Ferida aberta

Na semana passada, afixei aqui um post chamado Feridas de guerra II que mereceu, no Corta-Fitas, um estimulante comentário de Luís Navas. Para ele e para todos os outros em seguida que se juntaram à discussão, deixo os seguintes esclarecimentos: Quem tenha lido a biografia de Isaiah Berlin por Michael Ignatieff saberá da escassa consideração que Sir Isaiah – que nasceu em Riga no tempo dos Czares, mas para o efeito poderia ter nascido em Tallinn, aliás Reval – nutria pelos povos bálticos. Esse mal escondido desprezo tinha duas explicações principais: a sua condição de judeu (que tinha mais a temer do anti-semitismo “popular” dos autóctones do que das próprias autoridades imperiais russas) e a sua enorme admiração pela cultura russa (de que deu testemunho ao longo de toda a sua vida). Eu confesso que também não sinto um entusiasmo especial pelos etno-nacionalismos do Centro e Leste da Europa, sempre tendencialmente segregacionistas e de que os povos bálticos são os rebentos mais tardios, mas não julgo por isso que, na conhecida frase de Engels – que a Berlin, paradoxalmente, não deveria repugnar muito usar – os estónios ou os letões sejam “povos sem história”, a quem se possa ou deva “enfiar pelas goelas abaixo” consensos à maneira de diktats.

Os povos bálticos, como todos os outros, devem obviamente ser livres de se auto-determinar, pertencer aos agrupamentos de países a que entenderem pertencer e sair daqueles de que entenderem saír; também devem ter, evidentemente, o direito de interpretar o seu passado como quiserem, e de retirar dessa interpretação as conclusões que entenderem; mas os seus direitos, como todos os direitos, não são irrestritos, e comportam responsabilidades. Sejamos claros: o voto não legitima tudo – há princípios que o precedem. No caso dos bálticos, a questão da determinação do próprio corpo eleitoral: o tratamento da minoria russófona, à qual foi retirada a cidadania, e a consequente existência, em pleno século XXI, de um país europeu e membro da UE que nega o jus soli às crianças apátridas que nascem no seu território, parecem-me violações vergonhosas dos direitos do Homem que passam sob um manto de silêncio. Depois, a questão da reabilitação dos criminosos de guerra: tal como a Europa civilizada não toleraria em nenhum outro país que o voto popular levasse de novo ao poder um partido que promovesse ou apoiasse, no presente ou no passado, o racismo como política de Estado (vide o caso Haider na Áustria), também não pode ou não deve admitir que se levantem, mesmo que meio século depois, monumentos à glória dos nazis ou dos seus colaboradores, ou que esses monumentos sejam postos a par, ou vistos como uma espécie de contraponto, dos monumentos ao Exército Vermelho.

Em não-sei-quantos séculos ou milénios de história europeia, os países bálticos têm uma história política independente, ao todo e por atacado, de pouco mais de trinta anos. Talvez seja essa juventude, desses países e das suas classes dirigentes, e a excessiva complacência dos seus protectores internacionais, que seja responsável pelos erros do seu comportamento. A sua desculpa é sempre a mesma: é uma reacção ao comunismo, e é uma reacção ao pacto-germano-soviético de 39. Vamos por partes: o pacto germano-soviético (que, no caso da Polónia, restaurou uma linha de fronteira que não oferece hoje contestação) foi uma tentativa de appeasement da Alemanha nazi (que, como qualquer outra tentativa de apaziguar esse regime criminoso e agressor, não é nunca defensável do ponto de vista das suas virtudes absolutas, mas apenas das suas eventuais vantagens tácticas) e que não pode ser entendida fora do seu contexto histórico: em Munique, em 38, sacrificando a Checoslováquia, a França de Daladier e a Grã-Bretanha de Chamberlain procuraram aplacar o expansionismo nazi; um ano depois, a URSS pagou-se da mesma moeda, tentando furtar-se à agressão alemã e mantê-la tanto quanto possível à distância, através da restauração das fronteiras czaristas no Báltico e do estabelecimento da linha Curzon na fronteira da Bielorrússia e da Ucrânia. As peripécias negociais destes anos terríveis estão desde há muito à disposição de todos, e quem, por eventual preconceito ideológico, não quiser conhecê-las nas obras de Isaac Deutscher, E. H. Carr ou A. J. P. Taylor, pois que leia a sua descrição nas Memórias de Churchill: o que então se passou não impediu a coligação anglo-americano-soviética de se criar e levar de vencida, para sorte da humanidade, os nazi-fascistas – que, convém não esquecer, foram quem começou a II Guerra Mundial e lhe emprestou o carácter genocidário que teve, sobretudo a Leste.

Quanto ao “comunismo”, no duplo sentido que habitualmente se dá à expressão, não me compete a mim fazer o seu balanço histórico: não conheço o “socialismo real” que chegue para falar de cátedra (nem, na verdade, estou extraordinariamente interessado em conhecer, em boa parte porque tenho curiosidades intelectuais maiores, os catorze volumes de E. H. Carr parecem-me, com o devido respeito, largamente inabordáveis e a Rússia enquanto cultura interessa-me muito menos do que, digamos, a França ou a Itália) nem me parece que tenha sentido fazer o processo do marxismo, ou mesmo do marxismo revolucionário (como diz Alasdair Macintyre – mais um que saíu do PC “pela esquerda” e agora é um neo-aristotélico a ensinar numa universidade qualquer americana – responsabilizar Marx pelos crimes de Béria é o mesmo que responsabilizar Cristo pelas perversões dos Bórgias – e ele deve saber do que está a falar porque, tendo sido sucessivamente comunista e católico, há-de saber também que nunca em nome de nenhum outro credo se matou tanta gente na história como em nome do cristianismo…). Tenho no entanto mais do que a suspeita de que os “livros negros do comunismo” e peças semelhantes são bem mais devidas a razões de ordem interna e actual do que a qualquer intenção de repor a verdade histórica à escala mundial: um pouco como pedir aos amigos de Metternich uma avaliação isenta e equilibrada dos prós e contras da Revolução e do Império…

Parte dessa manipulação da história – no caso vertente, desse revisionismo, porque tem por objectivo contestar a leitura até agora aceite da II Guerra Mundial – passa pela tentativa de equiparar o nazismo com o comunismo, os vencidos com uma parte dos vencedores. Não vou dedicar-me aqui a distingui-los – a Estónia não pede tanto; para usar palavras já usadas neste blogue por um dos seus comentadores habituais, quem não consegue distinguir uma ideologia perversa das eventuais perversões de uma ideologia, tanto pior para ele (ou ela): pela minha parte, quero referir-me apenas às consequências de uma tal equiparação e às razões que podem justificá-la. Há evidentemente quem o faça muito melhor que eu: Jürgen Habermas, que dificilmente passará por um compagnon de route ou por um amigo da URSS, denuncia bem a “banalização” que se pretende fazer do III Reich quando se procura colocá-lo ao nível do estalinismo: o genocídio dos untermensch deixaria de constituir o mal absoluto, Auschwitz, as câmaras de gás e os fornos crematórios, não seriam mais o símbolo máximo da desumanidade e o nacional-socialismo passaria a ser apenas um entre outros regimes opressivos – e talvez até menos opressivo que outros, não fora esse pormenor do holocausto.

É aqui que entra Ernst Nolte, que actualiza, no final do século, a teoria de uma “guerra civil” europeia (declarada pelo bolchevismo, claro) que percorreria toda a primeira metade do século XX e de que o fascismo e o nazismo seriam simples reacções defensivas, eventualmente exageradas, aqui e ali, mas no essencial defesas legítimas da ordem contra as “hordas asiáticas” do comunismo e, no caso alemão, a “conspiração judaica” mundial. De novo, há quem muito melhor do que eu possa desfazer esta interpretação simplória da história europeia do século XX como um jogo abstracto de contrários, evidentemente tributária de Carl Schmitt; na semana passada citei aqui Domenico Losurdo e Zeev Sternhell e poderia ter referido muitos mais. Mas o racismo mal-escondido da terminologia de Nolte permite compreender melhor a sua filiação intelectual: no fundo, ele é mais um dos que, ao longo dos séculos, defende a ideia de uma desigualdade essencial do género humano (desigualdade das raças e das classes), um reaccionário militante que deve o essencial da sua respeitabilidade académica à “guerra fria tardia” que se travou na Europa, no campo das ideias, nos anos 80, assim como à camaradagem de outro revisionista notório, François Furet – o qual, atacando igualmente a revolução russa, procura atingir toda a sua genealogia intelectual até à revolução francesa, atacar o “excepcionalismo” político de que o seu país padeceria e consagrar uma espécie de vitória póstuma do “partido da ordem” sobre a sua tradição democrática e radical.

A “ferida de guerra” que a Estónia (e a Letónia) abriu não é local: infecta a Europa inteira. Não é a autodeterminação destes países que está em causa: é uma questão civilizacional mais vasta. Não se trata de impor-lhes um consenso da Europa Ocidental à revelia, trata-se de não conceder nenhum direito de regresso ao nazi-fascismo, de não o relativizar, de não o confundir, de não o considerar legítimo e de não lhe conceder nenhuma espécie de dignidade intelectual. Finalmente, só um apontamento: a ocupação alemã dos Países Bálticos durou de 1941 a 1944 e custou para mais de 300.000 vidas, nomeadamente de judeus: espero que não haja por aqui nenhum lepenista disposto a dizer que isso foi “un détail de l’histoire”. 

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SEXTA | António Figueira
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