Rui Tavares: A culpa é do Iraque

É por isso não sem hipocrisia que os apoiantes da guerra, colocados perante um cenário de catástrofe, venham alegar que não temos alternativa. Outra vez?

Segundo números do ano passado, os EUA gastavam mil milhões de dólares no Iraque a cada quatro dias: um “bilião”, na numeração americana. Os EUA estão no Iraque há mais de mil e quinhentos dias. Já em 2006 estes custos ultrapassavam em muito os da guerra do Vietname e de todo o programa Apolo de ida à Lua, se actualizados. Entretanto aumentaram. Deste dinheiro, 18 “biliões” eram para um programa de reconstrução do Iraque, dos quais um terço foi gasto na embaixada norte-americana em Bagdade, que é maior do que o Vaticano. Mais uma vez, os gastos com mercenários são desconhecidos.

George McGovern, ex-candidato à presidência dos EUA, e William R. Polk, decano norte-americano das Relações Internacionais, propõem gastar uma fracção deste dinheiro para colocar no Iraque um exército de paz, com mandato da ONU e constituído maioritariamente por países árabes ou muçulmanos. Marrocos ou Indonésia não o farão de graça: pelas contas dos autores, a factura ficará por volta de um mês de guerra aos custos de 2006. Mas muito mais teria de ser pago: reparações pelos danos nos sítios arqueológicos de Babilónia, Kish, e outros (três dias de custos de guerra), reconstrução de infraestruturas (um mês e meio), planeamento e estudos (quatro dias), indemnizações por morte e incapacidade directamente provocadas pelas tropas americana (dois dias, ou 500 milhões de dólares) ou por prisão e tortura (a ser calculado por uma comissão internacional).

Esta proposta foi feita há um ano. Pela mesma altura, foram bem divulgadas as recomendações da Comissão Baker para o Iraque, nomeada pelo próprio Congresso Americano. O estudo Baker preconizava conversações directas com o Irão e a Síria, redistribuição de tropas, retirada faseada. Não há garantias de sucesso mas, avisavam os autores, insistir na estratégia da ocupação é uma garantia de fracasso. A resposta de Bush foi aumentar as tropas, escalar a guerra de palavras com o Irão e, agora, voltar a pedir mais dinheiro.

É por isso não sem hipocrisia que os apoiantes da guerra, colocados perante um cenário de catástrofe, venham alegar que não temos alternativa. Outra vez? Desde 2003 que vos damos alternativas. A resposta é matar as alternativas e depois dizer que não há alternativas.

No tempo do Vietname, este tipo de estratégia prolongou a sangria por várias presidências dos EUA. Hoje é duvidoso que um próximo presidente dos EUA esteja disposto a ficar com o Iraque de Bush nos braços. Mas como em plena campanha eleitoral é impossível admitir o erro, vai ser preciso encontrar um culpado. E quem vai ser esse culpado?

Um dos optimistas-mor da guerra, Thomas Friedman, diz agora que o aumento das tropas pode não funcionar porque, enfim, “trata-se do Iraque”. O Iraque, acrescenta Friedman, “já estava partido antes de nós lá chegarmos”. Os candidatos às primárias, mesmo do Partido Democrata, o máximo que conseguem dizer é que os iraquianos estão “dependentes” da ajuda americana. Há quem fale em dar-lhes um prazo para “que resolvam os seus problemas” ou então saltar fora. Hillary Clinton quer que o primeiro-ministro iraquiano se demita porque não consegue “parar com a violência”.

A primeira medida do plano de McGovern e Polk tem custo zero: um simples pedido de desculpas. Mas é a proposta mais irrealista de todas porque, como sabemos, a culpa é dos iraquianos.

Publicado no “Público” de 30 de Agosto

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