Um peso, uma medida

Agora que a poeira à volta da escolha de Pina Moura para a administração da TVI assentou, chegou a altura de voltar outra vez ao tema. Aviso que não é o percurso político-empresarial de Pina Moura, nem a história da TVI enquanto projecto de televisão, o que agora me interessa; o que me interessa é usar o tema apenas como pretexto – e daí ter esperado para poder usá-lo a frio.

A sugestão foi involuntariamente fornecida pela Fernanda Câncio – a colega que faz o turno das segundas-feiras aqui no 5 Dias – num post já velho chamado TVI memória. Aí, a F. dizia mais ou menos isto: a decisão de atribuir a TVI à Igreja foi tomada, faz tempo, por quem ataca agora a nomeação de um aparatchik socialista para a TVI da Prisa; embora de sinal contrário, uma e outra foram “escolhas ideológicas”, que como tal devem ser assumidas. Conclusão lógica (pelo menos para mim): quem ataca a legitimidade da escolha de Pina Moura é incoerente, e quem antes fez aquilo autorizou que agora que se faça isto. Certo?

Só a parte da coerência (ou falta de); o resto está errado, tão profundamente errado que justifica voltar ao assunto não-sei-quanto tempo depois. O julgamento político deve aspirar a muito mais do que a um relativismo interessado, do tipo: o que o PSD fez, pode o PS fazer igual ou pior (ou vice-versa, tanto faz); isso é o adversarialismo da política (que não é um mal em si, mas) despido em absoluto de valores e transformado no circo do rotativismo. Nós ou eles: é o princípio de todos as derivas e de todos os abusos; é a lógica do my party right or wrong – que se nunca admitisse a objecção de consciência, e a procura de um ponto de referência imparcial a partir do qual fosse possível avaliar os factos segundo um só peso e uma só medida, dividiria o país em dois bandos de empregadores e empregados políticos.

Uma esquerda assim define-se como a adversária da direita, mas copia os métodos da direita e faz o mesmo que a direita faz; sendo a direita igual a esta esquerda, eis-nos chegados ao “centrão”, pântano da democracia.

O processo de concessão de canais de TV a grupos privados, nos tempos do Primeiro-Ministro Cavaco Silva, foi muito mal conduzido, e com grande leviandade: por razões culturais, no mais amplo sentido da palavra, foi para mim das mais funestas decisões que Cavaco Silva tomou.

A nomeação de Pina Moura, ex-ministro e deputado do PS e administrador da Iberdrola, para a administração da Media Capital, proprietária da TVI, pelo grupo espanhol Prisa, terá de defendida pelos méritos próprios que possa eventualmente ter, e qualquer que tenha sido o passado da TVI.

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SEXTA | António Figueira
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