História III

Ainda na sua entrevista, e a propósito dos seus trabalhos sobre a Shoah, Arno Mayer insiste no facto de os primeiros massacres de judeus, ocorridos logo após o desencadeamento da operação « Barbarossa », terem obedecido ao modelo dos pogroms do passado e sido perpetrados por lituanos e ucranianos, por exemplo, não existindo provas de que tenham resultado de um anti-semitismo de tipo novo ou de que os seus autores tenham sido influenciados pela ideologia racista do nacional-socialismo alemão. A ideia de que, na nossa esfera cultural (na Europa cristã, se quiserem), e à distância de apenas uma ou duas gerações, gente comum se tenha dedicado a massacrar ou a ver massacrar, a tiro ou até pelo fogo, os seus vizinhos, é profundamente perturbadora, e lembra-me talvez o pior que eu já vi sobre os linchamentos de negros nos E.U.A.: a propósito da Strange Fruit, da Billie Holiday, a Cláudia Silva, do Blue Molleskin, enviou-nos um link para uma colecção de postais alusivos – e, ouso dizê-lo, comemorativos – de linchamentos, que chocam sobretudo pelo carácter trivial e dir-se-ia que festivo do acontecimento: há crianças a comer gelados à volta de corpos enforcados e carbonizados, e gente que achou aquilo tudo tão engraçado que correu a fazer lembranças para que outros apreciadores pudessem também aproveitar. Tudo isso se passou alegre e impunemente até bem dentro do século XX no Sul dos E.U.A., mas eu não conheço um único filme de Hollywood sobre a matéria, nem muita literatura, de resto. (Será muito demagógico dizer que os descendentes desses linchadores são hoje na sua maior parte respeitáveis membros da Moral Majority, favoráveis à guerra do Iraque e defensores dos direitos dos unborn? Se calhar é).

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a História III

  1. Ezequiel diz:

    Tens toda a razão até ao “…nem muita literatura, de resto.”

    O resto é demagógico, muito demagógico, sem dúvida…é mauzinho! 🙁

  2. Sérgio diz:

    Vá-se lá saber…

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