Filipe Moura: A ópera do pobre

O famoso blasfemo  João Miranda escreve todos os sábados no Diário de Notícias desde que João Marcelino assumiu a direcção deste jornal.

No seu último artigo , para elaborar uma das suas teses ultraliberais do costume, escreve: “dado que a ópera é tendencialmente uma actividade que interessa muito mais aos ricos que aos pobres, existe uma grande probabilidade de serem os que têm menos escolhas a financiarem os que têm mais escolhas”.

Eu não sei a que contexto se estará a referir o João. Aceito que a ópera não é um espectáculo fácil, mas será por isso que só é apreciado por ricos? Será que só os ricos têm “bom gosto”? Será que não passa pela cabeça do João que qualquer pessoa pode interessar-se por ópera, mas não ter condições de a frequentar?

Quando vivi em Nova Iorque, frequentava com regularidade a Metropolitan Opera. Havia uns lugares mais em cima, de onde só se distinguia os detalhes dos intérpretes no palco com o auxílio de uns binóculos. Era o chamado “family circle”. Cada bilhete custava cerca de 20 dólares. Na Metropolitan Opera. Havia uma grande procura para estes bilhetes, bem como para todos os outros (para todas as bolsas a partir de 20 dólares). Certamente quem procurava o “family circle” ou os outros lugares mais longe do palco não era rico.

Também havia as lagostas. O João Miranda dirá provavelmente que as lagostas “interessam muito mais aos ricos do que aos pobres”. As lagostas de Long Island são famosas (e já o eram antes de o Cosmo Kramer ser preso por causa delas, num célebre episódio de Seinfeld lá passado). Existe uma cadeia de fast-food de lagosta (“Red Lobster”). Em vilas portuárias dos arredores de Nova Iorque, com nomes como Port Washington ou Port Jefferson, podem comer-se lagostas em pubs. Uma lagosta inteira de uma libra, acompanhada por molho de manteiga, uma sopa do dia, bolachas de água e sal, uma dose de batatas fritas, molho tártaro e “cole slaw”. Tudo isto, mais cerveja e gorjeta, fica por dez dólares num pub de Long Island. Será assim a lagosta “comida de ricos”? Não são nada ricas as pessoas que frequentam estes “pubs”.

Claro que isto só era possível em Nova Iorque. Uma das coisas de que eu mais gosto em Nova Iorque é que quem conheça bem a região e saiba ir ao sítio certo pode encontrar tudo, seja o que for, barato (excepto comida francesa). Antes de lá chegar, nunca tinha provado lagosta. E nunca tinha ido à ópera. Gosto muito das duas coisas mas, de facto, como não sou rico, desde que de lá voltei nunca mais comi lagosta. E nunca mais fui à ópera. No entanto nunca consideraria que a lagosta ou a ópera só interessam aos ricos. Tal consideração seria elitista e provinciana.

O que é então tipicamente “de rico”? Não que eu seja rico, como já disse, mas ser rico não é ter interesse pelas melhores coisas da vida. Qualquer pessoa tem interesse por elas; só os ricos, porém, é que podem apreciar muitas delas com regularidade, sempre que lhes apeteça. Ser-se rico é mais do que só se viajar em classe executiva ou só ficar em hotéis de cinco estrelas ou só fazer compras no El Corte Inglés ou só comer nos restaurantes indicados pelo Duarte Calvão. Ser-se rico é usar o muito dinheiro que se possa ter para se distinguir das demais pessoas, quando não se é melhor do que elas por isso, sendo que se não se tivesse esse dinheiro, não haveria tal distinção. Ser-se rico é pior do que ser-se de direita. Ser-se rico é só se preocupar consigo e com o seu próprio conforto e nunca se preocupar com os outros. Ser-se rico é ter-se uma empregada doméstica ou secretária sem as quais não se sabe fazer absolutamente nada. Ser-se rico é nunca utilizar os transportes públicos e só andar de carro. A tudo isto eu chamaria manifestações de riquismo, novo ou velho. A tudo isto o João Miranda chamaria “liberdade individual”, provavelmente o mais burguês de todos os valores.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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12 respostas a Filipe Moura: A ópera do pobre

  1. No Teatro de São Carlos – http://www.saocarlos.pt/ – o bilhete mais barato é 25 euros, e ainda há descontos de 30% para menores de 30 e maiores de 65, além de descontos de última hora com bilhetes a 15 e 20 euros.

  2. Bela dica a da Leonor

  3. ezequiel diz:

    ou, ser-se rico é saber investir e criar riqueza para que outros possam ir à opera e comer umas lagostazinhas de Long Island… ou, ser-se rico não é cultivar a ociosidade e a apatia e procurar sempre o desafio de criar alguma “coisa” nova…para a próxima, vai até New Hampshire ou Maine…lá as lagostas são mais baratas e mais deliciosas…Não há opera…mas há Town Hall meetings: Um tipo de opera.

  4. ezequiel diz:

    and check for ID!!! eh ehe heh e he he heh eh

    http://www.lobsterfrommaine.com/press_story.php?id=90

  5. Compras no corte inglês? “Rico”?

    Adiante. O problema do João Miranda é falar quase sempre do que não percebe. No caso concreto que, por mais caros que sejam os bilhetes no São Carlos, o difícil de acontecer é o espectáculo não esgotar.

  6. António Figueira diz:

    A história dos pobres subsidiarem a ópera, diversão dos ricos, é um copy paste do Economist, e é uma história que já tem barbas. O problema de João Miranda, que parece que lê o Economist como os UDP’s do meu tempo liam os editoriais do Zeri Populit (não sei se está bem escrito, mas era o orgão do Partido do Trabalho da Albânia), é que deve saber tudo sobre os preços que se praticam em Covent Garden, mas parece desconhecer o que se passa em S. Carlos.

  7. Luís Lavoura diz:

    Francamente, devo ser estúpido, mas não percebi que tese pretende o Filipe Moura defender com este texto.

    Em compensação, percebo perfeitamente a tese que João Miranda pretende defender com o texto dele.

  8. MPR diz:

    É simples a tese. É uma tese que defende ser imbecil dizer que a ópera só interessa aos ricos. O resto são divagações.

  9. antonio diz:

    Caro Filipe, o seu texto procurava argumentar contra os hábitos de pessoas com dinheiro em Portugal com hábitos de pessoas alegadamente sem dinheiro noutros países. A mim parece-me que quis discutir maçãs quando se falava de laranjas. Mas enfim, a lógica era discutível, mas existia.

    Quis frisar bem que o bom gosto (ópera?) não é exclusivo dos ricos. Parece-me óbvio – até para o autor que o Filipe criticava que falou em “tendencialmente” – mas enfim, às vezes é importante frisar bem o óbvio.

    Depois falou das lagostas em Long Island, pegou num produto regional e espetou-lhe o preço regional. Como quem diz, nem só os ricos comem lagostas, aqueles que as apanham ou vivem em locais onde isso se faz podem comê-las a menos de 5USD. O mesmo será dizer que indo a uma qualquer vila costeira portuguesa encontra amêijoas e gambas a menos de 5EUR o kg. É de facto uma boa lógica, mas está a seguir (não querendo) a lei da oferta e da procura para explicar a ópera.
    Sem se lembrar que o problema da ópera em Portugal é ter pouca procura e não o preço da oferta.
    Se não vejamos,
    Os bilhetes para a Shakira ou para os D’zert são no mínimo 30€ cada e mesmo assim os concertos estão à pinha, famílias inteiras. Será este o entretenimento para ricos que dado os preços elevados dos bilhetes afasta os pobres dos espectáculos? Talvez não…
    Mas regojizo-me com o facto de mais uma vez encontrar aqui alguma lógica, tendenciosa, mas existe.

    Descreveu ainda o bilhete das galerias na ópera em NY. Meu caro Filipe, também cá na terrinha há graduação de preços. Cá também há descontos. e o Filipe, se gosta de ópera e se tem dinheiro (mas não é rico) para viver em NY e conhecer tão bem os sítios certos (implica que esteve muitas vezes nos errados, ou então não tem termo de comparação) então talvez tenha duas dúzias de euros para gastar numa ópera que, como disse no seu texto, tanto gosta.

    Depois fala de provincianismo e elitismo, mas lança algumas afirmações de que tenho alguma dificuldade em digerir… talvez por não serem lagosta com molho tártaro e “cole slaw”.

    “Ser-se rico é pior do que ser-se de direita. Ser-se rico é só se preocupar consigo e com o seu próprio conforto e nunca se preocupar com os outros. Ser-se rico é ter-se uma empregada doméstica ou secretária sem as quais não se sabe fazer absolutamente nada. Ser-se rico é nunca utilizar os transportes públicos e só andar de carro.”

    Deus tirou férias e deu-lhe o lugar foi?
    Ser-se rico é não se preocupar com os outros? Agora isto é assim? Toma-lá-o-carimbo-de-má-pessoa-que-tens-mais-de-10000€-no-banco.
    O Filipe é boa pessoa porque não é rico? ou é má pessoa para alguns porque é mais rico que muitos? Então o Bill Gates é a pior pessoa do mundo?
    Tenho mais dificuldade em compreender esta sua lógica, mas não se preocupe, ela continua lá.

    Fiquemos por aqui que o dia está bonito e o sol chama-me para um gin-tónico (bebida de rico) depois do trabalho (coisa de pobre).

    Vou, mas vou contente, por saber que ainda existem pessoas lógicas.

    Um abraço.

  10. rui diz:

    a opera na maioria dos paises de leste também é muito barata.
    em praga pode assistir-se a espetaculos por bem menos de 20 € desde que se saiba onde procurar e não se caia numa das abundantes armadilhas para turistas.

  11. Sérgio diz:

    Não surpreende este aparato discursivo dos novos liberais. Por muito que se refugiem em clichés, não conseguem disfarçar que são os corifeus de uma re-elitização da sociedade na medida em que (é o caso) associam certos tipos de consumo e de comportamentos culturais a quem tem dinheiro (muito dinheiro, a boa sociedade) e uma indigência do «viver habitualmente» a todos os outros. O mais cínico é que usam um argumento sedutor e cândido, ainda que básico e velhinho, de máscara social: para quê obrigar «as famílias» a pagar impostos para financiar hábitos de ricos? O classismo é evidente e foi muito bem desconstruído no texto.

  12. L.Lopes diz:

    O Miranda é obviamente ignorante. Tem mais inclinação para o chuto na bola (o que é de resto respeitável, mas não chega para o discurso sobre cultura). Se frequentasse, mesmo episodicamente, o São Carlos, por exemplo, aperceber-se-ia (talvez…) do ridículo dessa conversa da ópera para os ricos. Venha um dia observar a fila para compra de bilhetes avulsos da nova temporada no dia da abertura da venda e verá a composição social do público. O autor do artigo (N.R.Almeida ou Filipe Moura?) refere os bilhetes baratos para a Metropolitan de N.Y. Outro exemplo interessante: os bilhetes para lugares não sentados (Stehplaetze) da Ópera (Staatsoper) de Viena, que tem espectáculos praticamente todos os dias: são 567 lugares de pé por cada espectáculo, vendidos 80 minutos antes do início da função, com preços que vão de 2€ a 3,5€ (não é engano: de dois euros a três euros e cinquenta; está no sítio web da Wiener Staatsoper). Uma boa parte destes lugares situa-se num espaço atrás da plateia, um pouco mais elevado, por vezes com melhor visão do palco do que os lugares sentados. João Miranda: vá a Viena ouvir ópera, que lhe sai mais barato do que uma entrada para o final da taça. Com os trocos poupados, ainda dá para um Schnitzel e cervejona.

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