A fé única

A menos de dois meses do referendo sobre a despenalização do aborto, ninguém diria que vamos a votos em Fevereiro. A campanha é quase inexistente, mas eu não acho que isso seja forçosamente mau, antes pelo contrário. Infelizmente, salvo raras e honrosas excepções (a que já me referi aqui), não há muita conversa que se possa ter com os apoiantes do “não” – porque tentam sistematicamente transformar aquilo que é uma questão social numa outra transcendental – por isso o melhor que o campo da tolerância tem a fazer é procurar mobilizar para o voto, e para a fiscalização da liberdade de voto.

Uma ilustração da impossibilidade de debater com boa parte dos partidários do “não”, e da sua estranha concepção das relações entre a fé e a lei, está patente num tal de “Blogue do Não”, para o qual uma amiga chamou recentemente a minha atenção. À entrada, o dito blogue tem uma sondagem: “Na sua opinião, existe vida humana às 10 semanas?” Eu não fui ver a resposta, porque acho que a pergunta já chega: os seus autores acham obviamente que há “vida” (seja lá o que isso for) antes das dez semanas, presumivelmente logo que um pingo de esperma se esgueira para fora de um preservativo furado, mas não lhes basta a certeza das suas convicções: em nome delas querem mandar para a prisão quem porventura pense e aja de modo contrário. No fundo, parece tudo uma questão de local e de oportunidade: há trezentos anos, esta espécie de defensores da “vida” devia conviver bem com os rigores da Santa Inquisição; hoje (viva o progresso!) contenta-se em fazer sondagens absurdas num blogue, mas a sua atitude é tão intolerante em relação às convicções alheias como sempre foi.

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SEXTA | António Figueira
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