Medo

Chamemos as coisas pelos nomes: quem não quer fazer um referendo à Constituição europeia é porque tem medo, medo da abstenção e medo do voto de protesto, em suma medo de perder. Ora quem tem medo compra um cão, e quem está em democracia e acredita na sua causa deve ir à luta, por mais difícil que ela seja. Eu não gosto de referendos, por princípio; mas parece-me ridículo fazer votar a regionalização ou a despenalização do aborto, que os deputados podiam e deviam ter resolvido sozinhos, e negar depois ao eleitorado a possibilidade de se pronunciar directamente sobre a Constituição europeia (cumprindo de caminho uma promessa eleitoral). Não se pode querer uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo: a Europa dos cidadãos e a Europa com medo dos seus cidadãos. De resto nem vale a pena: desde 92, pelo menos (com o referendo dinamarquês) que a Europa, bem ou mal, deixou de pertencer aos especialistas e caíu no domínio público. Pensar que agora se pode fazer marcha atrás revela, para além de medo, cegueira.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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