Filipe Moura:Democratic Party

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Na edição deste ano da festa de L’Unitá de Roma, nas termas de Caracalla, pensava-se o nome do futuro grande partido italiano de centro-esquerda. A festa, organizada pelo jornal L’Unitá, afecto aos Democratas de Esquerda, descendentes do antigo Partido Comunista Italiano e integrantes do futuro “Partido Democrático”, tinha por slogan “Democratic Party”, e visava quer a festa quer o partido.
Quantos italianos, mesmo dentre os participantes na festa, percebiam o duplo sentido? A avaliar pelos que sabiam inglês quando se lhes perguntava alguma coisa, muito poucos, garanto-vos. Praticamente ninguém.
A festa em si? Muito comércio; pouca comida local – o que é uma pena, pois a comida local é das melhores do mundo; alguma comida sul-americana; alguma comida africana; cuscus… vegetariano (só descobri depois de ser servido; reclamei, pois com certeza, e desenrascaram-me umas lascas de kebab por cima; mas só eu é que me lembrava de ir para ali em turismo); cervejas e vinho muito caros. Música ao vivo (parece que noutros dias também há debates). Muitos livros, de Bertinotti a Achille Ochetto e Massimo d’Alema. Traduções italianas de Marx e Engels. Rosa do Luxemburgo. E Gramsci, muito Gramsci. E ícones típicos da esquerda. Imagens de Che Guevara (o PDS italiano deve ser o único partido da Internacional Socialista que organiza uma festa com imagens de Che Guevara) alternavam com stands de empresas privadas, patrocinadoras da festa, de entrada gratuita e aberta a toda a gente.
Uma festa que mistura empresas privadas com Che Guevara se calhar não é para se levar muito a sério. Mas se toda a Itália não é para levar muito a sério, por que razão uma festa da esquerda seria? Eu em certas circunstâncias nem me importo que a esquerda não se leve demasiadamente a sério. Desde que a esquerda seja de esquerda.

Filipe Moura 

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