Medo, incerteza e dúvidas

[do Público de 13 de janeiro 2007]

Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O Medo, Incerteza e Dúvida é uma arma poderosa na luta pela opinião pública. Por isso os defensores do “Não” no referendo de 11 de Fevereiro sobre a descriminalização do aborto não parecem muito preocupados com as sondagens que dão grande vantagem ao “Sim” nas intenções de voto. Em primeiro lugar, porque já no primeiro referendo sobre o assunto, em 1998, o quadro era semelhante e o “Não” conseguiu uma vitória surpreendente, embora curta e pouco participada. Mas principalmente porque o “Não” tem a sua campanha construída em torno do medo, das incertezas e das dúvidas, e conta com essa campanha para desmobilizar o campo do “Sim” e repetir 1998. Não é ilegítimo, embora possa ser reprovável; é certamente muito eficaz e já está a dar efeitos.
Considere-se o cartaz do “Não” onde se lê: “Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto?”. Eis um exemplo básico da utilização do FUD, que consiste em pôr as pessoas a discutir uma incerteza para as desmobilizar da questão que vai efectivamente a referendo, que é saber se o aborto até às dez semanas deve deixar de ser crime. O cartaz destina-se a suscitar dúvidas às muitas pessoas que acham que o aborto até às dez semanas deveria deixar de ser crime (que é aquilo que vai a referendo) e confundi-las com uma questão de gestão dos dinheiros públicos que pertence a um debate mais geral. A formulação é intencionalmente vaga para dar a ideia de que o dinheiro (público) dos “meus” impostos poderia servir para financiar clínicas (privadas), desmobilizando também quem ache que o dinheiro público deve ir apenas para o Sistema Nacional de Saúde.
Mais uma vez, não é nada disto que está em causa. Cada governo terá certamente a sua opinião sobre como devem ser utilizados os dinheiros dos impostos, e cada parlamento sucessivo legislará em conformidade, na área da saúde pública como na da economia ou das artes. Mas é certamente muito útil para o campo do “Não” que as pessoas se ponham a discutir incertezas em vez de certezas, porque essa é sempre a maneira mais eficiente de evitar que qualquer coisa mude. Basta perguntar a quem se quiser mudar se a casa nova não tem goteiras (ainda que a casa velha as tenha em maior quantidade): atiram-se as dúvidas para um futuro que ainda não existe e escondem-se os defeitos do presente que existe.
Para contrariar o espírito e responder à letra bastaria ao campo do “Sim” fazer algumas perguntas simples. A diferença está em que nenhuma delas remete para possibilidades vagas num futuro incerto, mas todas dizem respeito à realidade e à lei que hoje em dia temos. São elas:
“Contribuir com os meus impostos para financiar a perseguição de mulheres que abortaram?” — afinal de contas, de quem são os impostos que pagam as investigações policiais, as escutas telefónicas, os interrogatórios? Terá esse dinheiro caído do céu? Em Aveiro, mulheres que tinham acabado de abortar foram detidas na rua e obrigadas a fazer um exame ginecológico sob alçada da polícia. Quem pagou esse acto de violência e humilhação? Os “meus” impostos. Os “seus” impostos. Os “meus” impostos pagaram àqueles agentes que teriam certamente melhores coisas para fazer. Os “meus” impostos pagaram a papelada. Os “meus” impostos pagaram aos inspectores, aos procuradores e aos funcionários.
Mas há mais perguntas para entreter os nossos amigos do “Não”: “Contribuir com os meus impostos para financiar julgamentos a dezenas de mulheres?” é um exemplo. Outra: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a entupir os tribunais com uma decisão que os próprios juízes dizem ser política?”. Melhor ainda: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar clínicas de aborto (em Espanha)?”. E que tal: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar o aborto (clandestino)?”. E contribuir com os meus impostos para atender mulheres em risco após abortos improvisados? E contribuir com os meus impostos para perpetuar um problema de saúde pública?
Poderia estar aqui a coluna inteira com estas perguntas, que não são possibilidades vagas ou a discutir no futuro mas realidades indiscutíveis que existem com a lei que temos hoje — e que os partidários do “Não” querem manter.
Esse é outro aspecto revelador que a táctica do medo, da incerteza e das dúvidas permite esconder. Afinal de contas, o campo do “Não” é favorável à lei actual, mas faz tudo o que pode para evitar referir-se a ela, chegando ao cúmulo de nunca citar a lei que defende, nomeadamente a parte que é a mais visada pela pergunta do referendo: “A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos” (sugestão para uma campanha que não seja de “Medo, Incerteza e Dúvidas”: colocar este artigo da lei ao lado da pergunta do referendo e deixar as pessoas decidir).
Mais uma vez, trata-se de substituir a certeza da lei que existe pelas incertezas na sua aplicação, e preconizar mesmo o seu desrespeito, nem que para isso o “Não” tenha que rever periodicamente o seu discurso. Lembrem-se que durante anos eles nos garantiram que não havia “mulheres julgadas por aborto” (embora houvesse). Depois aconteceram os primeiros julgamentos divulgados pelos media, e os partidários do “Não” passaram a dizer que não havia “mulheres condenadas por aborto”, como se a investigação policial e a suspeita não fossem já uma forma social de condenação. Mas entretanto houve mulheres efectivamente condenadas em tribunal por terem abortado, e agora os partidários do “Não” agarram-se à última réstia de credibilidade para dizer que “não há mulheres presas por aborto”, embora saibam perfeitamente que a prisão até três anos está prevista pela lei que defendem.
Um dia, se esta lei não for mudada, poderemos sempre vir a ter mulheres presas por terem abortado. Adivinhem de onde virá o dinheiro para pagar as suas celas na penitenciária? Dos impostos de Ribeiro e Castro ou de Maria José Nogueira Pinto? Seria justo. Mas terá de vir dos “meus” impostos também.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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9 respostas a Medo, incerteza e dúvidas

  1. Ezequiel diz:

    Impostos. Meus. Teus. Nossos. Ou deles. Medo. Dos impostos, claro. De Castro ou de Pinto, nunca.

  2. Filipe d'Avillez diz:

    Já tinha tido oportunidade de ver estes argumentos todos no Choque Ideológico. Gostaria de colocar algumas questões, já que o Rui parece ver apenas desonestidade intelectual e maquiavelismo do lado do Não.
    Mesmo que fosse tão simples como o Rui diz, e que a única coisa em questão fosse a prisão das mulheres (é óbvio que este problema não se resume a isso) então que dizer dos cartazes do Sim? Dois exemplos: “Abstenção para manter a prisão?”, “Acabar com a humilhação” (junto a uma imagem de polícias a levar uma mulher detida).
    Ambos estes cartazes dão a ideia de que uma vitória do Sim no referendo acabará com 1) o problema de se prenderem mulheres por ter abortado e 2) o problema de sequer deter mulheres por ter abortado.
    Contudo, ainda não percebi porque artes mágicas é que a pena de prisão e perigo de detenção vai desaparecer do código penal. Apenas nos dizem que as mulheres que abortam até às 10 semanas, estarão livres desse perigo. Uma vez que todos os casos em que, nos últimos anos, houve julgamentos e detenções, a acusação era de abortar com mais de 10 semanas pergunto ao Rui e aos que como ele defendem o Sim. Querem prender as mulheres que abortam a partir das dez semanas? Estão a propor uma lei que tencionam que seja completamente ignorada (não prendendo as mulheres que abortam depois das 10 semanas)?
    E já agora, expliquem-me também, como é que a polícia que (esse belo argumento) terá concerteza mais que fazer, poderá saber se essas mulheres abortaram fetos com 9 semanas e 6 dias, ou com 10 semanas e 1 dia, sem fazer os tais humilhantes exames ginécológicos?
    Resumindo: O problema da prisão não vai desaparecer. Com a lei que vocês propõem, aliás, nem as mulheres que estiveram em risco de serem presas se teriam escapado nos últimos anos.
    E o Não é que pratica “FUD”?

    É evidente que está em causa mais do que o perigo da mulher ser presa. Reduzir o argumento a isso é mais do que intelectualmente desonesto, é um tiro no pé.
    O que está em causa é que com a vitória do Sim uma mulher rica, com vida estável, dois carros e uma casa no Algarve, pode abortar porque a data de nascimento do bebé coincide com a apresentação da tese de doutoramento. Isto acontece. Acho que uma mulher que faça isso deva ir presa? Não me preocupa minimamente.
    Como acho que devam ir presos os médicos, parteiras e enfermeiras que praticam abortos, como acho que devem ir presos (e por muito tempo) os namorados, maridos, pais e mães que coagem as namoradas, mulheres e filhas a abortar.
    Nenhum defensor do Não quer ver as mulheres a serem lançadas para a prisão às centenas. Já por diversas vezes elementos ligados ao Não propuseram alterar a lei nesse aspecto, penalizando mais fortemente os agentes intermediários do que as mulheres. Mas não é essa a pergunta que nos fazem. Pedem-nos para optar entre uma lei que até hoje não mandou nenhuma mulher para a prisão (nem vai mandar tão cedo) ou uma lei que permite que toda a gente possa abortar, seja porque razão for, até às 10 semanas. Contra isso votamos não. Dizer que votamos não para humilhar as mulheres é mais que desonesto, é de uma ignorância que só se desculpa a quem tenha estado de olhos fechados e não tenha visto que ao longo da última década só os movimentos ligados ao Não é que têm feito trabalho no terreno para ajudar essas mesmas mulheres.

  3. Os meus parabéns por este excelente artigo!

    Quanto ao Comentador d’Avillez, ficou ainda mais claro o maquiavelismo e o cinismo dos apoiantes do SIM à actual Lei! Não estão minimamente preocupados se homens e mulheres (eventualmente Pais e Mães!) forem presos por interromperem voluntariamente uma gravidez antes de decorridas as primeiras dez semanas da mesma! Estamos REALMENTE conversados com o NÃO.

    Só falta agora defender que também merecem prisão efectiva os culpados dos pecados de adultério, masturbação, prática de relações sexuais (entre adultos) fora do Casamento, etc., etc., etc….

    “Oh Tempo, volta para trás!!”

  4. Gonçalo diz:

    Já estou a ficar um pouco asteniado, com esta “global war” que se está a fazer à volta deste referendo! Como é tipico do Zé Portuga, não sabemos ter uma discussão aberta e exclarecedora sobre algum assunto, exemplo disto tivemos um Debate de Serviço Publico que mais parecia uma Guerra Civil. Não me passa pela cabeça, a menos que sejam anormais, que as pessoas apoiantes do Sim sejam a favores do Aborto! Eu também não quero ver mulheres presas por praticarem IVG’s, mas o governo tem como obrigação implementar medidas para que previnam estes casos, nomeadamente, centros de aconselhamento para jovens, educação sexual nas escolas, mas que não funcionem como quase todas as aulas de substituição! Nos centros de saude, UCF’s, deveria de existir um bom planeamento familiar, com avaliações periodicas, pois contam se pelos dedos os que funcionam como deve ser! Existência obrigatória de um departamento de saúde mental em todos os centros de saude, UCF’s, para um acompanhamento e aconselhamento progressivo, entre muitas outras medidas… Por isso, para as medidas que o Governo irá implementar, eu também não quero que gastem “os meus impostos”! Por isso faço uma pergunta aos demais: Será que me devo abster neste referenfo?:)

  5. Sérgio diz:

    Muito bem, uma vez mais. Temo, porém, que a lucidez ceda ao FUD.

  6. Filipe d'Avillez diz:

    É fácil estar REALMENTE conversado com o NÃO quando se conversa com um espantalho e não com pessoas. Em relação ao comentário do A. Castanho:
    1) “Não estão minimamente preocupados se homens e mulheres (eventualmente Pais e Mães!) forem presos por interromperem voluntariamente uma gravidez antes de decorridas as primeiras dez semanas da mesma” Tem noção de que mudando a palavra “antes” para “depois”, estará a falar da sua própria posição? Não chega já de demagogia?
    Serei eu a favor de que uma mulher que mata o seu marido vá presa? Depende. Se o mata porque ele a espancava e ela estava em desespero, não sou a favor de que vá presa. Se o mata para receber a herança já sou. Da mesma maneira, se uma mulher aborta porque é coagida, ou porque se sente totalmente perdida e em desespero, choca-me ela ir presa. Se aborta porque é a segunda menina e ela queria tanto ter um casalinho, ou porque vai nascer em Agosto e custa tanto estar de barriga no Verão, aí choca-me bastante menos.
    Compreendo, todavia, que seja mais fácil para si argumentar com os adeptos do NÃO que apenas existem na sua cabeça, do que argumentar com as pessoas verdadeiras. É pena.
    2) Alguns defensores do Sim já o perceberam, mas infelizmente não todos. Enquanto continuarem a pensar que para os milhões de pessoas que defendem o Não (mesmo que sejam uma minoria, são uma significativa minoria), o aborto tem a mesma gravidade que o adultério ou a contracepção, estas discussões não vão a lado nenhum. O seu comentário termina como começou, num triste duelo imaginário entre si e um exército de opositores que não existem. Assim qualquer um é o Dom Quixote. Divirta-se.

  7. teresa diz:

    Sr. Filipe d’ Avillez, talvez a realidade que conheça não seja exactamente a realidade que existe por esse país fora.
    Essa senhora, mulher rica, com vida estável, dois carros e uma casa no Algarve, que pretende abortar porque a data de nascimento do bebé coincide com a apresentação da tese de doutoramento vai sempre fazê-lo sem ser julgada, penalizada, condenada.
    Essa senhora, simplesmente vai a Espanha, a uma clínica luxuosa, faz o seu aborto (ainda que depois das 10 semanas) e simplesmente não vai votar o referendo, porque essa questão não lhe diz respeito.
    Essa mulher nunca irá presa, nunca sofrerá riscos de um aborto mal feito, nem tão pouco morrerá como consequência de um aborto.
    Quem defende o não, certamente não sabe, nem sequer ouviu falar, de miséria.
    Quanto ao FUD: contaram-me que há dias, na missa, um sr. Padre disse estas brilhantes palavras: “Cada pessoa que votar no sim, está a matar um ser humano!” – vejam lá onde chegamos…

  8. Para provar que F. d’Avillez não tem razão no seu último comentário volto aqui, civilizadamente, para lembrar o seguinte:

    1º) O que estará em causa no próximo Referendo, de uma vez por todas, não é o aborto “em geral”, mas a questão muito concreta de terminar ou não com a actual SANÇÃO PENAL, caso seja realizado até às primeiras dez semanas. Quem votar “não” – seja em nome de que elevados princípios for – estará, simplesmente, a manifestar-se A FAVOR da manutenção desta situação, que obriga a que o acto de impedir muito precocemente o desenvolvimento de um embrião humano seja visto pela sociedade nada mais nada menos do que como uma forma de homicídio! Tudo o resto é, neste momento, meramente acessório.

    2º) Se estiver realmente interessado em conhecer melhor a minha opinião sobre este assunto, poderá sempre espreitar o “www.evolucoesdeabril.blogspot.com” (para não estar a maçar os leitores deste “blogue” com um diálogo que já excede o tema do presente artigo).

  9. Acho que com isto também respondo à pergunta do Gonçalo…

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