Uma entrevista

Vasco Pulido Valente deu a meio de Agosto uma entrevista ao Diário Económico em que afirma, triste e zangado com a Pátria, como sempre, que Cavaco e Sócrates são “shallow” (uma palavra que, segundo diz, não tem equivalente em português), sem “um fundo cultural político, uma visão histórica do país, um pensamento organizado sobre a sociedade portuguesa”; já António Costa, de acordo com VPV, é menos “shallow” que os precedentes.

Três observações:

– VPV tem evidentemente razão: basta ouvir uma vez o PR ou o PM a falar em tecnocratês para perceber a sua incorrigível shallowness; o problema é que o mesmo VPV, que passa a vida e explicar-nos que a horrível plebeízação da nossa sociedade é uma decorrência inevitável da democracia e que quem a teme, a denúncia ou a combate é um ser perigoso, que vive noutro tempo, não se apercebe que se está queixar dos efeitos do seu próprio remédio: que queria ele que o pântano PS-PSD produzisse, reis-filósofos?

– VPV acha que António Costa é melhor que o chefe. Não sei de onde lhe vem essa convicção (nunca dei por que António Costa tivesse um “fundo cultural político” que fosse superior à sua simples apetência pelo poder), mas temo que ela diga mais sobre VPV do que sobre aqueles que ele analisa; é que António Costa, ao contrário de Sócrates e de Cavaco, é lisboeta, cursou direito e sabe-se de quem é filho e de onde vem. VPV parece ter medo de perder as suas referências.

– Enfim, diga-se que shallow tem tradução em português, e não é aquela que António José Teixeira sugere (superficial): shallow quer dizer improfundo (há uma diferença).

PS: Vítor Dias está certo: há mais e melhor na entrevista de Manuel Villaverde Cabral ao DE do que aquilo que eu disse no post que escrevi sobre ela.

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SEXTA | António Figueira
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