Honra às madalenas!

Os blogues são como a vida, têm bom e mau tempo, e se calhar é isso que lhes dá a graça. Porque eu postei (por assim dizer) um link para um conto francês de setecentos, disse um comentador que ainda bem que me tinha passado a “fase de Proust” ou coisa parecida. Porquê? Ignoro; mas por uma secreta associação de ideias (outra coisa que também dá graça aos blogues, olha), logo a f. postou (idem, idem) um dos seus excelentes sermões, louvando-se expressamente na madalena proustiana para dar um mergulho na praia algarvia de há não-sei-quantos anos, só para um outro comentador lhe dizer que ela andava a dar-se ares, de quem tinha chegado ao Algarve antes da plebe (e até se calhar dos algarvios) e – supremo insulto! – que os malacuecos eram afinal uma variante temperada da prosa equatorial de Miguel Sousa Tavares. Ah ele é isso? Então honra às madalenas! – e ficai sabendo que eu já ia para Azeitão antes do Herman José lá ter chegado!

Lembrança de Azeitão

Quando tento pôr as prateleiras em ordem ou arrumar a livralhada encontro-a sempre nas secções mais abstrusas, atrás dos mais inúteis dos saberes e das menos frequentadas das literaturas; insusceptível de ser apresentada ao mundo (detesto confessionalismos), forçoso é que viva escondida, por ser igualmente impossível deitá-la fora, pois com ela iria, além da minha incontornável avó, torre da minha infância, uma parte de mim também, uns anos iguais aos outros, a famosa idade em que o sexo germina em nós sem nós darmos por isso, mas que por ignotas razões, na cronologia da minha vida que estabeleci como versão oficial para mim próprio, elegi como os meus “anos de ouro” (uma vez que toda a gente tem os seus e até o pequeno Portugal se convence que já foi o maior do mundo). Com o passar do tempo, a loiça foi ficando sem brilho e com o bordo falhado, deixando à vista a massa grosseira de que era feita, e as letras douradas em que estava escrito, num cursivo ingénuo, “Lembrança de Azeitão” também se apagaram, se calhar ainda bem, porque eu acho os dourados pirosos – mas isso acho eu hoje, e não na altura em que ia à feira de Azeitão, porque nessa distante década de sessenta eu não distinguia uma pelintrice à venda numa feira portuguesa de algo mais a sério: os meus pais trouxeram-me uma vez uns óculos escuros desse improvável centro da moda internacional que era Viena e eu depois perdi-os, e desatei a chorar, fiz um barulho do caraças, e então para me calar ofereceram-me uns óculos de pechisbeque comprados na feira num domingo de manhã e eu fiquei todo contente com a troca. Uma leitura mais funcionalista da coisa parece também revelar que a sua capacidade era risivelmente diminuta para a finalidade que deveria servir – o que pode constituir outro sinal dos tempos de penúria relativa que então se viviam: onde era suposto a juventude tomar o leite matinal que a faria forte, cabe melhor, vejo-o agora, pouco mais que um cappuccino, e talvez por isso a juventude ficou raquítica, mas nessa altura eu também não sabia o que era um cappuccino (a minha filha hoje ri-se de mim quando eu lhe digo isto, mas eu encolho os ombros e respondo-lhe que, de qualquer maneira, todos nós temos o nosso Rosebud). Já tentei dar um novo fôlego à minha velha “Lembrança de Azeitão”, arranjar-lhe um outro uso e enfiar-lhe lápis e canetas dentro, mas o resultado foi penoso: não só, vista a sua diminuta altura, não conseguia aguentar os ditos lápis e canetas, como sobretudo não suportava o confronto com as suas cores modernas e luzidias, que ainda a faziam parecer mais pobrezinha. Ainda bem: porque a minha avó iria pensar que eu era parvo, em meter lápis no lugar do leite (e teria razão), e mais ainda porque eu não me canso de ir reencontrando, ao longo dos anos, a minha “Lembrança” na sua esplêndida e memorável inutilidade.

(Publicado originariamente no Aspirina B).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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