No centenário da República

Fui aluno do famoso Pedro Soares Martínez na fase relativamente mais benigna da sua carreira, que se iniciou com o seu regresso à Faculdade de Direito de Lisboa nos anos 80. Nessa altura, e à falta do Direito Corporativo de que era o indisputado especialista, o Conselho Científico criou para ele reger uma cadeira de 5º ano chamada História Diplomática. À conta desta gentileza, eu licenciei-me em direito sem nunca ter tido quaisquer luzes, por exemplo, de processo executivo (que, para os não iniciados, faz ou deve fazer parte do núcleo duro de conhecimentos de várias classes de profissionais forenses), mas sei tudo ou quase (foi a minha melhor nota de curso, o que só prova que andava lá por engano) sobre a intrigalhada histórico-diplomática nacional – na original e pitoresca versão de Pedro Soares Martínez, claro está.

Em Martínez, a regra era simples: como, por assim dizer, tudo o que era reaccionário era seu, em todas as velhas guerras ele estava sempre do lado da reacção, e todas as causas passadas com um toque de reaccionarismo eram apoiadas como se fossem presentes. Podia-se imaginar Martínez, de espadachim, ao lado da nobreza a conspirar contra D. João II, ou de peruca, ao lado da “viradeira” e a tramar o Marquês, ou com uma jaqueta à marialva, ao lado dos miguelistas e a caçar “malhados”: era à escolha (prudentemente, para Martínez a história de Portugal acabava no Ultimato). O exercício era patusco e eu julgava que pertencia ao passado profundo de que Martínez faz inapelavelmente parte, mas afinal não: ainda hoje, “talassas” e saudosistas da I República terçam armas por história interposta, não se percebe é bem para quê.

Há uns muito amofinados porque querem pôr Aquilino no Panteão, há outros (incluindo alguns comentadores deste blogue) que ficam sentidos de cada vez que se põem em causa os predicados democráticos do Dr. Afonso Costa. Ora isso será uma atitude afectiva entendível, mas não é uma atitude política razoável. Sejamos claros: para além de nos ter deixado livres do trono e da corte, a República foi na melhor das hipóteses um mero “acelerador” da história, no sentido de ter antecipado um conjunto de “medidas fracturantes” (passe o anacronismo) que demoraria eventualmente algum tempo mais a adoptar caso não fossem introduzidas por via revolucionária (separação da Igreja e do Estado, registo civil, divórcio, etc.), mas esteve muito longe de ter o perfume de santidade que o “reviralho” lhe emprestou depois, usou e abusou do “trauliteirismo” tanto quanto os talassas e nem sequer a instituição democrática básica que era então o sufrágio universal masculino soube ou quis introduzir. O dia da liberdade e da democracia em Portugal é o 25 de Abril de 1974, não é o 5 de Outubro de 1910.

O princípio monárquico incomoda-me profundamente, porque é a incarnação da desigualdade no berço, e para além disso confia à lotaria genética a escolha dos atributos do chefe de Estado (com os resultados que se conhecem); mas não me parece que chegasse mudar o hino ou a bandeira para fazer a felicidade dos portugueses, nem sobretudo acho que essa causa valesse o sacrifício de tantos dentre eles na Flandres. Entre monárquicos e republicanos, aqueles que eu realmente prefiro são os outros: os injustiçados em quem ambos bateram, os excluídos da mesa do poder e da própria representação política, os valentes que se emanciparam dos notáveis que pretendiam falar por eles e passaram a acreditar nas suas próprias forças, os heróis sem nome que, em perigos e guerras esforçados, inventaram as suas próprias organizações e a sua própria política. Em matéria de afectos, e a ter de preferir alguém, eu prefiro sempre os que estão lixados.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

23 Responses to No centenário da República

Os comentários estão fechados.