Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (4.ª parte)

(Nota: Os links no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade)

Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de e-mail em e-mail, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve haver neles que leva cada homem ou mulher desta cadeia de transmissão a achar que o clique de reenvio, a selecção dos destinatários, o send e a espera pelo aviso de boa recepção não são tempo perdido.

Como se mencionou num dos artigos anteriores, estes ciberapócrifos versam maioritariamente dois temas: a auto-ajuda e a política, com predominância da primeira. Vou por isso debruçar-se sobre a análise deste género.

De que fala o texto Instantes? Parece ser um texto escrito por um idoso “de oitenta e cinco anos” e “morrendo” que nos diz o que faria se “pudesse viver novamente” a sua vida. O texto abre com uma declaração aparentemente paradoxal: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros”. O senso comum diz-nos que devemos lamentar os erros cometidos e tentar evitá-los no futuro. Esta frase, ao enunciar o contrário, desperta a atenção do potencial leitor.

Os ditos “erros” – actividades e características que o narrador teria ou faria – são enumerados: menos perfeito, mais relaxado, mais tolo, levar as coisas menos a sério, menos higiénico, mais aventureiro, mais contemplativo e mais apreciador das sensações.
À lista segue-se a explicação: “fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria”.

Esta passagem é muito interessante. Por um lado gera empatia com o destinatário, que obviamente também se considerará uma pessoa “sensata” e “produtiva” e com “momentos de alegria”. Por outro, é intrigante a adversativa implícita na frase “claro que tive momentos de alegria”. Será que viver de forma sensata e produtiva não dá alegria? Não, segundo o senso comum, para o qual felicidade é não fazer nada, não ter preocupações, estar com amigos e família, estar de férias. Mesmo que estudos neuro-comportamentais apontem maiores índices de felicidade nas pessoas com excesso de trabalho…

Ou seja, é neste ponto que o texto mergulha no senso comum, quando apela a uma vida mais emocional, mais dedicada à (suposta) auto-satisfação de sentidos e instintos, que se conclui de forma dramática: “Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo”. Deste modo, ao invocar-se a inevitabilidade da morte, e tendo antes criado empatia com o leitor, força-se este a reflectir na sua própria mortalidade e a ponderar com cuidado os conselhos inscritos no texto.

A texto atribuído a Pablo Neruda recorre a uma estrutura estilística menos subtil e, diria mesmo, ridiculamente bombástica. O texto está construído sobre paralelismos de construção sintáctica e semântica repetitivas, levados ao limite do suportável, que lhe conferem um tom apocalíptico. A “morre lentamente quem” sucedem-se condições desta “morte lenta”, numa estrutura aberta, que se presta a acrescentos infinitos de todo género.

No entanto, a maioria das condições que o texto condena dizem respeito a um estilo de vida mais passivo, racional, conformado e desprovido de curiosidade intelectual: “não viaja”, “não lê”, “escravo do hábito”, “televisão o seu guru”, “evita uma paixão”, “os pontos sobre os iis”.

Neste caso, a identificação com o leitor faz-se também através do senso comum, visto que ninguém se vê a si próprio como conformado e acomodado, mas inclina-se a heroicizar o seu quotidiano, justificando como inevitável o próprio comodismo. Mas, ao mesmo tempo, o texto finge ignorar que um certo grau de adaptação e rotina é também necessário para uma vida em sociedade. Deste modo, o texto prefigura-se como um texto moralista, destinado a alimentar uma imagem idealizada da vida, sendo fácil para o leitor aplicá-lo parcialmente a si próprio, mas cabalmente à massa dos “outros”.

O terceiro e quarto textos desta série – há outros, mas estes serão suficientes –apresentam maior complexidade e subjectividade que os anteriores.

No caso da Marioneta, há mais empenho na liricização dos conselhos, que se tornam menos imediatos e mais subjectivos: “escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse”.

Pelo contrário, os conselhos de Sunscreen são de tal modo pragmáticos que o texto ganha um certo humor: “Sing”, “Floss”, “Stretch”.

No entanto, ambos fazem a apologia do momento, das sensações, da natureza e da vida sem planos, constrangimentos ou preocupações: “Enjoy your body”, “viveria enamorado do amor”.

Aqui assenta, julgo eu, o que faz correr e perdurar estes textos: a imagem idílica e despreocupada da vida que proporcionam. Para um enervado trabalhador ou para um entediado doméstico que abre os seus e-mails, estes textos funcionam como escapismo, espelho e sensação de superioridade. Ao descreverem uma vida despreocupada, fazem o leitor sentir que essa vida é possível, existe e traz felicidade. Ao admitir que alguns dos conselhos seriam bons para si, o leitor considera o texto importante para si próprio, mas ao não se reconhecer a si próprio em algumas das condições condenadas e reconhecer “o outro” sente-se superior e o comprazimento samaritano leva-o a reenviar o texto para amigos e conhecidos para que eles aprendam.

Deixem-me reforçar a questão do reenvio. Ao sermos nós a revelar o texto a outrem, sentimo-nos um pouco autores daquele, sentimos que somos nós que estamos a dizer aquelas palavras “sábias” a quem nos rodeia. Ao mesmo tempo, sendo o texto assinado por outro, evitamos o sermão directo e não nos expomos como pregadores e moralistas.

Aqui assenta o grande trunfo dos textos reenviados: agradam duplamente. Porque dizem o que já conhecíamos, e logo não nos ameaçam. Porque nos permitem partilhar com os outros o “saber” que é nosso, mas que preferimos não admitir como nosso.

Julgo que este mecanismo é verdadeiro para grande parte dos textos que continuam a circular na internet: tanto os de auto-ajuda, como os politizados, os anúncios de vírus, os pedidos de ajuda, os casos verídicos e, de uma forma mais básica e óbvia, as promessas de dinheiro ou prémios grátis.

Na próxima semana concluo esta série com uma análise do papel do autor.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.