A Arte de sepultar o passado

Tal como enuncia Leys, embora a China seja a mais antiga civilização do mundo, o respeito pelos valores espirituais e morais antigos combinam-se com a indiferença relativamente à herança cultural.

Há, na China, uma omnipresença do passado através da língua escrita, que permaneceu imutável por mais de dois mil anos. Mas não através dos monumentos antigos. Na Europa, por exemplo, e não obstante as sucessivas guerras e destruições, os marcos arquitectónicos carregam o espaço físico de história e recordações. No Egipto, tudo foi construído para a eternidade. Na China, “o que surpreende o visitante é a monumental ausência do passado”. O passado está, portanto, nos homens e não nas pedras. E esta inexistência não deve tanto à Revolução Cultural quanto se possa, à primeira vista, supor. Na verdade, aquando da devastação maoísta, já pouco restava para ser destruído. Uma arrasamento que, afinal, foi uma manifestação de iconoclastia que se verificou, sistematicamente, ao longo de séculos e séculos.

Os chineses não adiam a derrota face ao tempo. A sua arquitectura escolhe materiais perecíveis. Os monumentos findáveis são um sacrifício ao tempo. Sacrifício através do qual, segundo Leys, “ o construtor assegura a permanência do seu desígnio espiritual”.

De facto, o interesse pelas antiguidades na China foi limitado a curtos períodos de tempo bastante especiais. Fora isso os coleccionadores interessaram-se sobretudo pela caligrafia e pela pintura. A concentração de tesouros artísticos das dinastias foi sistematicamente destruída. A queda de uma dinastia era acompanhada pela pilhagem do palácio imperial, pouco sobrando do património acumulado: a imortalidade só pode ser conferida pela História, através da coisa escrita: “o homem só sobrevive no homem”.

Mesmo durante o confuncianismo (embora a Antiguidade invocada por Confúcio fosse mais a Antiguidade perdida, a “idade de ouro mítica”, uma utopia futura), o culto do passado era polémico entre Antigos e Modernos. Tendo sido estes últimos a triunfar, o Primeiro Imperador mandou queimar todos os livros e enterrar vivos os letrados. O regime maoísta reivindicou a herança de Qin Shihuang, apesar de julgar os seus próprios feitos como superiores: “Ele executou apenas 460 letrados. Nós executámos 46 mil”.

Para Leys, ninguém deveria analisar a política chinesa, a não ser que saiba “decifrar inscrições inexistentes inscritas com tinta invisível numa página em branco”. De acordo com o autor, o partido comunista chinês é uma sociedade secreta. Um partido que, mesmo ao contrário de Mussolini e Hitler, nunca, mas mesmo nunca, obteve um mandato e cuja história é misteriosa. Em certos períodos, nem sequer se sabe quem dirigia o partido.

Em 1945, os comunistas contavam com o apoio de apenas 0,01% da população. Quatro anos depois, a China estava sob o seu jugo. Durante esse período, instauraram a sua reforma agrária de forma brutal e purgaram o partido. Depois, aplicaram o terror à escala nacional. Em 1951, quase toda a população chinesa tinha sido obrigada a participar em reuniões de acusação ou a assistir a matanças e execuções.

Mao era um anti-intelectualista. E os intelectuais foram alvos exemplares nas chacinas entre 1942 e 45. A Revolução Cultural arruinou o sistema de educação e não poupou o próprio partido, onde apenas uma pequeníssima minoria recebeu educação universitária.

Para Leys, as obras de Mao são “um dos mais impressionantes casos de auto-sugestão colectiva que o século XX registou”. 15 anos depois da Revolução Marx ainda não havia sido traduzido para chinês. O máximo que foi alcançado foi a tradução de manuais soviéticos de introdução ao marxismo. Depois da quebra da aliança com a União Soviética, os Pensamentos de Mao conquistaram uma importância absurda. Oraculares e ubíquos. Impressos em canecas, cantados, recitados nas escolas. “Mao está para Marx como o voodu está para o cristianismo”. Um fenómeno extremo de despolitização que Wang Hui compara mesmo à despolitização e à crise da democracia parlamentar ocidental contemporânea. Segundo esse autor, essa despolitização do PCC deve-se a dois factores: à des-teorização da esfera ideológica e à focagem única nas reformas económicas, que tem conduzido ao capitalismo mais impiedoso.

Não obstante, Mao dedicava-se à caligrafia, à poesia e à pintura. Sem grandes feitos, é certo, mas demonstrando um traço essencial para a sua liderança: a familiaridade com a cultura e literatura chinesas clássicas.

Aquilo que os Ocidentais classificaram como caligrafia chinesa e que tardaram a reconhecer como uma arte é, na verdade, de uma tremenda exigência e complexidade. A ela se subordinam a pintura e a poesia chinesas. Leys realça que esta caligrafia é uma arte do espaço, do tempo – tal como a música, rítmica – tal como a dança e mesmo atlética. Tão aristocrata quanto popular. De facto, esta arte exige do calígrafo uma enorme concentração e controlo muscular. São necessários anos de prática para a razoabilidade.

E é fácil, mesmo para o turista mais desatento, perceber como na China a escrita tem sempre o lugar de honra.

Sobre esta relação única dos chineses com o seu passado, não há melhor do que o poema Aos dez mil anos de Victor Segalen.

Segalen entendia que o exotismo é a noção do diferente, distanciando-se da literatura e da arte “exótica” do seu tempo. É o escritor, para Aníbal Fernandes- que traduziu recentemente na Assírio & Alvim o seu essencial romance René Leys– o “excêntrico isento dos pecados do exotismo decorativo”. À superfície, a China é um mundo ao contrário. Os chineses começam a construir as casas pelo telhado, vestem-se de branco quando estão de luto, escrevem de baixo para cima e da esquerda para a direita. Porém, a China é o outro lado da experiência humana, medida da nossa identidade. O verdadeiro exotismo, aquele que Segalen quis purgar “do capacete colonial, da palmeira e do camelo”, assenta nessa percepção aguda da diferença. Tem o seu auge quando “o ser pensante que se vê frente a frente consigo próprio e se descobre outro, e rejubila na sua diversidade”. Por isso, Segalen foi um viajante em si próprio.

Diz F. W. Mote: “As únicas encarnações verdadeiramente duradouras dos momentos humanos eternos são as suas encarnações literárias”. Fica o poema.

“Esses bárbaros que descartam a madeira, e o tijolo e o barro, constroem na rocha a fim de construir o eterno!

Veneram túmulos cuja glória é a de ainda existirem: pontes afamadas por serem velhas e templos de pedra cujos fundamentos não oscilam.

Apregoam que o seu cimento endurece com os sóis; as luas morrem polindo as suas lajes, nada desagrega a duração de que se enroupam, esses ignorantes, esses bárbaros!

Vós, filhos de Han, cuja sabedoria atinge dez mil anos e dez mil milhares de anos, guardai-vos desse erro!

Nada de imóvel escapa aos dentes famélicos das eras. A duração não é a sorte do sólido. O imutável não habita os vossos muros, mas sim em vós, homens lentos, homens contínuos.

Se o tempo não ataca a obra, morde o operário. Que o saciem: esses troncos repletos de seiva, essas cores vivas, esses ouros que a chuva lava e que o sol apaga.

Fundai sobre a areia. Molhai copiosamente a vossa argila. Montai as tábuas para o sacrifício; em breve a areia cederá, a argila inchará, o telhado duplo juncará o chão com as suas escamas:

Toda a oferenda é bem-vinda!

Ora, se tendes de sofrer a pedra insolente e o bronze orgulhoso, que a pedra e o bronze sofram os contornos da madeira perecível e simulem o seu esforço caduco:

Nada de revolta: veneremos as eras nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.”

Filmes por Edgar Pêra
Leitura por Nuno Melo
Agradecimentos a Natxo Cheka e Galeria Zé dos Bois.

Leys, S. (2005) Ensaios sobre a China. Tradução de António Gonçalves. Lisboa, Ed. Cotovia.
Segalen, V. (2006) René Leys. Tradução de Aníbal Fernandes. Lisboa, Assírio & Alvim.
Wang, Hui (2006) Depoliticized Politics, from East to West. In New Left Review, Set/Out, 41.

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QUARTA | Joana Amaral Dias
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