Parodiantes de Lisboa

Tardiamente embora, aqui junto o meu aplauso aos muitos que os “Gato Fedorento” receberam já pelo seu excelente cartaz com o genial slogan “Isto com portugueses não vai lá”. Tal como o Ezequiel (o mais fiel comentador deste blog, o nosso d’Artagnan – porque é o sexto homem dos “Cinco Dias”), aquilo que, enquanto português, eu mais gosto em Portugal (no “carácter português”, se uma tal categoria existe), é a nossa dérision, o facto de nunca nos levarmos demasiado a sério, a facilidade com que nos auto-fustigamos e a nossa visceral incapacidade de nos julgarmos superiores aos outros – e este belo slogan incarna tudo isso. Eu confesso que, em geral, não acho uma piada por aí além aos Gatos (a rábula do Paulo Bento estava óptima, o Prof. Chibanga e a Vila Nova não-sei-de-quê também eram engraçadas, mas não tenho pachorra para vê-los todas as semanas); agora as suas intervenções mais “políticas”, quer a gozar com o “não moderado” do Prof. Marcelo na campanha do aborto, quer agora com o cartaz do PNR, pareceram-me ambas muito boas – porque as causas me pareceram e parecem boas, mas também, e sobretudo, porque eram genuinamente inteligentes e com muita graça. Espero bem que eles não abusem da dose e não cedam à tentação de plantar um cartaz no Marquês todas as semanas, guardando-se, como até agora, para grandes causas cívicas como a despenalização do aborto ou o combate à xenofobia e ao racismo.

Dito isto, eu temo estar a incorrer numa injustiça grave – porque à sua maneira, um pouco mais sournoise, é certo, o cartaz do PNR também era bastante patusco (se eu não temesse ofender as suas credenciais racistas, que suponho impecáveis, diria mesmo que eles se mostram inultrapassáveis no género do humor negro). Com efeito, o cartaz do PNR vai repescar um velho slogan da extrema-direita francesa dos anos 30, “La France aux français“, que transforma agora no seu originalíssimo “Portugal aos portugueses”, e a simples ideia de que possa haver uma internacional do nacionalismo é em si mesma, e pelo seu arrojo conceptual, um prodígio digno de menção. Acresce que o slogan original era supostamente dirigido contra as duas forças “estrangeiras” que ameaçavam então desapossar os franceses da França: o comunismo internacional e a plutocracia judaica – e a ideia de que o poder e a influência de que estavam investidos (cada qual à sua maneira, é claro) os destacamentos do proletariado revolucionário e os esbirros do capital monopolista se incarnam agora nos imigrantes ucranianos, cabo-verdianos e brasileiros que demandam Portugal à procura de emprego também me parece uma bela paródia (que requer, não obstante, estômagos treinados). Eu li há dias não sei aonde o homem dos olhos esbugalhados do cartaz do PNR dizer que queria preservar o “DNA português” e defendia para isso a adopção do jus sanguinis entre nós. Pobre ignorante! Saberá ele que o jus soli é uma tradição que perdura desde a fundação de Portugal (e cuja constância, de resto, nos torna únicos na Europa, a par da Inglaterra) e que o nosso primeiro rei era, em terminologia moderna, um imigrante de segunda geração?

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SEXTA | António Figueira
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