A criança que há em V.P.V.

Não vale a pena dizer mal de Vasco Pulido Valente, porque as coisas que ele escreve desmentem quem diz mal dele.

Eu gosto muito do português dele, e o maior elogio que lhe posso fazer é dizer que os erros que às vezes aparecem nas suas prosas (sim, aparecem) são como os galicismos que os professores do liceu passavam a vida a encontrar nos livros do Eça: desculpas de camilianos com mau-perder.

Dito isto – ou seja, que V.P.V. é formalmente muito bom – falemos agora das suas limitações, que são principalmente duas.

A primeira é sofrer do síndroma de Marcelo Rebelo de Sousa – i.e., falar sobre quase tudo, incluindo sobre o muito de que não sabe (tudo o que não é história portuguesa moderna, e mesmo assim…), em vez de se guardar para aquilo que faz melhor e que os leitores (ou, pelo menos, este leitor) pedem dele: a crónica dos costumes políticos, ou Celorico visto desde Paris.

Mas isso tem desculpa: V.P.V. tem duas ou três crónicas para escrever por semana e às vezes dá-lhe a fadiga, ou então são os tempos que andam tão miseravelmente pacificados que não há nada para dizer.

O que tem menos desculpa é a sua iconoclastia um bocado infantil, a sua insistência em ser sempre do contra, mesmo que isso signifique contradizer-se vezes sem conta e desafiar o mais evidente bom-senso; como dizia o outro, V.P.V. tem a “mania de ser diferente”.

Por exemplo, o aborto: o liberal V.P.V. incomodou-se há duas semanas no “Público” com o facto de a DECO querer obrigar os restaurantes todos a aceitar as criancinhas & os seus guinchos e vê nessa possível perturbação da sua paz digestiva o princípio de um novo totalitarismo, mas nunca parece ter achado nada demais ao facto de, às ordens de um magistrado qualquer (de Celorico, talvez), a PJ poder dedicar-se à prática de perícias ginecológicas numa mulher para saber se ela alguma vez abortou.

Há tempos dizia que a despenalização do aborto era um problema do passado, porque hoje, com o progresso da técnica, só engravida quem quer: mas também nunca lhe ocorreu que às vezes há quem vá para a cama com os copos (perdoe-se-me a franqueza), quem se esqueça de tomar a pílula ou até, como aqui já foi lembrado, quem não tenha dinheiro para os preservativos (saberá V.P.V. que há pobres em Portugal?)

A tolerante Inglaterra é um modelo em tudo – menos, pelos vistos, em matéria de higiene sexual, porque nisso parece que a Irlanda papista é que é boa…

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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