O sexo dos anjos

 No primeiro dos seus cinco textos sobre a IVG, o cardeal-patriarca de Lisboa meteu os pés pelas mãos. A Fernanda Câncio, no DN, publicou um importante artigo sobre a dita prosa e eu, na passada segunda-feira, escrevi, no mesmo jornal, uma carta a José Policarpo que, mais do que provavelmente, ficará sem resposta. Como a Fernanda Câncio já aqui notou, a seguir ao primeiro texto de José Policarpo, o que se seguiu por parte do Não foi o silêncio. Concordo com a Fernanda quando afirma que o motivo deste mutismo é o facto do texto de José Policarpo ter “causado grande consternação nas hostes do não”, revelando a divisão na Igreja Católica.

O primeiro texto era…”avançado”, manifestando dúvidas e grande consternação com o aborto clandestino. O segundo tardou a chegar. Mas chegou e representa uma posição bem mais ortodoxa do que o primeiro. Talvez para emendar a mão. Nele José Policarpo baseia toda a sua argumentação na premissa de que existe vida humana desde o início. Uma certeza que é apenas religiosa, obviamente. E embora José Policarpo afirme logo ao princípio deste seu segundo texto que: “O facto de a Igreja Católica ser contra o aborto voluntário, em todas as circunstâncias, e devido à influência da doutrina da Igreja na definição dos parâmetros de moralidade, leva a opinião pública a considerar que esta disputa entre o “sim” e o “não” é um confronto entre a Igreja Católica e o resto da sociedade. A esta perspectiva dicotómica não escapam mesmo alguns defensores do “não”. Ora não me parece que esta seja a maneira mais correcta de situar o problema. “. Porém, entretanto, José Policarpo invoca o decálogo da Lei de Moisés, a Teologia e o Magistério. “

Ok. Para José Policarpo a vida humana existe desde a concepção. Mas terá que convir que essa discussão, se é pacífica para a Igreja Católica- será?- não é para muitas outras pessoas e sob muitos outros pontos de vista: médico, jurídico, filosófico, biológico. Nenhum deles oferece uma resposta fácil, estilo “basta juntar água”. E poucos podem com leveza e sem arrogância apontar o dedo e dizer: “aqui começa a vida humana”.É assunto demasiado complexo para ser respondido com essa ligeireza. Não sabemos quando começa a vida humana. E temos que viver com essa incerteza.

Contudo, o cardeal-patriarca não fica pelas posições da religião que professa e declara que do ponto de vista científico esta matéria é igualmente serena: “Mas a palavra esclarecedora sobre esta questão é-nos dada pela ciência. A partir do embrião, toda a especificidade de cada ser humano está definida. É possível identificar, desde logo, o código genético e as etapas do crescimento estão caracterizadas. É uma vida humana, desde o início. “ Aqui espanta-me a facilidade com que José Policarpo confunde código genético com vida humana. Se a vida humana se define apenas pela existência de um código genético humano, realmente, as posições mais extremistas e perigosas ficam reforçadas. E as mais desvairadas também. Desde logo, a igreja teria que se opor às técnicas de reprodução medicamente assistida- tal como se opõe à investigação em células estaminais embrionárias, mesmo que essas investigações possam salvar muitas vidas- negando o direito de ter filhos aos casais inférteis. O que, convenhamos, para quem é “contra o aborto em qualquer circunstância”, é uma péssima ideia. E o cardeal já se esqueceu das palavras que dedicou ao aborto de vão de escada: drama. Um drama onde também se perdem muitas vidas reais – as das mulheres que efectivamente morrem- e potenciais – das mulheres que ficam inférteis.

Enfim….realmente, esta não é a questão que vai ser referendada, embora pareça inevitável discuti-la. E analisar, por exemplo, o começo da vida humana do ponto de vista da consciência, que muitos consideram só dar início depois do terceiro trimestre, já que apenas aí o cérebro começa a funcionar. Mas voltamos ao mesmo. Determinar onde começa a vida é discutir o sexo dos anjos. Não há consenso nem deverá haver – espero – sobranceria. Todavia, já que o cardeal-patriarca mostra tantas certezas científicas, tenho que colocar mais algumas questões:
            – Acredita que uma mulher grávida de um violador deve ser obrigada a ter esse filho? Essa criança não será humana como as outras?

– Uma adolescente grávida, vítima de incesto, também deve ser obrigada a ter a criança?

– Uma mulher com uma gravidez desejada, mas que descobre que a continuação da gestação pode perigar a sua vida – mesmo salvando a do feto – deverá ser obrigada a continuar a gravidez?

– A mulher grávida de um feto com uma deficiência grave deve também ser obrigada a levar a gravidez até ao fim? Esse feto- por exemplo trissomia 21- não tem o código genético igualzinho, pois não? Mesmo assim é humano ou não? A mulher pode ou não abortar, na sua opinião? Uma pessoa adulta com mongolismo é humana, não é?

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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