Feliz Natal, ó excelências!

[do Público de 23 de dezembro 2006]

Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.

Quando o leitor do Público estiver perante estas linhas, pode ser que já se encontre na terra com a família, nesta antevéspera de Natal. Ou pode ser que ainda não tenha acabado de colocar os presentes no carro para sair da grande cidade em direcção à auto-estrada. Nesse caso, viaje com muito cuidado. Não tanto por causa dos engarrafamentos ou dos acidentes que todos os anos, por esta altura, são causa de ansiedade e sofrimento. Mas antes porque já devem andar por aí as brigadas do laicismo tentando impedi-lo de comemorar o Natal. Ao chegar, feche as janelas para ocultar as luzes compradas na loja dos chineses, e para que ninguém veja a avozinha enquanto ela frita os filhoses.

Por todo o país e em todo o mundo ocidental, não deve haver questão mais premente do que a dos cristãos perseguidos por comemorarem o Natal. Basta consultar este vosso jornal, na edição de ontem, e ver como lhe foram dedicadas as duas páginas do “destaque” da autoria de António Marujo (na sua segunda incursão pelo tema: a primeira chamava-se “quando o Natal é proibido”), o editorial de Nuno Pacheco, e os artigos de opinião de Esther Mucznik e Constança Cunha e Sá. E creio que não são os únicos nem serão os últimos, à medida que a data se aproxima.

Pode ser que a leitora, perdida entre as iluminações natalícias, o trânsito e os horários alargados dos centros comerciais, não se tenha dado conta de que o Natal está para acabar, não sabemos se por decreto. Talvez ao lisboeta lhe tenha escapado isso enquanto fazia o trajecto da “maior árvore de Natal da Europa” (oferta de um banco), atravessando uma Rua Augusta coberta de anjinhos, até um Rossio patrocinado por outro banco, comprando pelo caminhos os seus presentes em cada loja e cadeia comercial. Mas é precisamente para dar este alerta que o jornalismo de referência e a opinião informada aqui estão. Para lhe dizer que, este ano, não se vê outra coisa senão uma sanha persecutória contra o Natal, movida por perigosos secularistas e pelo grande capital, que morre de medo de ofender as outras religiões. É a “Guerra contra o Natal”.

É irónico que no artigo de António Marujo o professor da Católica António Teixeira se queixe da importação de festividades, como o Halloween, que “nada têm a ver com a nossa cultura”. Isto porque a própria “Guerra contra o Natal” que lhe pediram para comentar, longe de existir, é uma importação da agenda americana do ano passado, quando o canal FoxNews e a sua coligação de evangélicos decidiram que, no país mais cristão do mundo desenvolvido, havia uma ofensiva contra os cristãos. Tudo isto já foi ridicularizado que baste pelos restantes americanos, que não deixariam de olhar com condescendência para esta reciclagem em terras lusitanas, com um ano de atraso.

Como nos EUA, a nossa “Guerra contra o Natal” é uma amálgama de histórias contadas pela metade, lendas urbanas, inversões retóricas e interpretações extravagantes. Mas como, se no Editorial do Público nos é dito que “em Birmingham a câmara decidiu mudar Christmas (Natal) para Wintervall (intervalo de Inverno)”? Ora, não só a história vem com quase dez anos de atraso (o Wintervall ocorreu em 1997 e 1998), como nem sequer é verdadeira. A Câmara de Birmingham não “substituiu” o Natal por coisa nenhuma; limitou-se a fazer um festival de inverno, como fazem milhares de cidades por esse mundo fora, e incluiu nele as celebrações dos feriados religiosos. A própria sede do município estava iluminada com a frase “Happy Christmas Birmingham”. Mas cuidado, senhores autarcas, se fizerem para o ano um “Festival da Primavera”, ainda podem daqui a dez anos ser acusados de apoiar uma “Guerra contra a Páscoa e a Ressureição”.

Outras são insufladas até ao limite do inconcebível, como se vê quando o professor da Católica entrevistado por António Marujo declara que se pode caminhar “para sociedades assépticas e controladas a partir de um big brother, como as descritas em Admirável Mundo Novo e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”. Sério, senhor Professor? Esta guerra fictícia feita em torno de não-notícias vai levar-nos a um pesadelo orwelliano? E que dizer quando se lê que “o Fórum Andaluz da Família concedeu o Prémio Herodes 2006 à directora de uma escola pública em Mijas (Málaga, Espanha) que colocou no lixo um presépio feito por alunos da disciplina de Religião”? O Prémio Herodes! O Prémio Herodes — do nome do rei que (segundo o Evangelho de Mateus) mandou matar todas as crianças menores de dois anos — para a professora de Mijas! Não terá o bom Deus dado o sentido das proporções aos professores da Católica, ou feito a graça do bom-gosto ao Fórum Andaluz da Família?

A regra destas coisas é: qualquer algo que um alguém tenha dito pode ser usado na espiral pirotécnica do sensacionalismo. Assim Constança Cunha e Sá escreve que, se alguém sugeriu substituir o perú (se bem me lembro, bicho que não constava na Terra Santa) por um frango, então “bolo-rei, rabanadas, sonhos e fatias douradas deviam, com maioria de razão, abandonar o menu da consoada”, como se
alguém cogitasse proibir essas iguarias. Coma rabanadas, Constança! Olhe que para mim não há maior metafísica no Natal senão comer rabanadas.

O problema é que, no meio de tanta sofreguidão vitimizada, ficamos sem perceber qual é afinal… o problema. Falta de liberdade ou excesso dela? Constança Cunha e Sá lamenta que o consumismo tenha substituído o sentido do sagrado. Mas se as pessoas são livres, afinal, tanto podem comemorar o Natal numa orgia consumista como os comentadores conservadores numa orgia de paranóia e mania da perseguição. O dizer-se “Boas Festas” em vez de “Bom Natal”, como alega o Editorial de Nuno Pacheco? Ora, eu desejo Bom Natal aos meus amigos cristãos e Boas Festas a todos os outros, e ainda não me lembro de alguém se ter queixado da minha intolerância.

Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? Ë que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.

Há muita gente que se lamenta do regime de “felicidade obrigatória” desta quadra a que chegamos quase sempre cansados, endividados e a tiritar de frio. Mas algo de muito estranho se passa — talvez qualquer coisa que puseram na água canalizada — quando um ateu anarquista vai desfrutar tranquilamente da quadra com a família de várias crenças e filosofias, ao passo que religiosos e conservadores parecem preferir passá-la mergulhados numa atmosfera de frenicoques, resmunguices e vibrações negativas.

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