Double talk

A pequena entrevista que António Barreto deu ontem ao DN merece ser guardada e relida daqui a umas dezenas de anos, quando a natureza tiver seguido o seu curso inexorável e António Barreto, o PREC, a reforma agrária e cada um de nós for apenas história. Talvez nessa altura seja possível lê-la justamente como história – contada por um personagem com a importância que António Barreto teve para extinguir a reforma agrária e impedir que se consolidasse qualquer transformação revolucionária da estrutura da propriedade rural em Portugal – e não como um exercício, às vezes penoso, de uma certa má consciência pessoal.

Hoje, a história como é contada por António Barreto ainda sofre de um double talk que (apesar de ele também contar que alguém já lhe tinha dito que ele era “a primeira pessoa que estava a fazer uma reforma agrária para tirar a terra aos pobres e dar aos ricos”) o leva a pretender “que em Portugal se deu uma contra-revolução e foi preciso repor o rumo que a revolução tinha tomado”. Claro: a Lei Barreto representou a justa via revolucionária, tal como João Carlos Espada ou José Manuel Fernandes representaram o autêntico socialismo e Durão Barroso dirigiu o proletariado português contra os desmandos da burguesia. Havia paciência para essa conversa em 75 ou 76, hoje valia mais a pena chamar as coisas pelos seus nomes.

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SEXTA | António Figueira
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