Ana Matos Pires: Isto é a gente a pensar…

Estava a ler o Público de domingo e eis que, na página oito, esbarro com a seguinte declaração, atribuída a Correia de Campos “A vacina do papiloma vírus dada só as raparigas que façam 11 anos este ano custa 25 milhões de euros.” De imediato tentei descobrir se o governo teria feito algum movimento no sentido de comparticipar a vacina do HPV para esta faixa etária. Não consegui encontrar nada. Se alguém me puder elucidar fico desde já agradecida.

Caso a minha suposição tenha algum fundamento, quanto custará vacinar as meninas madeirenses de 11 anos, pensei (relembro que os custos de aplicação da lei do aborto naquela região autónoma são, felizmente, estimáveis e apontam para valores entre 220 e 280 mil euros). Com o precioso auxílio da Shyznogud, que já levantou esta questão há mais de uma semana, e sem “cientismos”, fiz um pequeno exercício que partilho convosco. No último Censo a Madeira correspondia a 2,31% da população portuguesa. Se considerarmos que a mesma relação existe para as meninas de 11 anos (e é capaz de pecar por defeito porque a Madeira tem uma mais alta taxa de natalidade) isso faria com que a implementação da vacinação correspondesse a cerca de 580 mil euros, ou seja, mais do dobro do que o custo estimado do aborto…

Ps: Um destes dias, se os estimados donos do Cinco Dias me permitirem, hei-de voltar ao “cientismo” e à “psiquiatrização”…

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

17 respostas a Ana Matos Pires: Isto é a gente a pensar…

  1. Afrodite diz:

    Estimados,

    Ninguém foi mais a favor da despenalização do aborto (e liberalização, já agora – e porque, só não vê quem não quer, que isso não implica qualquer juízo moral sobre a prática em si) do que eu. No entanto, o tratamento desta questão no 5 dias – além de contraproducente – lança suspeitas sobre se alguns de Vós (ou dos Vossos) terão algum dinheiro a fazer com esta historieta.

  2. feto angustiado diz:

    Que eu saiba, o Ministério da Saúde ainda está a analisar o que fazer relativamente a esta vacina, não havendo para já intenção (ou orçamento) de a incluir no plano nacional de vacinação. Relativamente ao seu post, não estou certo de o ter entendido. Será que entende que é mais importante disponibilizar verbas para o aborto do que para a prevenção do cancro do colo do útero?

  3. Ana Matos Pires diz:

    Αφροδίτη,
    Antes de mais quero agradecer-lhe o estatuto de “ser um dos Deles”. É uma honra ser “misturada” com pessoas com a qualidade dos bloguers do Cinco Dias.

    Não tenho um “afavorómetro” da despenalização do aborto, por isso não discuto, sei que para mim foi uma Causa e que enquanto a nova lei, e respectiva regulamentação, não estiverem igualmente implementadas em todo o território nacional, não descansarei.

    Deixe-me ainda dizer-lhe que tem todo o direito de achar contraproducente o tratamento que o Cinco Dias tem dado ao tema, mas já não tem o direito de considerar a situação da Madeira como uma “historieta”, lamento.

    Quanto às suspeitas… acabei de falar com o Grupo Pestana e cravar-lhe um quartito de hotel, só me falta arranjar nome para o estaminé. Ah, e também não sei a quem vou pedir o licenciamento do mesmo (só mesmo com humor, verdade?).

  4. Ana Matos Pires diz:

    A resposta é não, Feto Angustiado.

    O acesso a cuidados de saúde é um direito fundamental, sobre o qual não pode haver intervenção das assembleias legislativas regionais: a matéria de direitos fundamentais é de soberania e o AJJ e a Assembleia Legislativa Regional não são soberanos. Fiz-me entender agora?

  5. Afrodite diz:

    1.º Estava sob a impressão de que o post seria do António Figueira (eventualmente, na sequência de alguma afirmação sua), pelo que – baralhada que estava – lamento, mas não a confundi com ‘um Deles’;

    2.º Não contestei a relevância da questão da aplicação de uma Lei Geral da República na Região Autónoma da Madeira, mas sim o tratamento que aqui vem sendo dado à questão mais lata das IVG em geral – à laia de ‘historieta’, got it?
    Muitas vezes o problema é de forma, outras é mesmo de substância;

    3.º ‘Grupos pestaninhas’, sabemo-lo bem, há por todo o lado. E quando se fala de IVG, convém lembrar que foi um nicho de mercado importante para alguns com menos escrúpulos, quando as mulheres eram relegadas para a clandestinidade.

    4.º Humor? Não me parece. O assunto é demasiado sério.

    Cumprimentos.

  6. lobotomias diz:

    Cara Afrodite
    “convém lembrar que foi um nicho de mercado importante para alguns com menos escrúpulos, quando as mulheres eram relegadas para a clandestinidade.”
    Será talvez tempo de acabar com este tipo de julgamento sobranceiro e moralista daqueles e daquelas que com coragem e determinação apoiaram durante anos mulheres desesperadas, colocando em risco a sua reputação e a sua liberdade pessoal. Muitos deles oferecendo, na clandestinidade, o único apoio que estas mulheres tinham. Muitos deles sendo a única distância que existia entre estas mulheres e uma agulha de crochet ou umas escadas.
    Já basta.

  7. Afrodite diz:

    Porra que o pessoal tem mesmo memória curta!

    Eu estou enganada ou esses beneméritos faziam-se pagar prodigiosamente (a preços mais altos que em Espanha)?

    E estou também enganada ou foram muitos desses beneméritos tão qualificados que mandaram mais mulheres que quereriamos imaginar para as urgências de hospitais?

    O Lobotomias descreve a realidade das abortadeiras em Portugal, como se estas tivessem sido instrumentos da solidariedade social. News flash: a solidariedade é consciente e de borla.
    Quem tenha ajudado mulheres de forma gratuíta e consciente dos limites da sua qualificação profissional, tem toda a minha compreensão; os outros são abutres!

  8. lobotomias diz:

    Cara Afrodite
    Não lhe parece interessante esta sua dualidade de critérios. Todos vivemos dos serviços que prestamos, até a Igreja, e seus representantes recebem por “serviços espirituais”.
    Mas aqueles que arriscaram a sua liberdade para oferecerem cuidados de saúde imprescindíveis tinham que viver do ar para merecerem a sua benevolente compreensão.

  9. lobotomias diz:

    “lança suspeitas sobre se alguns de Vós (ou dos Vossos) terão algum dinheiro a fazer com esta historieta.”
    Até consigo imaginar o António Figueira vestido de enfermeira a aspirar fetinhos… Tenha vergonha!!!
    Explico devagarinho se ainda não percebeu:
    Esta dita “historieta” dá dinheiro na condição de que seja restringido o acesso das mulheres ao SNS (como alguns pretendem na Madeira), exactamente o contrário do que eu tenho visto ser defendido aqui… “got it?”

  10. Luísa diz:

    Ana Matos Pires,
    quanto a voltar ao cientismo e à psiquiatrização: “volta, que estás perdoada” 🙂
    O meu comentário, talvez ácido, teve como fundamento o indesmentível poder dos psiquiatras no mundo contemporâneo. por vezes posicionam-se no papel de deus, ou seja, assumem a atitude de detentores da verdade absoluta sobre a mente humana. o que, dada a própria natureza da profissão, lhes deveria dar matéria para reflexão. no sofá, na cadeira ou, dado a época estival, na espreguiçadeira à beira-mar.

    Outro comentário: quanto à preocupação da afrodite com a mais-valia, apoio o lobotomias.

  11. Afrodite diz:

    Prometo que este é o meu último comentário, até porque não vou ser cúmplice nesta tentativa de branqueamento.

    Mas não queria deixar de dizer isto ao Lobotomias: O lobotomias quer passar a mensagem que as abortadeiras pré-despenalização estavam para a liberdade individual das mulheres como os resistentes políticos pré-25 Abril estavam para as liberades colectivas. My ass!

    Se quiser, transijo nisto: houveram, com certeza, pessoas que, de modo desinteressado e motivadas apenas pela ideia de solidariedade, ajudaram mulheres a abortar fora das situações anteriormente previstas na lei. Estas foram, entre as resistentes, as mais altruístas – porque não tinham nada a ganhar.

    As outras, se arriscaram alguma coisa, foi por entenderem, no cômputo (económico) geral, que os benefícios que retiravam da sua prática criminosa suplantavam os riscos inerentes. O que diz muito do risco que corriam (e correm)… diga-se de passagem… bom, e, já agora, dos benefícios também. O risco… podem chamar-lhe: custo de oportunidade.

    Para terminar, só lembrar que esta lógica de prestação de serviços não termina do pé para a mão – há-de haver aí ainda muita benemérita disposta a ajudar quem por vergonha ou desinformação não recorra ao SNS ou às clínicas autorizadas. Mas relativamente a estas – como relativamente às que praticavam ilegalmente IVG antes do referendo – a consulta popular não traz nada de novo. A IVG praticada em estabelecimento não autorizado (que é também como quem diz, também, não fiscalizado) é crime. Era-o antes, e continua a ser agora.

  12. Afrodite diz:

    «Até consigo imaginar o António Figueira vestido de enfermeira a aspirar fetinhos… Tenha vergonha!!!»

    UI! O Lobotomias está zangado…! Agora é que me vou mesmo embora, que o pé já fugiu para a chinela…

    Cumprimentos.

  13. António Figueira diz:

    Que história é esta do “António Figueira vestido de enfermeira a aspirar fetinhos”?!
    O que é que a vizinhança ainda vai pensar?
    De uma vez por todas: este post é da autoria de Ana Matos Pires e o meu nome aparece aqui apenas porque o programa deste blogue atribui automaticamente o post àquele dentre os “Cinco” que o insere materialmente no blogue e independentemente de tê-lo escrito ou não.
    AF

  14. Ana Matos Pires diz:

    Luísa, não perderá pela demora, tenha eu tempo. Quanto aos psiquiatras, percebo bem o que diz e concordo, no geral, ainda que me pareça que parte desse poder é mais aparente que real, felizmente, está mais no imaginário geral. Até breve, então, ácido com ácido se paga. ihihih

    António, mas a figureta tem graça, verdade? De resto, outra coisa não seria de esperar, o Lobotomias é um homem inteligente e com humor.

    E agora, assim de repente, apeteceu-me deixar aqui “As razões do meu SIM”… http://www.medicospelaescolha.pt/node/544?page=2

    Cumprimentos a todos

    Ps: Para que não haja baralhações, faço notar que no meu primeiro comentário usei a expressão “ser um dos Deles” e não “ser um Deles”

  15. Luísa diz:

    Ana,
    E, assim de repente, li as suas razões para votar SIM e foi mais eficaz que sais de frutos, lá se foi a acidez…
    que venha o post, mas parece-me que vai ser assim mais para o agridoce 🙂

  16. Ana Matos Pires diz:

    Ó pá, Luísa, atão tenho que alterar a escrita e já tava prontinha e tudo, e tudo, e tudo. 😉

  17. Luísa diz:

    hihi! pois ainda não está escrito, mas q o seja, doce, amargo ou ácido, mas certamente inteligente 😉
    [prontus, já chega de mimos, he!]

Os comentários estão fechados.