A cor dos olhos de Telmo Corrêa

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A criação mais delirante do moderno anti-semitismo nacional foi um livro editado nos anos 20 por um tal de Mário Saa e chamado “A Invasão dos Judeus”. O anti-semitismo português do século XX já de si é uma tradução em calão do anti-semitismo francês, vista a arreliadora falta de matéria-prima entre nós para qualquer anti-semitismo que se preze – ou seja, a quase absoluta falta de judeus; mas o livro de Mário Saa vai mais longe na cópia do modelo francês, e tenta transpor para o nosso país, para além de um racismo com uns ares científicos à la Gobineau, o debate franco-francês sobre as origem gaulesas ou francas da nação, que no caso português se travestem de “semitas” e “suevo-godas”. A história de Portugal é pois atravessada, segundo Saa, pelo confronto de dois princípios “rácicos”, em que se subsumem todos os restantes conflitos sociais, políticos e até artísticos ocorridos dos primórdios da nacionalidade até aos nossos dias: os “suevo-godos” são a raça dos senhores, os invasores louros que vêm do Norte, a casta terratenente que incarna o princípio da tradição e da ordem, enquanto os “semitas” são a plebe morena do Sul, feita para trabalhar, os vencidos que desde que a humanidade foi dividida em classes sociais trazem consigo os gérmenes do ressabiamento e da subversão; na arte, os “suevo-godos” são dados aos estilos tradicionais, enquanto os amigos de Mário Saa (paradoxalmente ou talvez não, o autor é uma personagem menor da segunda geração modernista, contemporâneo de Raul Leal, da “Sodoma Divinizada”, e de António Botto, o amigo das criancinhas irlandesas) são denunciados como agitadores “semitas” – e de José de Almeida-Negreiros (que, como é sabido, tinha ascendência são-tomense) chega a escrever-se n’”A Invasão dos Judeus” que “traz em si dois Continentes”! Ora outra graça deste livro é ser profusamente ilustrado, e trazer inúmeros exemplos gráficos de “semitas” e “suevo-godos”, aqueles sempre horrivelmente pencudos, de tez escura e olhar maligno, enquanto estes primam pela finura do traço, a alvura da pele e o claro dos olhos. À escassez de “suevo-godos”, deve a pátria a sua decadência: eram poucos, estes germanos feitos para mandar, e por isso foram arredados do poder pela força do número (o horrível princípio democrático!) a ponto de hoje serem quase uma raridade de feira; houvesse ele mais umas dúzias destes bravos e logo outro galo cantaria. Mas os señoritos de olho claro, mesmo se poucos nesta mouraria impenitente, são uma gente porfiada; e para oferecerem a sua celebrada “competência” a Lisboa coligaram-se agora quase todos na lista do CDS à Câmara – que tirando duas moças (de que não havia necessidade) inclui três magníficos exemplares de “suevo-godos”, a saber o Dr. Telmo Corrêa (um ex-colega da FDL que nas horas vagas é um brave type, posso afiançar), o Dr. Nobre Guedes e um outro senhor alourado que eu não sei quem é mas tenho a certeza que tem um excelente pedigree. Três em cinco – é uma maioria absoluta! Saberão os lisboetas aproveitar a oferta? Eu meto-me no metro, olho à minha volta o povo multicolor e digo para mim que desta vez o partido de Nuno Abecasis se arrisca a não eleger um único vereador…

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SEXTA | António Figueira
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