Ezequiel: Miopia

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Estava a reservar esta imagem para um post sobre o papel dos intelectuais, mas como o Ezequiel estreou-se aqui no 5 dias, a fotografia está bem usada. Cá fica o texto do Ezequiel. Já só falta cravar o João Galamba. NRA

A teoria do “realismo” (realpolitik) assenta na crença de que a política internacional resulta das acções de estados que tentam maximizar os seus interesses objectivos numa “arena” global competitiva que é fundamentalmente anárquica. Os defensores da teoria da “interdependência” questionam os simplismos maquiavélicos do paradigma realista, enfatizando a emergência e consolidação de forças e processos transversais que condicionam as capacidades dos estados agirem autonomamente e em função de um conceito objectivo de raison d`état. Ou seja, para o realista a política internacional é feita de interesses nacionais articulados e realizados através de relações de força e em condições de competição radical. O realista poderá reconhecer que as condições da existência dos estados afectam a natureza dos interesses nacionais mas defende que, uma vez constituídos, estes interesses adquirem um poder normativo preeminente e decisivo. Por sua vez, os proponentes da escola da interdependência afirmam que as condições sistémicas em que os estados “vivem” limitam as suas capacidades de acção. O estado soberano é um estado condicionado por forças que não emanam dos poderes da soberania.

São dois vocabulários analíticos distintos que digladiam-se há muito. Este conflito filosófico e académico transformou estas duas escolas de pensamento em dois paradigmas herméticos e estáticos e fez com que um dogmatismo subtil e eficaz se instalasse nos dois campos. As verdades de uma escola são as falsidades da outra. É natural que cada uma destas escolas de pensamento assuma a veracidade das suas teses. Seria absurdo supor o contrário. O que não é natural é que os defensores destas teorias não considerem que a oposição dos seus conceitos não é plausível. Embrenhados no conflito, preocupam-se essencialmente com a invalidação da escola oposta e não com a contemplação do mundo tal como ele se nos apresenta. Enclausuram-se na sinuosidade sedutora da contestação teórica (com muito wine&cheese à mistura) e esquecem-se de ouvir e de ver. Movidos pelos mais mundanos e mesquinhos interesses de combate académico, acabam por celebrar a miopia e os mais perigosos anacronismos. Os departamentos dividem-se em campos opostos, estabelecem-se “escolas de pensamento” e desenvolvem-se elaborados rituais de lealdade filosófica e pessoal. Os pesquisadores de cada escola preocupam-se fundamentalmente com a árdua tarefa da elaboração e verificação das premissas da sua teoria. As criticas e contra-criticas assumem a forma de melodias previamente ensaiadas, não obstante as proclamações institucionais que tem como objectivo promover a critica descomprometida e inovadora.

Um dos casos que demonstra as limitações inerentes à oposição simplista destas duas teorias tem que ver com a reconfiguração do estado na era da globalização. A teoria vigente é, ou parece ser, a seguinte: a globalização está a corroer as capacidades de soberania dos estados modernos. Enfraquecidos e debilitados pelas forças inexoráveis da globalização, os estados encontram-se sujeitos a um processo de degeneração. Esta é, a meu ver, uma visão simplista e perigosa. A verdade é que os estados tem vindo a fortalecer muitas das suas capacidades clássicas de soberania precisamente porque estão sujeitos às pressões crescentes da globalização. Não se trata de uma mera oposição de either-or mas de uma relação complexa. Bateson escreveu num dos seus célebres livros o seguinte: “The map is not the territory.” Atrever-me-ia a dizer que nunca na história humana a discrepância entre mapa (interpretação) e território (realidade) foi tão flagrante e dramática. Deveríamos reexaminar radicalmente a relação das linguagens e vocabulários com a interpretação do real. Precisamos de uma nova gramática. Urgentemente

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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