Da liberdade de expressão

Um destes dias, no carro, calhou-me ouvir o “Fórum TSF”, dedicado dessa vez, e ainda a propósito do cartaz do PNR, ao aumento (percebido ou real, era a questão) da presença de grupos de extrema-direita em Portugal. Ao segundo ou terceiro telefonema, apareceu um auto-designado “empresário de Odivelas”, que fazia evidentemente parte do problema em análise e desatou a deitar uma série de impropérios racistas da boca para fora. Eu confesso que não o ouvi até ao fim, mas o que ouvi chegou-me para fazer um juízo, porque mesmo que o moderador do programa tenha feito algum comentário no fim, ou tenha chegado a tirar a palavra ao “empresário” em questão, deixou-o em qualquer caso falar demais. Porque carga de água hão-de os meus concidadãos pretos (ou os pretos que não são meus concidadãos, para o caso tanto faz) ter de suportar as considerações insultuosas e moralmente abjectas que aquele tipo ali fazia sobre eles? Seria concebível dar tempo de antena, por exemplo, a alguém que se dedicasse a considerações semelhantes sobre outros grupos sociais de facto, que em vez de serem definidos pela cor da pele fossem pela religião ou pelo sexo, e dissesse que as mulheres eram todas umas isto ou que os judeus eram aquilo? Em nome de quê, da liberdade de expressão? Desde quando é que ela protege o insulto? Não seria antes e apenas um caso de incúria da estação de rádio e do moderador? Quando eu vivia em Inglaterra, e era viciado em BBC4, lembro-me de uma vez, num programa do género, um tipo qualquer ter começado a fazer o discurso dos rivers of blood e não ter demorado mais de meia dúzia de segundos para o moderador, cortês mas implacavelmente, o reduzir ao silêncio. Já que estamos a tornar-nos tão “modernos” como os ingleses, e que agora também temos a nossa quota de skinheads e tudo, convirá aprender a lidar com eles, e a impedi-los de sujar a via pública (frequências radiofónicas incluídas).

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SEXTA | António Figueira
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