Cegueira ou mau perder

Não gostei que a vitória do “Sim” tivesse sido saudada com a frase “Bem-vindos ao Século XXI!” por razões tanto éticas como estéticas: porque o tema não se presta a demasiados triunfalismos e porque as primeiríssimas e indisputadas vencedoras deste referendo devem ser, não entidades abstractas como a pátria ou o progresso (a que aquela frase no fundo se refere), mas as mulheres e raparigas portuguesas que de facto existem, vivas e reais. À parte isso (e porque gostos não se discutem), eu acho que este referendo teve mesmo um significado histórico e civilizacional profundo, que só por cegueira ou mau perder (ou então por ambas as razões) é possível não perceber.

Um desses “desapercebidos” foi Rui Ramos, que até pelos títulos que dá às suas prosas – neste caso, um artigo publicado no “Público” do passado dia 14 intitulado “Bem-vindos ao Século XIX!” – confirma as suas intenções de ser o nosso pequeno Furet (o tal que, como é sabido, arranjou para título da sua opus magna um trocadilho que subverte o nome de uma obra de Freud). Sustenta RR que quem viu na vitória do “Sim” a superação do Portugal antigo – idoso, rural e clerical – pelo Portugal moderno – jovem, urbano e laico – não percebeu a verdadeira mensagem deste referendo, que foi a afirmação, em pé de igualdade, de “dois países” dentro de um Portugal só – um país plural que terá sido fundado, não agora, mas há dois séculos quase, com a revolução liberal. A modernidade não é a secularização do país, diz RR, é a afirmação da coexistência de laicos e confessionais. E fornece provas: o voto alentejano massivo a favor do “Sim” dificilmente poderá representar a vanguarda da modernidade porque é idoso e rural e as votações expressivas nos centros urbanos do Sul em favor do “Não” são o testemunho de que este afinal também representa a modernidade.

Começando pelas provas, devo dizer que, se RR acredita de facto naquilo que escreve, desce uns pontos na minha consideração. Primeiro, porque se o Alentejo é de facto idoso e rural, clerical é coisa que não é desde há pelo menos vários séculos (a não ser nos anúncios do azeite Gallo…) e porque, do ponto de vista do comportamento eleitoral, o proletariado agrícola alentejano sempre se assemelhou muitíssimo mais ao operariado urbano do que aos camponeses de outras zonas rurais – portanto qual é a surpresa? Segundo, porque é óbvio que, em regiões como o Alentejo, o eleitorado de direita, que se confunde tendencialmente com o do “Não”, não sendo obviamente constituído por assalariados rurais, reside sobretudo nos centros urbanos – e isso prova o quê?

O paradoxo maior deste artigo, porém, está em que, à imagem do revisionismo à la Furet, quer fazer uma leitura da história próxima que leve água ao moinho da direita política, mas enquanto Furet atacava uma suposta ortodoxia intelectual que teria sido imposta pela tradição jacobina e marxista, RR, no caso português, debate-se contra uma ortodoxia de sinal contrário – que ele próprio, aliás, tem dado o seu contributo para estabelecer.

Com efeito, desde há quase quarenta anos, com a publicação dessa obra fundadora que foi “O poder e o povo”, que o mito de uma I República “democrática” tem vindo a perder crédito e que a leitura simplificada da nossa história que a reconduzia a uma progressão linear do liberalismo monárquico para a república democrática e desta para uma democracia “avançada” e “social”, interrompida apenas pelo episódio da reacção salazarista, perdeu (se alguma vez chegou verdadeiramente a possuí-la) a dignidade de uma verdadeira ortodoxia. Ao invés, aquilo que a mais recente e considerada historiografia do período liberal e republicano da nossa história tem salientado é o carácter fundamentalmente anti-democrático das diferente expressões do progressismo urbano, sempre cercadas pela grande massa da população que se manteria fiel às formas tradicionais de dominação política e social.

Ora que o país é “plural” do ponto de vista das classes que o compõem como das forças políticas que as representam ou da ideologia que segregam, ninguém tem evidentemente qualquer espécie de dúvidas; a questão é que esta “pluralidade” social tem tido expressões políticas, ideológicas e “culturais”, em sentido lato, diferenciadas ao longo do tempo – e na permanente guerra de posições pelo estabelecimento de uma hegemonia nesses campos, o referendo de 11 de Fevereiro foi uma batalha de enormes consequências. A grande novidade do seu resultado está em que demonstra cabalmente, e a propósito de uma questão de valores fundamental, que a “maioria silenciosa” que teria sofrido ao longo de toda a história portuguesa contemporânea os desmandos das hostes progressistas deixou de vez de ser maioria – e por muitos votos.

Não vale a pena sofismar: estamos perante uma viragem histórica. Foi RR e outros como ele que disseram que o progressismo político, nas suas diferentes matizes, sempre governou pela violência porque contava com a oposição, activa às vezes, passiva quase sempre, da maioria da população portuguesa; agora, chegado ao século XXI político, cumpre-lhes apenas ter inteligência e coragem suficientes para reconhecer que, num dos mais difíceis e perigosos terrenos (o das prerrogativas políticas do catolicismo), esses mesmos progressistas ganharam a batalha pelos hearts and minds dos portugueses e que se hoje alguma violência resta é apenas a daqueles que queriam impor nas leis da República secular as concepções morais de uma particular confissão religiosa. Porque a modernidade é mais do que o facto do pluralismo: é a afirmação da liberdade, que é a norma fundamental do pluralismo.

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SEXTA | António Figueira
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