O fiasco do milénio

Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, estridente, no soalho.

Olho para os rodapés da minha casa. Que dificuldade haveria em instalar-lhes umas dobradiças oscilantes para, no momento certo, deixarem passar os ratóides? Eu chegaria a casa esvaziando os bolsos, deixando cair moedas, papéis diversos, poeiras submilimétricas, parafusos encontrados na rua. Os ratóides levam tudo para dentro, separam o lixo do resto, sabem que facturas se declaram aos impostos, arquivam-nas no lugar certo, colocam o material indeciso num tabuleirinho, para minha consideração, que guardam depois inobservado. Transcrevem os números de telefone anotados em bilhetes de cinema. Deixam as chaves no prego da porta. Aquelas paredes têm espaço que chegue para um exército de ratóides e mais ainda: eles podem trazer-me de lá dentro o que eu quiser. Chinelos. Jornal. Preservativos. Corta-unhas.

Meus amigos, eu li as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Li até o livro se desfazer. Li até me mandarem apagar a luz. Várias vezes. E li “Virão Chuvas Suaves”, o melhor conto do livro, vezes incontáveis, em leitura mental, ou em voz alta, ou imaginando uma versão cinematográfica, ou gravando um programa de rádio caseiro. E, tudo contado, sei perfeitamente que em 2006 já deveria haver ratóides que me limpassem a casa. E já nem sequer teimo que tudo isto se passaria em Marte, depois de um cataclismo nuclear, terrível mas necessário, que levara todos os gajos chatos do liceu, mas também algumas das miúdas bonitinhas e doces, memoráveis ao meu coração sofrido.

No fundamental, quero dizer que o milénio é a grande desilusão da minha vida. Fui dolorosamente envergonhado: o milénio é a fraude do milénio.

Consideremos o dia em que fui para o hospital com uma apendicite. O augustus imperator do Ocidente era um homem chamado Bush. O primeiro-ministro de Portugal chamava-se Cavaco Silva, professor de educação física — ou moral e religiosa, ou trabalhos oficinais — se a memória não erra. O ditador da Líbia chamava-se Muhammar Kadhafi, ou Gadhdhaffyi (há mais de trinta alternativas). A questão era saber se Bush devia bombardear Kadhafi, e que cara, no seu registo fisionómico limitado, deveria Cavaco fazer quando apoiasse o ataque. Passaram os anos. Bush foi substituído por um filho que é uma cabal refutação à teoria de Darwin. Ninguém sabe o que foi feito de Cavaco Silva. Kadhafi continuou a sua carreira a solo, mas perdeu credibilidade como vilão, e já foi substituído por dois ou três gajos diferentes — o último ainda à experiência.

Tenho, como troféu de batalha, a cicatriz destes anos. Está numa posição rara em apendicites, dois ou três centímetros acima do lugar normal. Quando acordei da anestesia, pedi que me trouxessem livros de ficção científica: Stanisław Lem, Karel Čapek, Ray Bradbury, Robert Heinlein, os irmãos Strugatski, Harry Harrison, John Wyndham. E um ou outro policial para desenjoar. Os pais, os irmãos e os primos corresponderam. Um professor do Técnico, que tinha sido operado à vesícula, emprestou-me um dos seus Isaac Asimov. Nas camas em frente à minha, um comunista e um saudosista da ditadura discutiam política sem conseguirem ver-se, intercalados por um homem em coma, ou talvez já morto, que supúnhamos encontrar-se por detrás daquela cortina de plástico verde-claro. No canto oposto um militar da Guarda Nacional Republicana, em severa privação alcoólica, atirava as pantufas contra a janela, tentando atingir gatos invisíveis para a restante enfermaria. Um açoriano mostrava com orgulho a sua cicatriz, grossa como uma corda, que ia da traqueia até à bexiga: “foi revisão geral”, dizia.

Eu ia lendo os meus livros, que narravam acontecimentos que viriam a passar-se no futuro, especialmente em torno do ano 2000. À beira do fim, de Harry Harrison [no original, Make Room! Make Room!]: 9 de Agosto de 1999, vivem trinta e cinco milhões de pessoas em Nova Iorque, sem água potável, sem comida e sem papel. Para comunicar, usam tésseras de ardósia distribuídas por um exército de crianças de rua. Regresso das Estrelas, de Stanisław Lem [no original Powrót z gwiazd]: as bibliotecas são colecções de cristais que se copiam de graça e inserem num visor de plástico. A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [no original The Door into Summer]: as pessoas guardam o seu pé-de-meia no banco, congelam-se, e acordam no ano 2000 milionárias, mas potenciais vítimas ingénuas de esquemas preparados pela população acordada, que trata os ressuscitados mais ou menos como nós tratamos os imigrantes. No que diz respeito ao trabalho doméstico — oh, meus amigos — não se preocupem: o Flexible Frank rega o jardim, muda as fraldas do miúdo e prepara cocktails [em português: cacharoletes] com vermute.

É certo que Heinlein escreveu em 1957, Lem em 1961 e Harrison em 1966. O milénio ainda vinha lá longe. Na altura em que eu recuperava da apendicite o tempo já começava a ser apertado. Tínhamos cerca de uma década. Não daria para colonizar Alfa-Centauro mas, que diabo, não se admitia chegar ao ano 2000 sem um robot doméstico.

Nada me preparou, porém, para o que se passou recentemente. Vi uma antologia de Ray Bradbury na livraria, e trouxe-a para casa, mais por nostalgia do que por empenho. Recolhi a minha colecção de Lem quando o autor morreu, em Março passado, para lhe prestar o melhor tributo que um leitor pode prestar. Reli A Porta para o Verão, de Heilein, talvez pela décima vez mas a primeira desde a adolescência, em menos de duas tardes.

E a evidência fulgurante impõe-se: estes livros estão escritos no passado.

Já não posso ler estes livros e projectar-me satisfatoriamente no futuro porque as datas estão lá, aquelas datas, e atrapalham-me. Como ler futurologia passada em 1999? Lembro-me perfeitamente de 1999: não foi assim tão mau. E também não foram assim tão bons dois mil e um, dois mil e dois e por aí adiante.

Tudo bem: tenho a internet, que me faz perder tempo em vez de escrever. Mas quando escrevo, ainda tenho de me sentar a uma cadeira, ainda tenho de premir teclas com dedos. As articulações queixam-se, os músculos exigem levantar-se, preciso de urinar. E onde está o eléctrodo implantado na nuca, mais o transmissor sem fios, que registasse directamente os meus pensamentos? Se precisar de rever o texto, onde está o monitor na lente dos óculos, controlado pelo mover brando da retina?

Lembro-me de ter seis anos e fazer contas para saber que idade teria no ano 2000. Não posso aceitar esta desfeita. Quero saber onde está o estéreo-tanque, televisor tridimensional que me permite contornar o apresentador do telejornal e vigiar a progressão da sua calvície. Onde está a noiva mecânica? Onde está o organizador de matéria e o teletransportador? Onde estão as cidades rotativas, itinerantes e suspensas? Onde estão as cúpulas de controle meteorológico? Onde está calster, a impressora portátil de dinheiro? Onde está o levitador magnético ou o seu rival, o elevador de repulsão gravítica? Onde está a electricidade sem fios?

Estamos prontos.
http://ruitavares.weblog.com.pt

[com um agradecimento especial a João Macdonald pela tradução portuguesa de cocktail.]

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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3 respostas a O fiasco do milénio

  1. Ratóides?
    http://www.irobot.com/sp.cfm?pageid=122

    Quanto ao futuro? Está sempre ali, á porta. 🙂

    Há autores de FC mais recentes, outros que conseguem ser mais intemporais, e até aqueles que conseguem fazer FC a partir de um passado.
    Um Brunner, um Doctorow, um Neal Stephenson, um Ian M. Banks. Até em Portugal temos autores de FC muito bons.

    Mas a FC já não é para escapistas.

  2. blue diz:

    grandes perguntas!
    quem não fantasiava que na entrada deste milénio estaria num novo mundo?
    um texto delicioso.

  3. woodie diz:

    E onde está a semana de trabalho de sete horas?

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