Jorge Palinhos: o almoço de Hitler

O doutor Teles e Melo reclinava-se na cadeira de baloiço do alpendre, tendo no rosto um semicírculo de sorriso e no ventre o opíparo almoço dedicadamente confeccionado pela mana Maria e afogado no excelente Quinta do Crasto do cunhado Afonso. Agora, bem recostado e aconchegado pelo calor primaveril, o dr. Teles e Melo estava em paz com a humanidade, embora pela cabeça lhe passassem pensamentos compungidos em relação aos pobrezinhos do mundo, e aos famélicos de África em particular, à mercê de governos comunistas, centralistas e islâmicos.
Contudo, não teve tempo para se delongar nos seus bons pensamentos, que foram desviados pela chegada do seu sobrinho José Melo Cabral, o filho mais velho da mana Maria e do cunhado Afonso e distinto aluno da Faculdade de Direito da Universidade Católica.
– Tio, tio, já sei sobre o que vai ser o meu próximo artigo!
Com algum enternecimento, o dr. Teles e Melo compreendeu que o sobrinho se referia assim tão entusiasmadamente à coluna que escrevia, de forma brilhante, para o jornal do senhor padre Casimiro, o “Manhã Radiosa”.
– Leio, tio, leia, tio! – insistia o Diogo Melo Cabral – Vejo do que estes facínoras são capazes!
O dr. Teles e Melo, a algum custo, soergueu as costas e mirou a notícia do Sunday Telegraph que o sobrinho lhe insistia em mostrar.
Sem os óculos de leitura e socorrendo-se apenas dos cabeçalhos, pareceu ao dr. Teles e Melo que o artigo tratava de vegetarianos ou algo aproximado, mas como achava que o entusiasmo da juventude devia ser incentivado, comentou aprovador:
– Muito bem, muito bem!
– Mas o tio… leu esta parte? Leu? Aqui… onde diz que o Hitler era vegetariano?
O sobrinho apontava para uma parte a meio da notícia que mesmo os olhos mais miudinhos do dr. Teles e Melo já não conseguiam decifrar. Felizmente não teve de fazer o esforço físico de tirar os óculos do bolso da camisa – no estado de intumescência nutritiva em que se encontrava, o dr. Teles e Melo receava que um movimento mais exigente o fizesse estoirar numa papa de soufflée de peixe e carne assada.
– Aqui diz que o Hitler era vegetariano! – pronunciou, quase a tremer, o Diogo Melo e Cabral. – Eu bem que desconfiava! Eu bem que desconfiava!
Assim de repente, o dr. Teles e Melo não estava a ver o interesse que teria que Hitler almoçasse alfaces, mas o sobrinho explicou sem que ele tivesse de exprimir as suas dúvidas.
– O Hitler era vegetariano… Ora, o que é que defendem os vegetarianos? Os bichos, as árvores, a ecologia! Quem é que defende a ecologia? Os comunistas e os socialistas! Logo, vegetarianos, comunistas, socialistas e Hitler é tudo a mesma corja!

Quando ao dr. Teles e Melo lhe pesava o estômago, o cérebro era pouco dado a elevados voos de lógica. Por isso, estava ainda a tentar associar ecologistas e comunistas e já Diogo Melo e Cabral se retirava excitadamente para o interior da casa:
– Vou já começar a escrever um texto a denunciar aquela tropa fandanga de nazis-vegetariano-socialistas. Eles nem vão perceber o que lhes aconteceu!
O dr. Teles e Melo recostou-se, não sem um ligeiro alívio por não lhe exigirem mais esforços físicos e mentais. Mas estava satisfeito. Alguns segundos antes deslizar contente para o recato da merecida sesta, já exausto de tanto esforço deglutinador, não pode deixar de se regozijar: “Nazis, vegetarianos e socialistas é tudo a mesma coisa… Bem visto, sim senhor! Com rapazes perspicazes e corajosos como o querido Diogo, ainda há esperança para o futuro da humanidade.”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Jorge Palinhos: o almoço de Hitler

  1. Sérgio diz:

    Esses pequenos fascistas do politicamente correcto…

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