Boca cheia

Eu já estou um bocado como aquele personagem d’”Os Maias” que quando ouvia falar de Gamas e Albuquerques exclamava à porta do Trindade: “Fujamos, que é patrotismo!”: quando oiço falar em “lusofonia”, não sei se hei-de rir se hei-de chorar. A última que eu descobri foi que os brasileiros candidatos à naturalização deverão fazer um exame de português se quiserem ter o privilégio de ser cidadãos da República Portuguesa. (O mesmo se aplica aos naturais dos PALOP’s, embora aqui haja o argumento, a meu ver espúrio, de que a sua língua materna poderá não ser a língua oficial do seu país). Vá lá que esta simpática manifestação de fraternidade lusófona não demoveu o Pepe de se tornar português, mas se ele chegar à Selecção (espero bem que sim), espero também que os jornalistas desportivos não lhe perguntem jogo sim, jogo sim, como fazem ao Deco, se ele “ainda está com vontade de jogar” na equipa das Quinas. A combinação do provincianismo estreito e do chauvinismo puro com a retórica grandiloquente dos duzentos e tal milhões de falantes da língua portuguesa é dos espectáculos mais deprimentes que Portugal pode dar ao mundo.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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