Os selvagens devem ser vestidos (despidos) civilizadamente

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Sobre o espectro do lenço islâmico que assola o 5 Dias vou dar a minha opinião.

1.Durante dezenas de anos o lenço islâmico não incomodou. Hoje, em virtude do progresso (segundo o António Figueira), o lenço passou a ser uma questão fundamental.
Em França impede-se a entrada na escola a raparigas com lenço islâmico, no Reino Unido foi despedida uma professora que se recusou tirar o lenço nas aulas e na Holanda pretende-se proibir as mulheres de o usarem nas ruas. Esta polémica não é independente do contexto da “luta contra o terrorismo”, da confusão feita entre terroristas e muçulmanos, da defesa da “Europa Fortaleza”, do conceito da Europa cristã e da consequente afirmação que o islamismo é uma religião “estrangeira” usada por hordas de imigrantes invasores, pobres e ignorantes (basta ler o “Raiva e Orgulho”, da finada Oriana Fallaci, para compartilhar pitorescas e escatológicas descrições de como os imigrantes árabes profanam os monumentos de Florença com a sua presença, os seus sexos e a sua urina, para encontrar uma expressão simplista dessa doutrina).
Não é, portanto, de admirar que um porta-voz do Vaticano tenha dito que na ‘Europa os muçulmanos deviam abster-se de usar o véu, pois estavam em países de tradição cristã’. Aliás, em matéria de controlo de vestuário, a Santa Igreja Católica tem uma longa tradição. Passou séculos a obrigar as aborígenes da Polinésia e de outros sítios a cobrir os seios (são sobre isso algumas das descrições mais cómicas do livro de Vargas Llosa sobre Paul Gauguin) e agora descobre a sua verdadeira vocação: tirar roupa às muçulmanas.

2.O Estado não é fiscal de vestuário. Tem apenas a obrigação de legislar de modo que as mulheres, muçulmanas ou não, não possam ser obrigadas a usar uma qualquer peça de roupa, mas não deve proibir que, caso o queiram, as usem.
As jovens muçulmanas da Europa vivem em países onde vão à escola, trabalham, votam e vêem televisão. Se algumas delas escolheram livremente usar o lenço islâmico, a sociedade deve proteger essa escolha.
Muita gente contesta esta posição, garantindo que as mulheres muçulmanas não são realmente livres e estão coagidas pela sua cultura e pela sua família. Como se as jovens muçulmanas fossem as únicas que tivessem família, tivessem nascido numa cultura e sido influenciadas por uma sociedade. Como se todas as escolhas “livres” (as nossas e as dos outros) não fossem feitas nesse contexto.
Tentar, a respeito desta discussão, colocar o lenço islâmico, a excisão genital e a pena de morte no mesmo saco é uma falácia. Nós todos respeitamos códigos de conduta e, em matéria de vestuário, o próprio António Figueira quando vai trabalhar é “obrigado” a usar fato e gravata e não lhe passa pela cabeça que isso seja igual a cortar uma parte do corpo. O maior perigo de vida que com isso corre é engasgar-se ao almoço.

3.No fundo, o que está aqui em causa é a vetusta ideia que há civilizações e culturas superiores a outras. Parece-me óbvio que há melhorias no mundo: a abolição da pena de morte, os direitos e liberdades. Mas esses progressos não são inerentes a uma etnia ou a uma cultura, são fruto de determinadas condições sociais e históricas: tempos houve em que os povos muçulmanos eram mais tolerantes para com as outras religiões, culturas e ciência do que os católicos. Hoje a França é mais tolerante do que o Afeganistão.
A ideia de povos e civilizações “superiores” é perigosa. Até porque foi a “nossa civilização” superior que inventou os campos de concentração, a solução final, a bomba atómica. Como dizia Edward Said, na sua conferência sobre “O Mito do Choque de Civilizações”, a propósito de uma conhecida passagem do artigo de Bernard Lewis intitulado de Roots of Muslim Rage (em que este defendia a “nossa” civilização judaica-cristã contra os “outros”), “quando ouvimos a palavra ‘nossa’ é melhor fugirmos pela porta de saída”.

4.Finalmente, essa ideia da evolução do inferior para o superior e da inevitabilidade do progresso, tão cara ao iluminismo e ao positivismo, parece-me muito duvidosa. Ainda mais perigosa quando se torna doutrina republicana de Estado com pretensão de educar à força os selvagens. A esse respeito, compartilho das preocupações de Walter Benjamin quando escreveu, em “Le Surrealisme. Le dernier instantané de l’inteligence européene” : “ Pessimismo em toda a linha. Sim, sem duvida, e completamente. Desconfiança em relação ao destino da literatura. Desconfiança em relação ao destino da liberdade. Desconfiança em relação ao destino do homem europeu; sobretudo três vezes desconfiança em relação à possibilidade de qualquer solução – entre as classes, entre os povos, entre os indivíduos. Só confiança ilimitada na I. G Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Lufwafe” (este texto foi escrito em 1928 e fala da empresa que 12 anos depois ia comercializar o Zyklon B, usado no genocídio dos judeus e o aperfeiçoamento pacífico da Lufwafe foi o que se sabe…).

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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