Muita parra e pouca uva

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O facto da Coreia do Norte anuir em fechar o seu principal reactor nuclear dentro de 60 dias em troca de fornecimentos de petróleo e energia eléctrica, concordando também em pôr fim ao seu programa militar atómico são, obviamente, boas notícias. Mas nem tudo está resolvido. Trata-se apenas do prefácio. Recebeu muito e ainda tem a bomba. O triste destino de acordos anteriores com este regime feudal requer as maiores cautelas. Esperemos, contudo, que este seja, realmente, o início do caminho para o desarmamento. Se tudo correr bem a estrada será longa e o mundo estará mais seguro. Se Kim Jong Il voltar à carga, o desengano não tardará.Contudo, o sempre brilhante John Bolton afirmou que a negociação correu mal porque passa a mensagem de que “portar mal compensa”. E afirmou que o “acordo contradiz as premissas fundamentais que a política do presidente nos passados seis anos”. É pena que, como evidencia o editorial do The Guardian de hoje, que Bolton não se recorde que o acordo alcançado ontem nos leva apenas a 1994, quando Clinton negociou com a Coreia do Norte. Acordo rejeitado, em 2002, por Bush. Se a mensagem “para sairmos do eixo do mal basta andar para aí a testar armamento nuclear” é má, o que dizer da mensagem que passa a administração Bush?As lições que Washington deve tirar da negociação com a Coreia do Norte são mais que muitas. As conversações, a diplomacia e a pressão internacional dão resultados. A guerra não é necessária para desarmar (que raio de frase!). Quanto a Bolton que persiste na sua velha máxima “i don’t do carrots”, tem razão quando diz que Bush mudou de rumo. Mas foi, justamente, esta rota do multilateralismo que deu algum resultado. Se a Coreia do Norte falhar, falhará também com a China, a Coreia do Sul, a Rússia e o Japão. As sanções serão, então, bastante mais simples de executar. O caso do Irão beneficiaria desta aprendizagem. Uma ideia que quer o editorial do NY Times de hoje, quer o do Le Monde, desenvolvem. Este último pergunta se será necessário que Teerão faça testes nucleares para que comece uma grande negociação. Exacto. Mas como o Irão não cumpre a segunda premissa para a negociação (não ter petróleo), talvez nem isso resultasse. Esperemos que as conversações com o Irão não confirmem que para a diplomacia de Bush chegar a bom porto é preciso muito show off e pouco petróleo. Que é como quem diz, muita parra e pouca uva.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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