Zé do Telhado

Autor: Carlos Trincão

Não faltarão, nestes dias que hão-de vir, as mais esfarrapadas análises e justificações para ajudar ao entendimento das razões que terão levado os portugueses a definirem aqueles dez como os “finalistas” do concurso de maior português.

Aliás, o disparate já começou! Há coisa de uma semana, no Diário de Notícias, encontrei duas pérolas: uma, de Octávio Ribeiro do Correio da Manhã, em que se arenga que Mário Soares não consta da lista como resultado da sua derrotada candidatura à Presidência da República; outra, de Villaverde Cabral, garantindo que Álvaro Cunhal ali está por obra e graça da sua biografia não autorizada, da autoria de Pacheco Pereira.

E andaremos nisto, a encher páginas de jornal e ocupar tempo de antena, enquanto passa despercebida a inflação de 2006 que, dos 2,3 previstos pelo Governo, atingiu os 3,1 bem contados…

Eu, que também sou português e percebo tanto disto quanto aqueles que acham que percebem e botam discurso em assunto de tal magnitude, diria que o resultado deve-se apenas ao simples facto de se ter verificado uma votação ao sabor dos interesses mais que personalizados e acretiriosos de cada um dos votantes.

Aliás, só assim se percebe, por exemplo, que eu tenha votado no Zé do Telhado. Poderia, inclusivamente, ter votado em mim, não é? A bem ver, valho – a meu ver, está claro – um pouquito mais que, pelo menos, dois dos 100: um, aquele jovem dos Morangos com Açúcar (uma série, de resto, que nem acho má de todo); o outro, aquele outro jovem gato fedorento, humorista de sucesso com direito a Grande Entrevista e criatividade suficiente para fazer um sketch sobre o enforcamento de Saddam…

Ah!, como o Humor serve para justificar o injustificável. Ao menos não há Censura, valha-nos isso, mas devia haver Sensibilidade e Bom Senso. Mas isto é só a minha opinião, que não conta nada ao pé da dele.

E pronto. É o que dá querer fazer de um programa de entretenimento televisivo ao ritmo de “reality show” ou dos telefonemas para as televisões tipo concorda com…, se sim marque x, se não marque y, é o que dá, dizia, querer fazer de um programa destes uma espécie de certificação nacional do fulano A ou B.

Quantos votaram? Dez, façamos de conta; e lá surgiram outros tantos critérios. Assim não há quem se entenda.

Entretanto, ainda ontem, no mesmo DN, alguém se revoltava por o século XX português estar representado com as duas extremidades da intolerância, segundo o articulista: Salazar e Cunhal.

É que o pessoal, ainda por cima, alinha nisto como se de uma coisa científica se tratasse…

Por mim, continuo a votar no Zé do Telhado. É mesmo o que, neste caso, a TV de serviço público merece.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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Uma resposta a Zé do Telhado

  1. Ezequiel diz:

    Eu voto no primeiro neandartal ibérico, pronto!

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