Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (final)

[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser lê-la ou relê-la, aqui está a primeira parte, aqui a segunda, aqui a terceira, e aqui a quarta. Bom proveito.]

Na sua obra O prazer do texto Roland Barthes declara: “Como instituição, o autor morreu: a sua pessoa civil, passional, biográfica, desapareceu; desapossada, já não exerce sobre a sua obra a formidável paternidade que a história literária, o ensino, a opinião tinham por função estabelecer e renovar a narrativa; mas no texto, de um certo modo, eu desejo o autor: tenho necessidade da sua figura (que não é nem a sua representação nem a sua projecção), tal como ele tem necessidade da minha…”

Que diz Barthes neste fragmento? Que não importa a biografia, a vivência, a ideia do autor por trás de um determinado texto, visto que este será sempre interpretado segundo o enquadramento do leitor e da sociedade que o lêem. Posso, n’ O Mercador de Veneza, ler uma defesa da dignidade dos judeus, mesmo que a época em que foi escrita e o próprio autor da peça pudessem estar pejados de preconceitos anti-semitas.

Barthes defendia a autonomia da interpretação do sentido do texto, independentemente da intenção ou psicologia do respectivo autor. Fazia-o com o objectivo de promover o papel da leitura individual e crítica literária na interpretação do texto, em detrimento da investigação biográfica ou histórica.

Mas, de uma forma algo perversa, também se pode interpretar este excerto à luz dos ciberapócrifos que temos analisado nas últimas semanas. Pois que o aspecto singular destes textos é o de “desejarem um autor”. Mais concretamente, para os seus verdadeiros autores e leitores é absolutamente vital que aqueles tenham uma autoria atribuída. É essa autoria que faz existir o texto pois é ela que justifica a sua existência e a sua divulgação. Porém, é o conteúdo do texto que se torna popular e “deseja o autor”. Ou seja, se “Instantes”, “A Marioneta”, “Morre lentamente”, “História de dois aeroportos” não tivessem o conteúdo que têm, provavelmente não seriam reenviados de e-mail em e-mail, como tentei demonstrar no último artigo; mas se não tivessem o autor que se propõem ter, provavelmente nem seriam lidos.

Gera-se assim a simbiose perfeita: o autor faz o texto ser lido, o seu conteúdo faz com que seja divulgado, num fenómeno inverso ao que é frequente no mundo editorial, onde um livro pode ser vendido pela força do nome do seu autor, mas é o conteúdo que determina se é lido ou não – basta olharem para as vossas estantes e contarem o número de livros de autores famosos que nunca leram ou abandonaram a meio.

Curiosamente, o fenómeno dos ciberapócrifos parece demonstrar a teoria que Michel Foucault defendia na sua obra O que é um autor, onde propunha que as obras literárias são produtos culturais colectivos, não cabendo ao autor mais do que uma função de legitimação institucional. Essa legitimação traduz-se, nos ciberapócrifos, na atribuição da autoria à mais alta autoridade (leitores atentos notarão aqui uma significativa proximidade morfológica e etimológica) reconhecida dentro do contexto sociocultural da sua produção: Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez, no meio literário latino-americano; Millôr Fernandes e Luis Fernando Veríssimo num contexto brasileiro de humor, Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho no âmbito do comentário político-social português.

Apesar desta explicação, o caso encerra em si um paradoxo: textos de origem anónima lidos por pessoas anónimas precisam da assinatura dos que se ergueram acima do anonimato para garantir a sua divulgação. E textos genuínos destes mesmos autores não têm uma fracção da popularidade e perdurabilidade que os apócrifos demonstram no mundo virtual.

Porque será? Para esta questão, não tenho ainda resposta cabal. Mas, tendo em conta o que foi dito no anterior artigo desta série, talvez a demagogia não seja apenas uma estratégia política mas antes revele o enorme desejo que as pessoas anónimas têm de ver legitimado e proferido pelos não-anónimos aquilo em que acreditam e desejam ouvir. De forma grossa, as massas precisam das elites para delas escutarem o que já sabiam à partida.

Não tenho provas do que digo, mas sugiro que vejam o filme A Rainha, de Stephen Frears. Quando, no final, Isabel II e o marido chegam ao Palácio de Buckingham rodeados da população que faz luto por Diana Spencer, é quase inevitável sentir que naquele momento, e provavelmente em todos os outros, a rainha é a pessoa com menos poder em toda a Grã-Bretanha, joguete da vontade e caprichos dos seus súbditos.

Quem sabe se o autor não é também o mais impotente dos leitores, incapaz até de escrever os textos que lhe atribuem.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

4 respostas a Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (final)

  1. Ezequiel diz:

    Esta transfiguração do conceito de “autor” (para a estrutura, etc) é um dos mais interessantes aspectos da filosofia pós-moderna que surge, em grande parte, através da criação de várias dicotomias produtivas (autor vs. social, intertextualidade vs. intenção criativa, criatividade vs. imersão social) sensacionalistas, redutoras e imbecis. Talvez a filosofia não seja mais do que isto:a invenção de dicotomias. Esta dissolução do eu na corrente do ser (que, curiosamente, tem que ser caracterizada i.e. INDIVIDUALIZADA, pois existem-no sentido mais concreto do ser (practicas) – inumeras concepções de SER) é, na minha não tão modesta opinião, um “letting-go” romantico…um ” attempt at being at one with Being, to be part of…” (pq uma coisa é pertencer ao being e outra, bem diferente, é gostar deste ou daquele modo de pertença ao being…)

    Tenho que ir. Volto depois. Cumprimentos, ezequiel

  2. Ezequiel diz:

    romantico: a tentativa de reunificar o fragmento na “harmonia” do todo (Schlagel)…ou, coneptualmente, o reencontro da essencia com a totalidade…ou…sei lá…os romanticos são uns chatos que nunca se calam…gotago

  3. Ezequiel diz:

    A musica dos (sublimes) coocoos (the laughing academy types..eh eh he 🙂 )

    Happy Birthday, David Bowie

  4. Ezequiel diz:

    lovely…

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