Quatro livros essenciais não traduzidos

Autor: Rui Curado da Silva

Portugal é um país de pobres hábitos de leitura, mas mesmo entre os que escrevem e os que lêem existem pobres hábitos, nomeadamente a ausência de análise e de debate literário. Mas a cereja em cima do bolo é o número impressionante de obras essenciais que nem sequer são traduzidas. Aqui se apresentam quatro grandes obras não traduzidas, escritas nos três últimos anos:

Disarming Iraq, Hans Blix, Pantheon, 2004.

Se Portugal fosse um país a sério, o livro de Hans Blix desencadearia no mínimo um inquérito parlamentar a Durão Barroso e aos seus conselheiros responsáveis pela defesa. Nesta obra, Hans Blix mostra que as provas da existência de armas de destruição em massa que Durão Barroso afirmou ter visto foram intencionalmente apresentadas de uma forma enganosa. Na altura a Administração Bush já tinha conhecimento (bem como russos e israelitas) que se tratavam de fotografias de camiões de transporte de hidrogénio para balões meteorológicos e não laboratórios ambulantes de armas biológicas. O que levanta duas questões graves: 1) Portugal foi ludibriado por um país aliado ao nível de um dos seus mais altos representantes do estado; 2) O episódio mostra a vulnerabilidade do país pela inexistência de aconselhamento científico adequado ao Primeiro Ministro.

Disarming Iraq narra com grande rigor técnico, científico e político, o processo de inspecções de armas de destruição em massa no Iraque liderado por Hans Blix. Trata-se de uma obra essencial para se perceber o quão longe foi a Administração Bush para forjar um motivo para a invasão do Iraque.

The European Dream: How Europe’s Vision of the Future is Quietly Eclipsing the American Dream, Jeremy Rifkin, ed. Jeremy P. Tarcher, 2005.

Esta é na minha opinião a mais eficaz obra de desconstrução dos mitos do liberalismo económico selvagem preconizado pelos neo-conservadores e simultaneamente a obra que compila de uma forma coerente o melhor da esquerda europeia: o modelo social europeu, a laicidade, a protecção ambiental, o respeito pela sexualidade, o trabalhar para viver (e não o contrário), a redução do tempo de trabalho e o direito a férias aumentando a produtividade, a diplomacia internacional e as redes de trabalho que integram empresas, instiuições públicas e associações da sociedade civil, envolvendo vários países, várias línguas e várias moedas. Sempre em comparação com os EUA, Rifkin analisa os melhores exemplos da Europa, sugerindo que se nós, europeus, conseguirmos compilar e aplicar de uma forma generalizada esses exemplos, poderemos desencadear uma pequena revolução na nossa qualidade de vida. A fórmula de Rifkin é simples: a Europa em conjunto pode fazer melhor do que a soma das partes separadas. É isto a essência da esquerda.

De Tchernobyl en Tchernobyls, Georges Charpak, Richard Garwin e Venance Journé, 2005, Odile Jacob

Num país que desatou a discutir o nuclear esta é uma obra obrigatória. Os autores são investigadores que trabalham nos programas nucleares civis dos respectivos países (Charpak foi Nobel da Física) e lançam nesta obra uma série de alertas muito sérios à proliferação de centrais nucleares e de tentativas de programas nucleares artesanais. A busca do lucro fácil e o excesso de confiança têm dado origem a acidentes com consequências económicas desastrosas (em Sellafield, Three Mille Island, Tokai-Mura, etc.) e a situações de risco de acidente e de desprezo pelas regras de segurança que tiveram o seu expoente máximo nos apagões artificiais provocados pela ENRON na Califórnia. Mas esta é sobretudo uma obra muito completa que analisa todos os aspectos da tecnologia nuclear, desde os perigos associados à manutenção dos actuais arsenais nucleares até às suas aplicações civis nos hospitais, nomeadamente na cura de tumores, e à esperança de produção de energia nuclear limpa por fusão através do projecto ITER.

American Vertigo de Bernard-Henri Lévy, Grasset 2006

American Vertigo de Bernard-Henri Lévy (BHL) é um diagnóstico dos EUA de hoje e o diagonóstico de BHL é claro, nas palavras do autor “une nation plus incertaine de ce qu’elle est, mal assurée de ce qu’elle devient, indéterminée quant à la valeur des valeurs, c’est-à-dire des mythes, qui l’ont fondée; c’est un trouble; c’est un malaise; c’est un vacillement des repères et des certitudes, un vertige” (pag.385). Para o ilustrar BHL enuncia quatro séries de sinais:

1) A desregulação dos mecanismos de memória, de que a negação do evolucionismo é um exemplo perfeito;

2) A obesidade económica, financeira e política: os giga-centros comerciais, as mega-igrejas, os ultra-parques de estacionamento, etc;

3) As fracturas no espaço político e social, o fim do melting pot e uma certa desintegração da sociedade;

4) A pobreza, a exclusão e as prisões.

Esta é uma obra deliciosa, brilhantemente escrita, que poderia ser o argumento de um road movie sobre a sociedade americana que se incia em Nova Iorque, passa por Seattle, Los Angeles, Savannah, Nova Orleães, Washington e descobre lugares curiosos da América profunda.

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