O papel de parede lisboeta

A «Wallpaper», talvez a mais reputada revista de design, arquitectura e moda do mundo, lançou-se planeta fora e desenhou pequenos booklets que guiam o viajante por cidades estrangeiras.
Há cerca de um mês chegou o «Wallpaper City Guide» de Lisboa. Não deixa de ser curioso que a chegada desta proposta cosmopolita de (re)visita da cidade seja simultânea ao seu literal abandono ao vento. Destino cruel de um município onde encontramos a Estação do Oriente, que deu a Santiago Calatrava o Brunel em 1999, ou a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, de 1934, obra modernista onde pontua o cimento e os vitrais de Almada Negreiros.
Lancei-me no desafio de imaginar que a par do «Pestana Palace», do «Noobai», do «Eleven» ou da «Bica do Sapato», é muito possível entrar no mesmo eléctrico n.º 28 que o «Wallpaper City Guide» recomenda, e dar de caras com o cosmopolitismo lisboeta adiado.
Começamos pela saída dos Prazeres e o estacionamento e circulação intensa de automóveis que vai de Campo de Ourique até ao Chiado. Mesmo parando para um café n’«A Brasileira» – que perde, no «Wallpaper», para o «Careca» do Restelo, e lá fica Pessoa sem estatuto de contemporaneidade – ou um repasto no «Pap’Açorda» – este sim, um eleito – não podemos deixar de nos interrogar porque é que o parque habitacional do Bairro Alto, de Santa Catarina, do Chiado, pese embora rendido a um novo comércio de alto preço, continua por recuperar, ocupar e encher das mesmas pessoas que por ali apenas passeiam mas não vivem. E se formos ao «Noobai», aproveitar um fantástico pôr-do-sol, é inevitável deparar com lixo, muito lixo, no miradouro do Adamastor. Ou o trânsito da fuga dos não lisboetas ao final do dia, de regresso a casa, a congestionar a 24 de Julho, lá me baixo.
Mas continuemos no 28. Segue-se o sugerido «Café Nicola», instalado na Praça do Rossio que, apesar do rosto recentemente limpo, alberga zero habitantes e centenas de casas vazias em prédios decrépitos – e não se percebe onde para, ou parou, o Projecto de Revitalização da Baixa-Chiado. Na mesma baixa, Rua do Ouro eléctrico acima, há sempre de banda sonora as queixas dos comerciantes, mas nada a fazer… o português gosta do seu centro comercial. Alguns habitando mesmo edifícios com dignidade para serem considerados pela «Wallpaper» como marcos arquitectónicos: as Amoreiras e a Praça de Touros do Campo Pequeno.
Passada a Graça, onde os reparos se repetem e porque é que só pontualmente são recuperadas as casas das colinas céu acima desta cidade?, chegamos ao Martim Moniz, com direito a um cheirinho de Almirante Reis. E do Intendente. Julgo que o editor do booklet não passou por ali. Não pode ter passado. Porque ou o projecto de dar a Lisboa um «Wallpaper City Guide» abortava, ou nele constavam avisos florescentes para que os olhos sensíveis dos amantes do design e da modernidade bonita por ali não passassem. Apesar dos esforços de ajardinamento, aqueles gigantescos edifícios onde se comercia não sem bem o quê e que tapam a colina do Castelo e o que por lá se vai passando, não vêem abaixo. Não há como.
Acabado o passeio de eléctrico, restam-nos ainda várias opções. Problema: temos de atravessar o Marquês. Ou de túnel, ou de obras, mas sempre com trânsito. É escolher. E para o chá na «Versailles», ainda temos muito pó, cimento e arame farpado a ultrapassar, até que o metro passe, ordeiro e certeiro, por ali. O mesmo problema para ir ao «Galeto».
Jantar implica o movimento inverso, e o Marquês novamente. É impossível que o leitor típico da «Wallpaper» não se renda à «Bica do Sapato» e ao «Lux». Ou mesmo ao «Maxime», até altas horas. E espero que sim, porque acordar Domingo numa Lisboa fantasma, ausente viv’alma, tudo encerrado a sete chaves excepto os tais centros comerciais, exaspera qualquer visitante de bom gosto. A estes, é sugerido o rio, o CCB ou o teleférico da antiga Expo….
Outros factos desconhecidos pelo editor do «Wallpaper City Guide»: não temos tido um cêntimo para revitalizar a baixa; os bairros históricos estão em degradação predial profunda, não fosse uma recente mas pontual vaga de inquilinos «trendy»; o trânsito que entra e sai mas vai estando dentro da cidade leva os nativos à loucura; vivem menos de 500 mil pessoas na cidade, «and counting down»; Lisboa está parada, no marasmo da indecisão política e das crises existenciais ou policiais do executivo que, finalmente, se demitiu. E não há pastel de Belém ou «palmier» do «Careca» que adocique a realidade do buraco orçamental de mil milhões de euros.
Depois desta passeata, o melhor a fazer é rumar aos «Meninos do Rio»: mar à vista, carros poucos, não é recomendado pelo «Wallpaper City Guide» mas é «trendy» q.b., e pensar que Lisboa pode ser, realmente, das mais cosmopolitas cidades desta velha Europa. Mas não é.

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
Este artigo foi publicado em Marta Rebelo. Bookmark o permalink.

24 Responses to O papel de parede lisboeta

  1. Pingback: cinco dias » Filipe Moura:Lisboa bem amada que mal me quis, que me quer bem

Os comentários estão fechados.