Sem sentido

Afirma Pacheco Pereira: “O que é que se sabe quando se sabe demais? Sabe-se de menos. Não no sentido socrático do ‘só sei que nada sei’, mas no sentido de que há ‘saberes’ que se perdem, a começar pelo da inocência.” É evidente: à parte o caso de Doris Day (que Groucho Marx famosamente conheceu antes de ser virgem), em geral quando se ____ perde-se a virgindade – como quando se descobre se perde a ignorância, ou quando se inaugura um caderno se perde a folha pura, for one cannot have the cake and eat it too, et on ne peut pas avoir le beurre et l’argent du beurre. Eis pois uma trivialidade disfarçada de profundidade: com esta sua invocação dos “saberes” e da “inocência”, tão ao gosto do dia, o que Pacheco Pereira (re)faz afinal é a demonstração rigorosa de que pseudo profundo + trivial de facto = sumo pedante.

Mas há boas razões para Pacheco Pereira ser pedante: afinal, está a falar da “geração de 60”. O pretexto é uma espécie de autobiografia de Jorge Silva Melo chamada “Século Passado”, de que Pacheco Pereira faz a recensão no “Público” de sexta-feira passada e que eu até estou com vontade de ler – mas quem quiser saber alguma coisa sobre o livro terá de procurar noutro lado, porque José Pacheco Pereira está claramente mais interessado naquilo que ele próprio pensa do que naquilo que alguma vez terá pensado Jorge Silva Melo. Escreveu Walter Benjamin que não houve época nenhuma que não imaginasse que estava diante de um abismo; escreve agora Pacheco Pereira que a geração de 60, sem dúvida porque sabia demais (o tal saber sem inocência) “…voltou-se para a utopia, essa perigosa procura de perfeição”. Aparentemente desenganado e salvo da queda, Pacheco Pereira trabalha like a hidden persuador ao longo da sua extensa recensão para reduzir o livro de Jorge Silva Melo ao seu enquadramento temporal e o relato histórico da geração de 60 à memória interessada de muitos (como ele) que estão a chegar aos sessentas, confundindo de propósito o que é explicativo com o que é justificativo e o que é permanente com o que é circunstancial. Quer falar sobre tudo, mas fala sobre quase nada – ou seja, acaba por falar só sobre si. Não é cómico como João Carlos Espada (honra lhe seja feita), mas é igualmente trágico no seu solipsismo – ou seja, acha que o seu percurso de ex-esquerdista convertido ao “realismo” da política é o máximo a que é possível aspirar. Ora paradoxalmente, há muito de engenharia cultural nesta pretensão supostamente liberal: decretar hoje o fim das utopias parece quase tão absurdo como julgar, com Afonso Costa, que o catolicismo podia ser extirpado da face do país no prazo de uma geração. Uma de duas: ou Deus criou o Homem ou o Homem criou Deus; quem acredita na primeira das afirmações vai a Fátima ouvir os seus segredos, quem acredita na segunda há-de sempre inventar utopias e correr perigos. Pacheco Pereira cansou-se de correr e está no seu direito; fazer disso uma teoria geral da geração de 60 ou da humanidade no seu todo pura e simplesmente não tem sentido.

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SEXTA | António Figueira
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