas escolas de engenharia
    inglês + ensino universitário quase universal
    etc.

    Quando Portugal for bilíngue, falta-lhe o resto. E quando conquistar o resto, chegou mais tarde do que eles. Claro podemos optar por ter

    inglês + baixos salários + mão-de-obra disponível

    mas para isso já existe a Índia, não é?

    Olhemos então para o que podemos usar como vantagens. Ao nível linguístico, temos algumas. Para um holandês ou um sueco, aprender inglês é fácil. Aprender francês ou espanhol é uma trabalheira considerável. Para um português, aprender inglês envolve um certo desafio (e por isso deve ser a primeira língua, e ensinada logo na primária, o que está em vias de se generalizar), francês implica de um certo esforço, espanhol precisa de ser cultivado só para sair do nível do portunhol improvisado. Dominar o português e essas três línguas é um objectivo relativamente fácil para nós, e bastante difícil para os nossos competidores, incluindo os do leste no caso do francês+espanhol. Ora, parece que não é nada, mas com essas três línguas fala-se em todo o hemisfério ocidental. Só com inglês não é bem assim.

    Façamos um raio de 2000km em torno de Lisboa. Agora tente negociar em inglês em:
    – Rabat
    – Madrid
    – Paris

    Verá os fracos resultados que consegue. Se souber francês e espanhol está desenrascado, e isto é um mercado ao lado da porta de mais de cem milhões de pessoas, nenhuma das quais está propriamente preocupada em falar inglês. A generalização do inglês, aliás, vai ser lenta em mercados que nos interessam. Em todo o Magreb, o inglês não lhe chega nem para pedir a comida, com o francês chega a quase todo o lado. Não é em inglês que se negoceia na América Latina nem na África francófona, que estão ao lado de mercados que já nos interessam como o Brasil e Angola. Os ingleses têm de aprender espanhol, a custo, os argentinos aprendem português por causa do Brasil. Nós podemos fazer o mesmo, eventualmente com menos custo.

    Portanto, isto não é “fascínio lonely planet”. É cada um maximizar as suas vantagens e minimizar as suas desvantagens. Sou totalmente a favor de recuperar o atraso na matemática, mas se isso nos fizer perder a dianteira nas línguas, estamos a andar para trás. A tua ideia (ficarmos bilíngues e depois ir ganhar competências de outro nível) faz-nos andar para trás ao deitar fora competências que para nós são fáceis.

    É nesse quadro que se responde à objecção da contratação de professores. Ela não se pensa só em termos de custos, mas de investimento. Uma vez que as vantagens, como demonstrei, são claras, não me parece que a questão dos custos se possa colocar como uma objecção de princípio, mas só de oportunidade.

    Quanto à outra objecção. Daqui a uns anos, terás todas as crianças de seis anos a aprender inglês. Faz todo o sentido, e não é minimamente prejudicial, antecipar a segunda língua para o quinto ano. Para quê esperar pelo sétimo? Digamos que essa língua seja o espanhol, como acho que deveria ser. Assim, quando chegar ao sétimo pode substituir o espanhol pelo francês ou pelo alemão, uma vez que dois anos de espanhol para a maior parte dos miúdos é suficiente.

    E assim chega às três línguas, que não é nada megalómano. A Comissão europeia até aconselha o ensino de três ou quatro, e pode ter a certeza de que os nossos concorrentes de Leste as sabem (inglês, alemão, francês ou russo).

    E assim chegamos ao secundário (10º, 11º, 12º ano). As escolas já têm liberdade de contratar professores localmente para disciplinas opcionais como teatro ou dança. Porque raio pode acontecer com teatro ou dança e não acontecer o mesmo com mandarim, russo ou latim? Se não houver alunos suficientes, não se formam turmas, não há gasto. Mas se houver interesse, qual é o problema? Isso não significaria pôr toda a gente a aprender a mesma coisa. Mas daria a oportunidade a jovens com talento e vontade. Seriam uma minoria, mas Portugal precisará sempre de alguns tradutores especializados no turismo ou nos negócios. Precisa de um corpo diplomático. Não é vergonhoso que, depois de quinhentos anos na China, não tenhamos um sinólogo para amostra? Que não haja arabistas nas universidades portuguesas? E por aí adiante.

    Não, não vamos precisar de toda a gente a falar mandarim, russo, hindi, japonês ou árabe. Mas vamos mesmo precisar de alguns em cada uma dessas línguas. Achas bem que sejam apenas aqueles que tiveram dinheiro para estudar em escolas privadas? Por que não aproveitar os alunos que o desejarem (são disciplinas opcionais, sublinho) contratando professores que muitas vezes até estão disponíveis localmente?

  23. Pedro Sá diz:

    No essencial tem toda a razão. Mas há três questões relevantes:

    1. A notícia aparece vinda do fortíssimo lobby francófono que existe em Portugal, que continua a querer ver na França o Sol na Terra.

    2. Já no meu tempo de 7º ao 9º ano em que tive francês (1986-1989), excluindo o very beginning, a aversão geral a essa língua e a sua própria dificuldade (mesmo para nós) não tornavam a coisa nada apelativa.

    3. Em qualquer encontro internacional é fácil verificar que há muita identidade entre os portugueses e os povos da Europa Central e Balcãs, onde, ainda hoje, não havendo quem fale inglês há sempre alguém que ainda fala alemão. Para mais:
    a) aprendendo sérvio ou croata tem-se acesso a toda a ex-Jugoslávia, ao leste da Albânia (no ocidente desse país virtualmente todos falam italiano, e no sul grego), e é possível comunicar na Bulgária…uns 20 milhões na ex-Jugoslávia, mais uns 4 ou 5 na Albânia mais uns 10 na Bulgária…
    b) romenos são 26 milhões e a sua língua é relativamente fácil para nós;
    c) polacos serão pelo menos 35 milhões…e por alguma razão há sempre uma química qualquer entre portugueses e polacas…

  24. Sexta-feira diz:

    Peço desculpa por me estar a armar num super-JPP, mas são 5 da matina – Bom Dia!!!!!!!! – e já não carburo muito bem. Se calhar é casmurrice minha, mas continuo a achar a tua ideia lírica e o novo comentário cheio de imprecisões. Por exemplo: os nossos concorrentes de leste sabem francês? Os da geração dos nossos pais, seguramente, mas o francês morreu na década de setenta, também nesses países. Posso garantir-te que todos os europeus de leste que conheço aqui (e que cresceram na Europa e são gente educada) não pescam uma palavra do que converso em francês com o Dimitri, o grego do lab que como eu passou por Paris… É verdade que o meu sotaque talvez confunda sérvios, arménios e alemães da ex-RDA, mas isso não explica tudo – raios, o grego entende-me). Quanto ao domínio do russo, enfim, parece que o meu colega polaco é fluente, o problema só se revela quando lhe assobio a internacional ao ouvido e ele, pavlovianamente, começa com tremuras. Acho que não queremos ir por aí.

    Também me pareces demasiado optimista quanto à contratação dos novos professores. Eu antecipo uma guerra civil entre e no seio dos sindicatos. Antecipo enormes assimetrias entre as oportunidades dadas pelas escolas públicas nos grandes centros urbanos e na província. Antecipo uma série de merdas, sou um catastrofista. Mas o ponto de discórdia é outro.

    O que eu digo é que o ensino de línguas nas escolas públicas é péssimo. Não sabem ensinar inglês, que é uma língua passível de ser aprendida por difusão passiva. E ao fim de 5 anos um aluno médio não se desenrasca em Francês. Se é assim com uma língua que está em todo o lado e outra que partilha a mesma raiz com a nossa língua, não percebo como se poderá melhorar a qualidade do ensino de línguas diversificando-o. Se quiseres acoplar uma série de outras medidas à diversificação (aumento do número de horas dedicada a cada língua, melhoria da qualidade dos professores, dos materiais, etc), tudo bem, mas à partida a diversificação só irá baixar ainda mais a fasquia. Teremos a escola pública a produzir poliglotas de fachada, malta que sabe perguntar as horas e dizer “hello, this is my wife” em inúmeros idiomas. Não é com umas pinceladas no liceu que se muda alguma coisa. Continuo a não encaixar o teu plano, lamento. Continuo a apostar na melhoria do ensino do inglês e – aqui estou a ceder, percebo o argumento dos nichos de mercado – do castelhano. Mas vou dormir e daqui a umas horas talvez consiga ver a luz.

  25. ralf diz:

    O grave não é o francês ter perdido em toda a linha para o inglês no 2º ciclo. O grave é estar a começar a perder para o espanhol no 3º! Como bem diz, qualquer português fica com um espanhol excelente em apenas um ano. O grau de dificuldade das línguas deve ser tido em conta na hora de as colocar em pé de igualdade como opção. O espanhol não deveria portanto ser posto como uma opção a par do francês, como já acontece em algumas escolas!

    Do mesmo modo o cantonês ou mandarim são muito mais difíceis que o francês, teriam que ser ensinados de outro modo, noutro tempo… Mas não troquem o francês pelo espanhol, aí sim deixamos de arranhar de tudo um pouco!

    E antes de falar nessas extravagâncias asiáticas, todas muito complicadas e mais adequadas ao ensino universitário, devíamos estimular o ensino do alemão e possibilitar línguas como o neerlandês ou o sueco ou ainda o polaco, só para dar alguns exemplos.

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