A semelhança é coincidência.

Com excertos do filme “Os Homens-Toupeira” (2002), remontados por Edgar Pêra.

Ontem, o jornal Público relatava a história de duas famílias que participaram num reality show, o Extreme Makeover: Home Edition (passa também em Portugal no desconexo People & Arts). Nesse concurso- supostamente um espectáculo positivo porque baseado na caridade – os participantes recebem uma casa nova, em troca da exposição das suas vidas. Numa das edições, um casal acolheu na casa oferecida pela produção, cinco irmãos adolescentes órfãos. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger – ele próprio um reality fiction- foi à inauguração da habitação. Passadas algumas semanas, os irmãos saíram da casa, deixando para trás todos os “luxos” oferecidos pelo programa: mansão, carros, dispendiosos sistemas de som e televisão. Queixam-se que o casal “adoptante” tinha uma “campanha orquestrada para os degradar e insultar”, que os chamavam de estúpidos e preguiçosos, que eram racistas. Os órfãos apresentaram também uma queixa contra a ABC. Alegam que o canal obteve de forma fraudulenta os direitos sobre a sua história e que os enganou relativamente aos direitos sobre a casa. Os irmãos vivem agora separados em casa de amigos. A vivenda ficou para o casal. A ABC ficou com meio milhão de euros em receitas publicitárias. Robert J. Thompson garante que “as cadeias de televisão não trabalham para ser filantropas”. E remata: “O preço de uma casa é uma ninharia em comparação com o sucesso que uma série destas tem”. O Correio da Manhã convidou-me para escrever uma série de nove artigos sobre o reality show A Bela & O Mestre. Alguns desses textos foram republicados aqui. O último saiu ontem e o artigo que se segue é uma versão “revista e aumentada”.




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Nos big brothers & Cª há um detalhe revelador. Cada excluído provoca tristeza nos que ficam “na casa” e alegria na claque “lá de fora”. Quem perde torna-se numa celebridade que dá entrevistas e relata a suas proezas. Estes concursos aspiram à “imitação da vida”, com pessoas e acções comuns, mas ficam-se pelo real light, o real sem substância. O mercado dos produtos sem as suas principais propriedades, de que fala Zizek, da cerveja sem álcool ao sexo virtual, tem a sua melhor expressão nos reality shows. A realidade não mora aí. Os espectadores são convidados a excluir alguém de um acontecimento no qual não participam.
Passou-se do culto da personalidade para o culto da imagem. Agora vive-se no culto da pornografia. Começou-se por mitificar os génios e os self made man, depois glorificaram-se as estrelas e hoje festejam-se as celebridades, um número crescente de pessoas anónimas que têm a oportunidade de comunicar com milhões e milhões de pessoas. Os anónimos não representam nem deixam de representar. A indústria cultural ensinou-lhes, desde o berço, a espectacularização da vida quotidiana. E nesta ânsia do comum não se suporta nada de diferente. Quem assiste a um reality show, assiste ao tédio da sua própria vida. Como se só se pudesse desejar o semelhante. Gera-se uma sociedade indivisível. E promíscua. É o culto da pornografia porque estes participantes não são mais nem menos reais do que os “actores” de pornografia. Esta foi apenas pioneira. Nos filmes pornográficos, os participantes também se podem divertir, zangar, gozar ou enojar. Mas sabem bem que é um negócio. And the show must go on.
Nos reality shows pretende-se que nada seja secreto. Nada é escondido, reprimido, proibido, oculto. Quanto mais obscenidade, melhor. Aliás, como se não bastasse a constante celebração da vulgaridade, os concorrentes deste tipo de programas, habitualmente, são convidados a “ir ao confessionário”. A contar à câmara, num suposto momento de intimidade, os seus sentimentos e emoções. A confissão que foi passando da religião para a pedagogia, depois para a psiquiatria e para a literatura, chegou agora aos meios de comunicação. Porém, há uma diferença fundamental. A confissão em segredo não é o mesmo do que uma transmissão pública e publicitária do desejo.
  “O Big Brother assegura a todos uma glória virtual justamente em função da falta de mérito. (…) É a concretização de uma democracia radical, com base na beatificação do homem sem qualidade. Um grande passo rumo ao niilismo democrático” (Baudrillard). Mas esse mesmo Big Brother é o “espelho e o desastre de uma sociedade inteira, atolada na corrida ao insignificante”. Os reality shows são uma metáfora da nossa sociedade. Vivemos constantemente, e cada vez mais, no regime da vídeo-vigilância e vivemos progressivamente mais enclausurados em gaiolas douradas, cujo paradigma são os condomínios fechados com um centro comercial bem central. Porque o exterior (cada vez mais indistinto do interior, num outro sentido) é vivido como ameaçador e perigoso. Os concorrentes dos BigBrothers só caricaturam: sujeitam-se à vigilância e à monitorização contínuas e ao internamento voluntário numa casa.




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Há quem diga até que o século XX só teve um crime pior que Aushwitz: a celebração da banalidade. Nos reality shows não há ficção ou abstracção. É proibido pensar. Espectacular é antónimo de especular. Quem vê considera-se senhor do destino dos concorrentes. Espia a vida alheia “em tempo real”. Acha que tudo vê. Acha que tudo sabe. Sente-se omnipresente e omnisciente. Na sociedade televisivamente modificada, já não há super-heróis. Só pseudo-super-espectadores.
Entre estes concursos e a vida, qualquer semelhança é coincidência. Uma coincidência que se tornou no culto da simulação. Mas o que acontecerá se começarmos por acreditar que o circo é real e depois tomarmos o real por virtual? Há quem pense que isso já aconteceu. Que já extremámos a virtualização. Que observámos as explosões das Torres Gémeas como um cena dejá vu em centenas de filmes e alguns livros, como uma realidade virtual. Que se diluem as fronteiras entre o interno e o externo. E se assim é, o espectador passa a ser, ele próprio, simulado pelos acontecimentos televisivos. Não é o espectador que vê televisão, mas a televisão que o vê. Não nos esqueçamos que a frase é “Big Brother is watching you”.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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4 respostas a A semelhança é coincidência.

  1. ezequiel diz:

    “O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger – ele próprio um reality fiction-…”

    LOL LOL

    Brilhante! Nem digo mais nada. ..é uma confusão, Joana…o circo, o real e o virtual…concordo…os ataques assassinos contra as torres foram uma sintese de todos os três…mas, no fim do dia, a realidade tem uma forma surpreendente de nos lembrar o que é que é importante na merda da vida…é a apenas e somente a minha opinião…sem esquemáticas baudrillardistas…um simplismo atroz….e o culto da dissimulação profunda, de ser enganado constantemente (por mim proprio ou etc)…noop, sorry, dont think so!

    You can fool all people, for some time

    You can fool some people, all the time

    but you can not fool all the people all the time

    Respect for Joana! 🙂

    (ps: mucho birra)

  2. RAF diz:

    Um excelente texto. Parabéns.
    RAF

  3. Julia W diz:

    Só uma pequena nota: Este texto poderia ter sido escrito por um conservador da velha guarda.

  4. Julia W diz:

    Este é o melhor texto da semana passada e ninguém comenta. Que tribo de trogloditas cibernéticos!!!

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