Tiro ao lado

O Ivan Nunes chamou aqui a atenção para mais uma história anglo-inglesa que vale a pena seguir, porque pode ser de proveito universal. Em resumo, passa-se que no próximo mês de Abril vai entrar em vigor no Reino Unido uma nova legislação anti-discriminação, à luz da qual os casais gay não poderão ser discriminados em matéria de adopção. A Igreja Católica pretende que as agências de adopção por si controladas sejam dispensadas desta obrigação de não-discriminar, e ameaça que caso o não sejam deverão fechar as suas portas. O assunto dividiu o Governo e teve uma larga repercussão nos jornais e no fim coube a Blair decidir, salomonicamente, que a pretendida dispensa não será concedida, mas que as agências de adopção disporão de um prazo alargado para se adaptarem à nova legislação. O “Economist”, citado pelo Ivan, e que nunca perde uma ocasião para se mostrar “social-progressista” (e para tentar provar que o capitalismo free wheeling que tanto aprecia convive bem com todas as causas deste tipo, sejam elas o gay pride ou a legalização da cannabis), tinha entretanto defendido que o Governo deveria tomar uma decisão intransigente como aquela que, na realidade, acabou por adoptar, saudando nela uma vitória da igualdade sobre a liberdade. Ora se não deixa de ser curioso ouvir o “Economist” louvar os méritos da igualdade, a verdade é que, talvez pela falta de hábito, essa invocação parece ser aqui totalmente despropositada. De facto, creio que o “Economist” misses the point – ou seja, dá um tiro ao lado, porque o que está aqui realmente em causa é o princípio da objecção de consciência – e julgo ser uma violência absurda sobre os católicos forçá-los a aceitar as implicações (neste caso em matéria de adopção) de um lifestyle relativamente ao qual têm objecções morais de fundo. Eu coloco entre parêntesis o problema da adopção por casais gay, que não está aqui em questão; mas estando essa possibilidade consagrada na lei, como é o caso no Reino Unido, parece-me apenas razoável que as agências de adopção dependentes pela Igreja Católica não sejam obrigadas a usá-la. Mutatis mutandis, eu acho muito bem que a IVG seja despenalizada até às 10 semanas e preparo-me para votar “sim” no próximo referendo, mas parecer-me-ia uma violência estúpida e aberrante não reconhecer aos médicos que em sua consciência entendam que não devem praticar interrupções da gravidez o direito de se recusarem a fazê-las.

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SEXTA | António Figueira
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