Ana Matos Pires: Ainda a propósito de “cientismos”

Em comentário a um post anterior, fui aqui acusada de ter uma atitude “psiquiatrizadora” e metida no saco do “cientismo”. Fiquei um bocadinho encanitada dos nervos, assumo, sobretudo porque me senti injustiçada. Logo eu que ando sempre a apregoar que a normalidade é suficientemente lata para cabermos lá todos e que a doença é outra coisa, que causa sofrimento e que não pode, nem deve, ser banalizada. Logo eu que sou pelo direito à tristeza. Ainda por cima o contexto foi exactamente o oposto, houve como que uma “vulg(o)arização da psiquiatria” e não uma “psiquiatrização do vulg(o)ar”.

Como tenho tido uns dias de loucos (para não variar, de resto) lá deixei cair o assunto, sempre com a ideia de o repescar, que as coisas entaladas podem-nos fazer mal. Azarinho, a acusadora passou-me a mão pelo pêlo e já não há pretexto para a desancar (hei-de fazer-lhe a “carta psiquiátrica”, Luísa, está tramada!)

Mas ontem, em conversa familiar, a apofania aconteceu e pensei “espera aí, tou safa, aqui está um belo motivo para “cientismos””… diz que o Índice Sintético de Fecundidade (número médio de crianças vivas nascidas por mulher dos 15 aos 49 anos de idade) tem os seus mais baixos valores (1,1) na região da Serra da Estrela, Douro, Alto Trás-os-Montes, Pinhal Interior Sul e Beira Interior Norte e que, no extremo oposto, está o Algarve (1,7), acompanhado de perto pela Grande Lisboa. Pergunto: há por aí alguém que me explique estes números à luz da teoria “Hedonistas versus Puritanos”?

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SEXTA | António Figueira
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9 respostas a Ana Matos Pires: Ainda a propósito de “cientismos”

  1. p.porto diz:

    Vou ensaiar uma resposta.
    O Algarve é provavelmente a zona mais feliz de Portugal por este tempo. A economia local está menos sujeita aos constragimentos e depressões de outras zonas do país, desde logo as zonas que referiu. A comprovar, a vinda de muita gente de fora para trabalhar aqui, como por exemplo eu.
    Por outro lado, e ao contrário do que se pensa, a estrutura familiar é algo notável. A família é alargada, a maior parte das crianças não encontra dificuldade em ter com quem ficar quando não há escola enquanto os pais trabalham. Há sempre avós, tios, até vizinhos com filhos dispostos a acolher mais um. Tenho também a noção de que as pessoas casam mais cedo, não é raro ver mulheres jovens com dois e três filhos, coisa rara na minha Lisboa.

    Fica uma resposta ‘científica’ para quem a souber dar. Eu, fico-me por vos deixar estas minhas ‘impressões’ da vida neste local fantástico, onde há muito sol e pouca gente a apitar e a discutir por tudo e por nada. Exepto agora, cheio de lisboetas e gente do ‘norte’ em filas e a discutir por tudo e por nada, mas eles nem se apercebem, estão habituados a isso o ano inteiro.

  2. Model 500 diz:

    O ICF informa-nos sobre o impacto de certos acontecimentos na fecundidade no ano em observação, mas nada auxilia no estudo da determinação de uma tendência (para este efeito a descendencia Final é o índice indicado). Quer dizer, o ICF é muito sensível a factores conjunturais. Por exemplo, em períodos de guerra, o ICF será muito reduzido. Assim o ICF indica a força da fecundidade num determinado momento, e não a verdadeira fecundidade de uma geração.

  3. Mario Luis diz:

    Não vale a pena estar com filosofias. O problema está no clima….
    Nessas zonas faz um frio, que só apetece estar com o aquecedor no meio das pernas.

  4. Luísa diz:

    Ana,
    Não ensaio por enquanto qualquer resposta à questão ICF porque admito que me faltam dados e não quero fazer cientismo, mas está bem observado.
    E tem toda a razão quanto à “vulg(o)arização da psiquiatria”, eu iria mesmo mais longe e diria “banalização”.
    Quanto à “carta psiquiátrica” sinta-se à vontade, tb já tenho uma carta astrológica… hihihi! [tou nas graçolas, agora, it would be a pleasure, vindo de quem vem]
    abraço

  5. Luísa diz:

    olhem-me bem para isto, um exemplo do mais básico cientismo, quer dizer, agora actividades lúdicas provocam epilepsia? hehe! (q estupidez)
    http://jn.sapo.pt/2007/08/07/sociedade_e_vida
    /mahjong_pode_gerar_crises_epileptica.html
    para quem quiser ter ataques epilépticos:
    http://www.freegames.ws/games/boardgames/mahjong/freemahjong.htm
    Assunto ISF:
    segundo antónio barreto (2000), o ISF tem vindo a baixar desde 1930, qd era de 3,9; em 1997 era de 1,5. atingimos o padrão europeu (UE15) em 1992 segundo o Eurostat (2001).
    ponto 1: não é o resultado do referendo, contrariamente ao q o PR já insinuou;
    ponto 2: siga os próximos episódios de cientismo sociológico…

  6. António Figueira diz:

    Luísa:
    Dei quinhentas voltas para resolver o problema que referiu em relação ao seu comentário anterior, e a única solução que encontrei foi partir o primeiro link de hipertexto. Eu não q não é grande solução, mas foi a única, e fica o aviso para os utilizadores.
    AF

  7. Ana Matos Pires diz:

    p. porto, fica por explicar a proximidade dos valores entre o Algarve (1,7) e Lisboa (1,6)…

    Model 500, obrigada pela explicação. De qualquer modo, num país com a dimensão do nosso, os aspectos conjunturais de que fala e que influenciam o referido índice far-se-iam sentir em todo o território, ou não?

    Mário Luís, aquecedor entre as pernas? Não consegue imaginar nada mais simpático para os senhores se aquecerem?

    Luísa “acusadora”, quando fiz o post tive preguiça de ir consultar o último Censo, mas era engraçado ver, por exemplo, a distribuição nacional das mães solteiras, para não falar na “distribuição nacional” da reliogiosidade. Quanto à “carta”… credo! Nunca, por nunca! Era uma ameaça inconsequente, assim a modos que um uso (abuso) do tal poder psi de que a Luísa falava noutro dia. E obrigada pelas suas simpatias, é sempre bom ter mimo.

    Luísa “das 23:5”, não conheço o artigo original, vou tentar encontrá-lo quando tiver tempo, até porque a notícia é mais uma das múltiplas obras de arte da nossa imprensa, gosto em particular “da epilepsia deste jogo de mesa” (!!!!). Em todo o caso, está descrita uma forma particular de epilepsia do lobo temporal cujas crises são desencadeadas por estímulos luminosos (foi muito estudada aqui há uns anos, quando o uso dos pc’s começou a generalizar-se), não me admiraria que estivéssemos perante um fenómeno parecido. Quando souber alguma lcoisa ogo direi.

    Cumprimentos e bom dia para todos, António incluído, claro.

  8. Ana Matos Pires diz:

    Descobri o artigo. Só passei os olhos, mas deixo aqui a introdução e o link. Inté.

    “In patients with epilepsy, a whole range of homeostatic variations, such as body temperature, sleep deprivation, and hormonal changes during menstrual cycles can influence susceptibility to seizures. Besides these well-recognised provocations, some specific stimuli can trigger seizures in certain patients. Examples of this reflex phenomenon include photic-induced seizures (1), musicogenic epilepsy (2 ) hot water epilepsy (3) reading epilepsy (4) and seizures induced by thinking and spatial tasks (5). Mah-jong is one of the most popular leisure activities in many Chinese communities. In our locality, the majority of people play mah-jong for fun rather than for gambling. In this paper, three cases of reflex epilepsy associated with mah-jong are described.”

    http://www.hkmj.org/article_pdfs/hkm0708p314.pdf

    Ps: Outro assunto importante, a qualidade – ou a sua ausência – da informação relativa à saúde na imprensa nacional…

  9. Luísa diz:

    Ana,

    Cientismo nos media: pois é exactamente esse o ponto. Eu sou a favor de uma sociedade de informação e tenho particular respeito pelos jornalistas, mas quando toca à divulgação científica há muitos artigos acríticos. eu sei que é preciso publicar na hora e não há tempo a perder e que o público em geral aprecia grandes títulos. mas assim não pode ser. obrigada pelo link, Ana. Isto só prova que, tal como a Ana fez, tb um jornalista da área da divulgação científica tem hoje ao seu dispor meios suficientes para uma avaliação crítica das fontes.

    ISF: tem piada, é que andei a fazer umas pesquisas na internet e descobri que em Setúbal e Faro, dois dos distritos onde o ISF é dos mais elevados, é igualmente elevada a denominada fecunidade ilegítima. O que aponta, parece-me, numa direcção: mais tolerância com as mães solteiras. hehehe! grande bingo!!

    Carta Psi: Achei piada, mas ia precisar talvez de uma página A2 😉

    António Figueira,
    Obrigada pela reparação do problema informático e registei o “aviso”.

    Boa tarde a todos,
    Luísa Franco

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