O amigo do Prof. Arroja

Para génio, génio e meio: irritado talvez com essa mania moderna de expurgar o Estado da religião, João Miranda, também do “Blasfémias” pergunta: então se se separa o Estado da religião, por que não se separa também o Estado da nação? E vai daí, descobre: o Estado laico, para ser coerente, deve também ser culturalmente neutro e livre de qualquer carga nacional.

Deve perdoar-se a Miranda, que assina como “investigador em biotecnologia”, a ignorância histórica: a tentação da pura nação cívica tem para lá de duzentos anos e pertencia originariamente… aos jacobinos. Nessa altura, eram os reaccionários que defendiam o trono e o altar que não concebiam outra nação se não a particular, irredutível à humanidade universal, e os revolucionários que trocavam a França pela República francesa, incarnação do universal num segmento do planeta. Mas a nação universal é uma quimera: provou-o a mesma República francesa, que foi muito mais França do que República e se transformou em Império, e mais perto de nós a URSS, de que a Rússia de Putin é a herdeira legal. A nação cívica “etnicizou-se” – talvez porque a nação nunca possa deixar de ter um cimento cultural que una todos os seus membros. Assim, são hoje os “comunitaristas” e os “multiculturalistas” (que descendem em linha recta dos reaccionários do século XVIII) que exigem um Estado culturalmente neutro em que cada tribo possa impor com força de lei os seus usos e costumes, enquanto cabe aos modernos republicanos a celebração dos valores e cultura comuns.

No Ocidente, a história das relações do Estado com a religião é diversa da história das relações do Estado com a nação. A tolerância religiosa e o seu corolário, o Estado laico, era a principal condição da paz civil. Em Portugal – país em que o Estado não está em conflito com a nação, e cuja nação é uma construção política antes de ser a afirmação de um particularismo étnico – somos todos portugueses o que quer que pensemos das aparições de Fátima ou da interrupção voluntária da gravidez. Portugal é laico para ser de todos, mas isso não implica que deixe de ser Portugal: no ideal de uma República tolerante e solidária, que celebra o seu património cultural comum, até João Miranda e os seus disparates cabem.

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SEXTA | António Figueira
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