Assim Sim

Foi muito bom que o “Sim” tivesse ganho o referendo com uma votação significativamente superior à de oito anos atrás e com uma margem de quase 20% sobre o “Não”. Primeiro, pelas mulheres e raparigas portuguesas; em segundo lugar, pelo país – que ficou mais secular, mais tolerante, mais europeu. Domingo à noite, fui espreitar malignamente o “blogue do não”: uma tal de Mafalda ainda equiparava o 11 de Fevereiro com o 11 de Setembro em NYC e o 11 de Março em Madrid; decididamente, o bispo de Bragança criou discípulos: há-de passar-lhes. Menos truculento que o bispo de Bragança mas tanto ou mais derrotado do que ele foi o inefável Prof. Marcelo, que protagonizou em toda esta questão do aborto um dos mais lamentáveis episódios da sua carreira política. Ultimamente, com a sua estratégia estapafúrdia de vitimização do “Não”, que deixava de ser a defesa de uma lei intolerante e persecutória para passar a constituir uma gesta heróica da sociedade civil contra o establishment político, que a sua estreia nos new media se encarregaria de promover (e que a muito pertinente resposta dada em forma de video pelo “Gato Fedorento”, registe-se, ajudou a frustrar). Depois, com a embrulhada que também arranjou em torno da pergunta do referendo – uma esperteza em que o actual Presidente do PSD alinhou igualmente e que o revelou ao país com uma espessura ética comparável à de um dirigente de um clube de futebol (o Dr. Dias da Cunha que me perdoe). Terceiro, e pior de tudo, com a própria autoria moral de um referendo que concebeu em função de um pequeno cálculo político e que, se entendesse o mundo à sua volta, haveria de perceber que, mais cedo ou mais tarde, sempre perderia, deixando à vista de todos que a Igreja Católica, em que supostamente se reconhecem 90% dos portugueses, não comanda, numa matéria de tão grande importância para ela, o comportamento político de mais do que uma minoria dentre eles. Os números relativos ao eleitorado jovem e urbano, esses então, são concludentes e arrasadores; e se quiser analisar agora o insucesso da sua análise, a Igreja não deverá recorrer outra vez ao analista que a meteu nestes trabalhos em primeiro lugar: pelo contrário, se alguma lição tem a tirar deste processo infeliz, é a de que se deve distanciar de vez do catolicismo político.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 Responses to Assim Sim

Os comentários estão fechados.