O ser e o dever ser

Eu julgava que tinha dito uma coisa óbvia: que, ao contrário do que pretendia um (grande) articulista, o progresso da técnica não tornou o aborto num problema do passado, porque enquanto o homem for homem e a mulher for mulher há-de haver sempre gravidezes indesejadas: porque a carne é fraca – não sabiam? Ora esta aparente evidência suscitou dois tipos de comentários:

– uns parecidos com este, que diz que eu disse que o aborto deve ser legal porque se vai para a cama com os copos, e que em geral exibem um grau de sofisticação intelectual próxima da do senhor Bispo de Bragança e Miranda, que torna inútil qualquer polémica;

– outros que são exemplificados por um senhor que me escreveu e me lembrou que, certo, a carne é fraca, mas as relações sexuais são umas coisas muito sérias, que implicam muita responsabilidade, e não devem ser misturadas com o álcool, e que quem bebe deve medir bem as consequências do que faz, etc., etc..

A este senhor eu devo explicar que não defendi a existência de relações sexuais “c’os copos” (por assim dizer); limitei-me a reconhecer a sua existência; tentei dizer como é que as coisas eram, não como é que as coisas deviam ser, num mundo perfeito (e provavelmente muito chato). Ao contrário deste senhor e doutros, eu pertenço à lamentável maioria das pessoas imperfeitas, que sabem que fumar faz mal mas fumam, que o colesterol é lixado mas abusam, que o exercício é porreiro mas não têm pachorra, que às vezes bebem um copo a mais, que às vezes mentem, que às vezes erram, que às vezes falham. Eu sou pecador e desconfio dos que se acham uns santos porque acho que a santidade deles é intolerante e sobretudo impiedosa (só espero sinceramente que nunca lhes apareça uma surpresa em casa). A estas “preclaríssimas torres de santidade”, como escrevia o Eça, eu dou uma sugestão só: portem-se todas muito bem e deixem o resto da humanidade em paz – com os nossos dramas de pessoas reais.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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