Pequeno terramoto

Trinta anos de democracia habituaram-nos a ver que em noite de eleições todos os partidos cantam vitória. O último escrutínio em Lisboa rompeu com este hábito. No último domingo, todos os partidos perderam e a democracia ficou mais pobre. Até o eleito presidente, sabedor da falta de entusiasmo dos lisboetas, viu-se na contingência de importar manifestantes de outras latitudes. Quem melhor do que um habitante de Cabeceiras de Basto para comemorar a vitória do novo presidente da Câmara de Lisboa? Até porque a maioria dos lisboetas votou com os pés, afastando-se a grande velocidade das mesas de voto.
Um terço dos menos de 40 por cento que se deram ao trabalho de votar, resolveram protestar apoiando os dois “candidatos independentes”. O número dois do Partido Socialista ficou com menos 30 por cento dos votos, a direita sofreu uma hecatombe e o PCP e o Bloco de Esquerda desceram. Estas eleições provam que há uma crise crescente de representação no sistema político português. Os eleitores não se reconhecem no governo nem nas oposições. A perda de popularidade das políticas governativas não se traduz num crescimento das oposições, que dizem contestar essas políticas, mas numa subida da abstenção e de efémeras candidaturas sebastianistas. A descida de popularidade do governo Sócrates só é ultrapassada pela perda de credibilidade da oposição. Temos governo por muitos anos, não porque alguém morra de amores por ele, mas porque ninguém acredita que um outro governo e uma outra política sejam possíveis.
À direita tem-se agravado o habitual contra-senso: O CDS tem liderança, mas não tem eleitores; o PSD tem eleitores, mas não têm líder. À esquerda do PS, os problemas são os habituais: os alegristas, o PCP e o Bloco de Esquerda somaram mais de 25 por cento dos votos, mas essa força não servirá de nada, porque as sensibilidades que organizam essas vontades estão mais interessados em agredir-se entre si, do que em constituírem uma alternativa à esquerda do Partido Socialista. Parafraseando o tele-pastor da democracia portuguesa, numa das suas homilias de domingo, é mais fácil Cristo regressar à terra do que a esquerda da esquerda entender-se.
Finalmente, o governo também não está bem. Para levar a cabo um conjunto de reformas, mesmo que de carácter neoliberal, o executivo tem de fazer mais do que adormecer os descontentes, precisa de mobilizar vontades dos sectores sociais que possam ser beneficiados com essas mudanças. Ora, as eleições de Lisboa provam que a maior parte dos cidadãos está mais mobilizado para votar num concurso de televisão do que para participar no processo democrático.
Esta crise só tem uma solução: vontade política. Resta saber se a direita, a esquerda da esquerda e o PS têm pensamento, capacidade e desejo de construírem projectos políticos alternativos que mobilizem a sociedade portuguesa e renovem a democracia.

Escrito para Focus 405

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

15 Responses to Pequeno terramoto

Os comentários estão fechados.